Estigmatização do câncer impacta a prevenção e o tratamento da doença

Preconceito e medo podem impedir o diagnóstico precoce, atrasar o início do tratamento oncológico e até favorecer prognósticos negativos

23 jul 2026 - 10h04
Foto: Agência Einstein

Apesar do aumento nas taxas de cura e sobrevida em diversos tipos de câncer nos últimos anos, a doença ainda é vista por muitos como uma sentença de morte. Só o que esse estigma pode ser bastante prejudicial ao fazer as pessoas adiarem exames preventivos, evitarem ir ao médico diante de sintomas e não aderirem aos tratamentos necessários.

Segundo uma revisão publicada em 2024 no European Journal of Public Health, o receio de receber um resultado alterado é a principal barreira para a participação em programas de rastreamento de cânceres de mama, colorretal e colo do útero. Esse temor é tão grande que, de acordo com a pesquisa, supera limitações de acesso aos serviços de saúde e dificuldades para agendar exames preventivos. O desconhecimento sobre essas campanhas e os benefícios do diagnóstico precoce pesam na decisão de não fazer acompanhamento.

"Quando transmitimos culturalmente, por meio de novelas, filmes e notícias na imprensa, a ideia de que o câncer traz apenas prejuízos, perda de autonomia e dor, as pessoas tendem a absorver essa visão distorcida da doença", explica a psicóloga Karla Cristina Gaspar, que atua no ambulatório de oncologia clínica e quimioterapia do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (HC-Unicamp), no interior de São Paulo. "Com isso, antes mesmo do paciente construir sua própria experiência com o câncer, acaba recuperando uma espécie de 'sofrimento social' que, não necessariamente, vai corresponder à sua vivência individual."

A palavra "câncer" é utilizada para nomear mais de 100 tipos de doenças. Isso significa que um indivíduo com câncer de intestino, outro com câncer de cabeça e pescoço e um com câncer de mama enfrentam condições diferentes, que exigem tratamentos distintos e podem levar a efeitos colaterais que não se assemelham sempre. Essa diferenciação não se limita ao tipo da doença, mas também ao seu estadiamento. Os impactos de um mesmo câncer podem variar se ele estiver, por exemplo, em estágio inicial, localmente avançado ou metastático - quando as células cancerígenas estão disseminadas para outras partes do corpo além daquela originalmente afetada.

Não à toa, a personalização do cuidado é um dos conceitos mais importantes da medicina oncológica atualmente. "Hoje, entendemos que o paciente precisa exercer um papel ativo e responsável em relação à saúde. Não se trata de responsabilizá-lo de forma agressiva pelo próprio cuidado, mas de reconhecer sua autonomia para tomar decisões, sempre em parceria com a equipe que o acompanha", aponta a oncologista clínica Juliana Rodrigues Beal, do Einstein Hospital Israelita. "Quando assumimos o papel de protagonistas da nossa saúde, maiores são as chances de sucesso no tratamento. O medo não pode nos paralisar."

A importância da psico-oncologia

Uma pesquisa publicada no Galen Medical Journal estima que aproximadamente 30% dos pacientes oncológicos desenvolvem transtornos psicológicos ao longo do tratamento. Essas pessoas frequentemente relatam sentimentos de vergonha, medo de rejeição e a percepção de serem vistas como frágeis ou incapazes, em um movimento que agrava quadros de ansiedade e depressão ao favorecer a retração social, o isolamento e a recusa em compartilhar experiências ou buscar apoio.

A preocupação com a imagem pública e o receio de discriminação no trabalho ou em círculos sociais reforçam o estresse crônico, criando um ciclo de desgaste psicológico difícil de romper e que ainda pode levar a evitar consultas, esconder sintomas ou negligenciar cuidados essenciais. Isso, inclusive, quando a pessoa já teve uma primeira experiência com o câncer, passou por todo o tratamento e teve um desfecho de cura, mas ainda corre o risco de recidiva, ou seja, a volta da mesma neoplasia ou a ocorrência de um novo tipo de tumor completamente diferente.

Receber um diagnóstico de câncer pode ser comparável a um processo de luto. "Antes da doença, a pessoa conhecia seu corpo e sua rotina de uma determinada forma; após o diagnóstico, ela passa a conviver com uma nova realidade. Há um processo de adaptação entre quem ela era e quem passa a ser depois do câncer", analisa a psicóloga Anali Póvoas Orico Vilaça, presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO). "Também existem os lutos relacionados ao afastamento dos papéis sociais, do trabalho, da convivência familiar e de tantas outras dimensões da vida."

Daí a importância de olhar para a saúde do paciente oncológico como um todo, não somente para a região afetada pelo tumor. "No Einstein, seguimos a premissa da atuação ativa de uma equipe multidisciplinar no cuidado ao paciente", destaca Beal. "Contamos com profissionais de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, psicologia, nutrição, odontologia e outras especialidades que trabalham em conjunto para atender todas as condições de saúde que o paciente possa apresentar."

