A doença celíaca ainda é cercada por desinformação que dificulta seu reconhecimento e contribui para o alto número de casos não diagnosticados. Da ideia de que seria apenas uma intolerância ao glúten até a crença de que sempre provoca sintomas digestivos, esses equívocos reforçam diagnósticos tardios e fazem com que muitos pacientes convivam por anos com manifestações que nem sempre representam associação à doença.
De acordo com Cássio Vieira de Oliveira, gastroenterologista e endoscopista, chefe do Serviço de Endoscopia Digestiva do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, a condição é autoimune, pode afetar diversos órgãos e nem sempre apresenta sinais evidentes. Por isso, derrubar esses mitos é fundamental para ampliar o diagnóstico e evitar condutas inadequadas, como retirar o glúten da dieta antes da investigação médica.
A seguir, o Cássio Vieira de Oliveira desvenda 5 mitos sobre a doença:
1 - A doença celíaca é apenas uma intolerância ao glúten
Cássio Vieira de Oliveira: Não, a doença celíaca é uma doença autoimune, não uma simples intolerância. A doença celíaca é uma doença sistêmica que pode afetar qualquer órgão ou tecido humano, não apenas o trato gastrointestinal.
2 - A doença celíaca sempre causa sintomas digestivos
Cássio Vieira de Oliveira: Não, a doença celíaca frequentemente se apresenta sem sintomas digestivos. As manifestações extraintestinais são comuns e incluem:
• Sistema neuropsiquiátrico: neuropatia periférica, enxaqueca, depressão e ansiedade;
• Sistema reprodutivo: menarca tardia, infertilidade inexplicada, menopausa prematura;
• Sistema mucocutâneo: como dermatite herpetiforme;
• Sistema musculoesquelético: como osteoporose;
• Sistema hematológico: como anemia por deficiência de ferro ou vitamina B12;
Até 22% dos pacientes com doença celíaca apresentam manifestações neurológicas ou psiquiátricas. Observa-se a anemia por deficiência de ferro em 32% dos adultos e 9% das crianças no diagnóstico.
3 - Cortar o glúten da dieta sem diagnóstico resolve o problema
Cássio Vieira de Oliveira: Não, remover o glúten antes do diagnóstico é fortemente desencorajado, pois reduz drasticamente a sensibilidade dos testes sorológicos e histológicos. A restrição de glúten antes do teste pode resultar em resultados falso-negativos, impedindo o diagnóstico adequado.
4 - Pequenas quantidades de glúten não fazem mal
Cássio Vieira de Oliveira: Não existe um limiar seguro de glúten para pacientes com doença celíaca. Estudos recentes demonstram que a ativação imunológica ocorre em doses de glúten abaixo dos limiares atuais de rotulagem de alimentos.
5 - A doença celíaca é uma doença rara
Cássio Vieira de Oliveira: Não, a doença celíaca é comum, com prevalência de aproximadamente 1% na população geral na maioria dos países. A incidência de doença celíaca aumentou exponencialmente nas últimas décadas. Apesar de sua alta prevalência, a doença celíaca ainda é amplamente subdiagnosticada. Calcula-se que, em média, 70% dos casos (a chamada parte submersa do iceberg celíaco) escapam ao diagnóstico e tratamento.