Burnout já existia na Idade Média — o que a sabedoria medieval tem a nos ensinar

O estresse e o esgotamento mental não são problemas modernos. A Idade Média também deixou lições sobre como lidar com o burnout

26 jul 2026 - 17h49
O estresse e o esgotamento mental não são novidade. Na Idade Média, já eram comuns, e a sabedoria medieval sobre como enfrentá-los ainda faz sentido hoje
O estresse e o esgotamento mental não são novidade. Na Idade Média, já eram comuns, e a sabedoria medieval sobre como enfrentá-los ainda faz sentido hoje
Foto: Alamy / BBC News Brasil

O estresse e esgotamento mental não são problemas exclusivos da vida moderna. Na Idade Média, também eram comuns e parte da sabedoria medieval sobre como enfrentar o burnout (um fenômeno ocupacional, segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS) continua surpreendentemente atual.

Os sintomas, observou João Cassiano, eram sempre os mesmos: cansaço, desesperança, vontade de estar em qualquer lugar, menos no trabalho, e uma espécie de névoa mental — "uma confusão da mente sem explicação" — que fazia os seus colegas se sentirem improdutivos, inúteis e buscar "consolo no sono".

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Quem já enfrentou burnout, esgotamento ou depressão provavelmente reconhecerá ao menos parte dessas sensações. É comum supor que esses problemas sejam consequência das pressões do século 21. Mas Cassiano escreveu isso no século 5 d.C., e seus leitores não eram executivos contemporâneos, mas cristãos dos primeiros séculos exaustos pelas exigências da vida espiritual.

Será que relatos como esse podem ajudar a compreender o mal-estar contemporâneo e até apontar caminhos para enfrentá-lo?

Essa é a tese do novo livro do historiador Peter Jones, Self-Help from the Middle Ages: A Journey into the Medieval Mind (Autoajuda na Idade Média: uma viagem pela mente medieval, em tradução livre), que oferece um panorama das formas como os "padres-terapeutas" — expressão usada pelo autor — orientavam os seus fiéis a superar a angústia espiritual.

João Cassiano foi um dos primeiros pensadores cristãos do século 5 a exercer o papel de "sacerdote-terapeuta"
Foto: Alamy / BBC News Brasil

A pesquisa de Jones revela como o sentimento de esgotamento foi recorrente ao longo da história — uma constatação que, por si só, pode confortar quem enfrenta um momento de profunda angústia.

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"Há muita sabedoria na Idade Média", afirma o historiador. Nos últimos anos, multiplicaram-se livros que buscam lições de vida nas obras dos antigos estóicos (filósofos que pregavam o domínio das emoções e a vida guiada pela razão). Talvez tenha chegado a hora de recorrer também aos manuscritos medievais.

Perdido na Sibéria

Jones conta que a ideia do livro surgiu após enfrentar a própria crise — "o inverno mais frio da minha vida".

Por razões que até hoje diz ter dificuldade para explicar, aceitou o cargo de professor titular de História na Universidade de Tyumen, na Sibéria. Lá, as temperaturas eram tão baixas que, depois de apenas 20 minutos ao ar livre, ele perdia completamente a sensibilidade nas pernas.

Também enfrentava dificuldades com o idioma e sentia muita falta da família, que havia ficado em Dublin, na Irlanda. "Eu deveria estar pesquisando, preparando minhas aulas e seguindo com a minha vida", escreve. "Mas simplesmente não conseguia fazer nada."

Mas, enquanto preparava um novo curso sobre os Sete Pecados Capitais, Jones começou a reconhecer nos relatos medievais ecos da sua própria infelicidade.

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"Você percebe que eles passaram exatamente pelas mesmas coisas que nós", diz. "Os sentimentos sempre foram os mesmos, e as pessoas sempre enfrentaram as mesmas crises."

A acídia (apatia espiritual), ou preguiça, era um dos sete pecados capitais — a estrutura medieval usada para compreender a natureza humana
Foto: Alamy / BBC News Brasil

Jones explica que os sete pecados capitais não aparecem na Bíblia. Eles foram formulados por pensadores cristãos dos primeiros séculos, como João Cassiano, e mais tarde sistematizados pelo papa São Gregório Magno que, segundo o historiador escreve no livro, "considerava que eles eram a ferramenta ideal para compreender os problemas da mente". Esse esquema de "organizar e interpretar todos os pensamentos" era composto por soberba, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.

No século 13, surgiram diversos manuais destinados a orientar os padres sobre a melhor forma de ajudar os fiéis a superar esses problemas durante a confissão. "Quando você lê esses textos, o que vê é algo muito parecido com a terapia", afirma Jones. Em vez de repreender os fiéis, "eles estimulavam uma conversa profunda e cheia de nuances, capaz de chegar ao cerne do problema".

Acídia — ausência de amor e vazio espiritual

Entre os sete pecados, a preguiça foi a que mais refletiu o estado de espírito de Jones durante o período em que viveu na Sibéria. Hoje, a palavra costuma ser associada à indolência ou à falta de vontade de agir. Já os autores medievais identificavam um vazio emocional mais profundo por trás desse estado.

