Responsável por salvar a vida de diabéticos há quase um século, a insulina ficou conhecida na medicina por ajudar pacientes a recuperar peso e massa muscular. Atualmente, porém, o hormônio também passou a fazer parte de outro universo: o de fisiculturistas saudáveis que utilizam a substância para ganho muscular, mesmo sem diabetes, sem prescrição médica e sem risco de serem identificados em exames antidoping.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
O tema repercutiu após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos. Semanas antes de morrer, ele relatou nas redes sociais que havia passado mal depois de usar insulina. Segundo publicações feitas por ele no Instagram, o atleta sofreu um pico de hipoglicemia, quadro em que os níveis de açúcar no sangue ficam abaixo do considerado seguro. O vídeo acabou resgatado por internautas e passou a circular nas redes sociais.
Apesar disso, a causa da morte de Gabriel foi uma cardiomiopatia hipertrófica no coração, conforme aponta o atestado de óbito do Instituto Médico Legal (IML) obtido pela TV Globo nesta segunda-feira, 25. Ainda assim, o uso de insulina por atletas sem diabetes se tornou alvo de discussão nas redes sociais.
Por que fisiculturistas usam insulina?
Especialistas ouvidos pelo Terra explicam que a insulina passou a ser utilizada por alguns praticantes de fisiculturismo por conta do seu efeito anabólico e anticatabólico. Segundo a endocrinologista Fernanda Parra, o hormônio facilita a entrada de glicose, aminoácidos e outros nutrientes nas células musculares, favorecendo recuperação e crescimento muscular.
"Embora não seja um anabolizante hormonal como os esteroides, ela pode atuar como um agente anabólico metabólico, justamente por estimular o armazenamento de energia e nutrientes no músculo. O problema é que esse uso fora de indicação médica pode trazer riscos extremamente graves", explica.
O endocrinologista André D’Antonio Pires, professor da graduação de Medicina do Mackenzie Alphaville, afirma que o uso indiscriminado de hormônios em busca de ganho muscular tem se tornado cada vez mais frequente entre atletas amadores e profissionais.
“Ela é um hormônio anabólico, ou seja, é um hormônio de construção. Então, o que a gente tem visto, infelizmente, é o uso sem indicação médica desse hormônio para a facilitação do aumento da massa muscular nesses atletas”, afirma.
Qual é a função da insulina no organismo?
Produzida pelo pâncreas, a insulina tem como principal função controlar os níveis de glicose no sangue, permitindo que o açúcar entre nas células para ser usado como fonte de energia. O hormônio também participa do metabolismo de proteínas e gorduras.
“A insulina é um hormônio que é produzido no pâncreas, no organismo humano, e tem um papel fundamental no controle da glicemia do sangue”, explica André D’Antonio Pires.
Segundo os especialistas, a produção da substância acontece continuamente em pequenas quantidades para manter a glicemia equilibrada, aumentando após as refeições para compensar a elevação do açúcar no sangue.
Fernanda Parra destaca, porém, que muitas pessoas ignoram o fato de que a insulina exige um equilíbrio extremamente preciso no organismo. “Pequenos erros de dose ou alimentação podem causar consequências sérias”, alerta.
Quais são os riscos do uso sem indicação médica?
Entre os principais perigos do uso indevido da insulina está a hipoglicemia, quadro em que os níveis de açúcar no sangue caem de forma acentuada. Segundo Fernanda Parra, a condição pode causar tremores, suor excessivo, confusão mental, desmaios, convulsões, coma e até morte. “Dependendo da dose aplicada e da resposta do organismo, a situação pode evoluir rapidamente”, afirma.
André D’Antonio Pires também alerta para os riscos associados ao uso indiscriminado do hormônio. “Essa hipoglicemia pode ser um gatilho para complicações não desejadas”, acrescenta.
Além dos riscos imediatos, Fernanda explica que o uso inadequado pode favorecer ganho excessivo de gordura corporal, resistência à insulina, alterações metabólicas e maior risco de desenvolvimento de diabetes no futuro.
Diferença entre uso médico e uso recreativo
Os especialistas ressaltam que existe uma diferença importante entre o uso médico da insulina e o uso recreativo feito por pessoas saudáveis.
No caso de pacientes diabéticos, o hormônio é utilizado para corrigir uma deficiência ou dificuldade do organismo em controlar a glicose no sangue. O tratamento é individualizado, acompanhado por exames e ajustado conforme a rotina e as necessidades clínicas do paciente.
Já no fisiculturismo, o uso costuma acontecer sem necessidade fisiológica real e com objetivo estético ou de performance.
“Isso faz com que o hormônio seja utilizado de maneira artificial em um organismo que já produz insulina normalmente, aumentando muito o risco de desequilíbrios metabólicos graves”, afirma Fernanda Parra.
O que especialistas recomendam?
Para quem busca ganho de massa muscular, os especialistas afirmam que o caminho mais seguro continua sendo investir em estratégias naturais e acompanhadas por profissionais.
“O caminho mais seguro e apropriado para praticantes de fisiculturismo é investir em estratégias que promovam ganho de massa muscular de forma fisiológica e sustentável, como alimentação adequada, treino estruturado, sono de qualidade e acompanhamento profissional”, conclui Fernanda.