Especificamente no cenário da saúde mental, o psico-oncologista é o especialista mais capacitado para acompanhar todas as etapas relacionadas à experiência do câncer. Seus serviços podem ser acionados antes mesmo do diagnóstico da doença e durante todo o tratamento, no acompanhamento daqueles que já o concluíram, entre os que seguem convivendo com as consequências emocionais da doença ou mesmo após a morte do paciente, oferecendo apoio a familiares e amigos.

O profissional pode atuar de diversas formas, com abordagens individuais ou coletivas. Entre as possibilidades estão integrar equipes do centro oncológico; acompanhar pacientes durante sessões de quimioterapia; realizar atendimentos em salas de espera; participar da preparação psicológica para cirurgias; atuar em ambulatórios; e realizar o rastreamento de fatores emocionais que possam interferir na qualidade de vida e na adesão ao tratamento.

"A psico-oncologia não trabalha apenas com a redução do sofrimento psicológico. Ela também busca fortalecer os recursos emocionais do paciente, promovendo resiliência, qualidade de vida e fatores de proteção. Quando o acompanhamento acontece de forma contínua, com sessões semanais ou quinzenais, é possível auxiliar o paciente a enfrentar aquilo que está causando seu sofrimento e a desenvolver suas potencialidades para lidar melhor com a doença", descreve Vilaça.

Entre pessoas em tratamento contra o câncer, é comum encontrar dois tipos de extremos: aquelas que recebem o diagnóstico acreditando que a doença representa uma sentença inevitável de morte e as que, para enfrentar o medo, se convencem de que já estão curadas antes mesmo do fim do tratamento. Embora pareçam reações opostas, ambas podem dificultar o enfrentamento. O primeiro grupo costuma carregar estigmas construídos ao longo de décadas, muitas vezes associados à experiência de familiares que adoeceram num período em que os tratamentos eram mais limitados. Já o segundo pode recorrer a uma positividade excessiva que impede o contato com a realidade e reduz a abertura para lidar com as incertezas que fazem parte do processo de cuidado da doença.

"Aprender a conviver com o 'não saber' pode ser um caminho mais protetivo do que se preparar apenas para o pior ou acreditar que a doença já foi vencida, permitindo que o paciente atravesse o tratamento com maior abertura para as diferentes possibilidades que a realidade pode apresentar", avalia Gaspar.

Combate à cancerofobia

Muitos mitos ainda são associados ao câncer. Por isso, talvez o primeiro passo para combater a cancerofobia seja informar melhor a população sobre o que é essa condição, como se prevenir contra ela e os caminhos já disponíveis para seu tratamento.

É fundamental, por exemplo, desfazer a ideia de que o câncer depende exclusivamente da herança genética. Embora fatores hereditários possam aumentar o risco em alguns casos, a maior parte dos tumores está relacionada à interação entre características individuais, envelhecimento e hábitos de vida. A crença de que apenas pessoas com histórico familiar precisam se preocupar acaba reduzindo a adesão às medidas de prevenção e dificulta a conscientização sobre fatores modificáveis, como alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Inclusive, esses fatores de risco raramente se limitam a um único tipo de tumor. Muitas pessoas acreditam que determinados comportamentos estão associados apenas a tipos específicos de câncer, quando, na realidade, seus efeitos são muito mais amplos. A obesidade, por exemplo, está relacionada a um maior risco de diversos tipos da doença, além de favorecer outras condições crônicas. Da mesma forma, não fumar reduz significativamente o risco de câncer de pulmão, mas não elimina a possibilidade de desenvolver a doença.

Outro caminho para enfrentar a cancerofobia é reforçar a importância dos exames de rastreio. "Entre as mulheres, ainda persiste o equívoco de que o autoexame das mamas substitui o acompanhamento médico e os exames recomendados. Embora conhecer o próprio corpo seja uma prática importante, essa estratégia deve complementar, e não substituir, o rastreamento orientado por profissionais de saúde", avalia a presidente da SBPO. O mesmo vale para pessoas que mantêm uma alimentação equilibrada e um plano de atividades físicas regulares. "Esses são fatores de proteção relevantes, mas não dispensam a realização dos exames indicados para cada faixa etária e perfil de risco."

Nos homens, o combate à cancerofobia também passa pela superação de preconceitos, especialmente sobre o câncer de próstata. O receio em relação ao exame de toque ou ao tratamento ainda faz com que muitos posterguem a procura por atendimento médico, comprometendo um possível diagnóstico precoce.

A circulação de informações nas redes sociais também exige atenção redobrada. O relato de pacientes pode contribuir para acolher e informar outras pessoas, desde que fique claro que cada experiência é única. Generalizar um tratamento ou desfecho individual pode aumentar a ansiedade e fortalecer a falsa percepção de que todos os cânceres são iguais ou inevitavelmente fatais.

A conversa sobre prevenção e tratamento deve acontecer o ano inteiro, não apenas nos meses dedicados a campanhas. "Por mais importantes que elas sejam, não adianta lembrar da saúde apenas durante o Outubro Rosa [que conscientiza sobre os cânceres de mama e colo do útero] ou Novembro Azul [que foca na prevenção do câncer de próstata]. Cuidar da saúde precisa ser um compromisso permanente", observa a oncologista do Einstein.

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