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Conhecida na época como acídia, ela abrangia "uma ausência de amor, uma paralisia do cuidado e um vazio espiritual", escreve Jones. "É quando tudo o que antes iluminava os seus dias passa a despertar apenas indiferença."

Gravura de 1612 retrata o vício da acídia, considerada pelos pensadores medievais um mal que podia ser tratado
Foto: Alamy / BBC News Brasil

Jones conta que se identificou especialmente com um texto do século 13 conhecido como MS 306, preservado no Trinity College Dublin, na Irlanda. Nele, o autor descreve a acídia como "estar parado no meio de um rio caudaloso, diante de uma correnteza espumante que bate contra as minhas pernas, mas sem forças para seguir em frente" — uma sensação de paralisia que Jones reconheceu imediatamente ao lembrar do inverno que passou na Sibéria.

Já os escritos do Archpoet — um autor anônimo da Alemanha do século 12 — retratam a enorme frustração com o trabalho burocrático, em queixas que poderiam ser feitas por muitos profissionais de hoje.

"Seus poemas falam de alguém que trabalha sem parar em um emprego que considera mesquinho e sem sentido, entregando tudo de si enquanto se esgota completamente."

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Jones está longe de ser o único historiador a identificar paralelos entre os males da Idade Média e os da vida contemporânea.

No livro Exhausted (Exaustos, em tradução livre), Anna Katharina Schaffner, historiadora cultural (e coach executiva), estabelece uma relação direta entre a acídia descrita pelos cristãos medievais e o burnout atual, cujos sintomas incluem a tendência a buscar conforto na comida e a recorrer a distrações sem propósito em vez de se dedicar a atividades significativas.

"É um círculo vicioso clássico: quem sofre de acídia se torna cada vez menos capaz de meditar e refletir sobre questões espirituais, enquanto as estratégias inadequadas adotadas para recuperar as energias apenas agravam o problema", escreve Schaffner.

"Nesse sentido, eles são como nós — pessoas do século 21 exaustas pelo burnout, que recorrem a uma série de atividades igualmente improdutivas para evitar lidar com o que realmente importa."

Campos espinhosos e montanhas imponentes

Mas quais eram as soluções? O autor do manuscrito MS 306 responde com uma referência indireta à Bíblia. "Queira você ou não, os jebuseus vivem dentro de suas fronteiras", escreveu. "Você pode subjugá-los, mas não pode exterminá-los."

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Jones explica que os jebuseus eram um povo antigo que, em determinado momento, ocupou Jerusalém e não podia ser completamente expulso. A metáfora, segundo ele, aconselha quem sofre de acídia a aprender a conviver com esses sentimentos, em vez de travar uma luta constante contra eles.

O tratado "Treatise on the Virtues and Vices", de Guilherme Peraldus, aconselha quem sofre de esgotamento mental a buscar um propósito maior
Foto: British Library/ Wikimedia Commons / BBC News Brasil

O tratado Treatise on the Virtues and Vices (Tratado sobre as virtudes e os vícios, em tradução livre), de Guilherme Peraldus (ou William Perault, no francês), segue uma linha semelhante. "Ele nos diz para lembrar que o campo tomado por espinhos um dia voltará a dar frutos."

Para mudar a forma de encarar essas dificuldades, Peraldus propõe encontrar uma "montanha imponente" — um propósito maior capaz de sustentar a pessoa nos momentos difíceis. "É preciso contar com o apoio e a força de alguém que você ama ou de algo que ama para conseguir seguir em frente", explica Jones. "Se você mantiver a fé naquilo que ama, isso acabará voltando para você."

Jones reconhece que, fora do contexto e sem a autoridade dos textos originais, "essas ideias podem soar como clichês". Ainda assim, observa que elas lembram de forma surpreendente abordagens contemporâneas para tratar o burnout e outros problemas emocionais.

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A Terapia de Aceitação e Compromisso, por exemplo, incentiva as pessoas a reconhecerem suas emoções sem tentar mudá-las. Além de aprender a conviver com esses sentimentos, o paciente é estimulado a identificar os seus valores pessoais e a agir de acordo com eles. Acrescente a isso as metáforas medievais dos campos cobertos de espinhos e das montanhas imponentes, e o resultado se aproxima bastante da receita proposta por Peraldus há 800 anos.

Talvez a principal lição deixada por esses pensadores medievais seja a importância do autoperdão — outro tema recorrente na psicoterapia contemporânea.

Jones também cita os escritos de Bernard of Clairvaux, do século 12, um dos fundadores da Ordem dos Cavaleiros Templários.

"Ele comparou viver uma boa vida a correr em um terreno acidentado e diz que qualquer pessoa que percorra uma distância suficiente acabará tropeçando ou caindo", explica Jones. "Todos nós passaremos por momentos em que nos sentiremos completamente sem rumo."

Segundo Jones, há um grande conforto em reconhecer que ninguém sofre sozinho. Seja qual for a aflição, outras pessoas já experimentaram sentimentos semelhantes ao longo de milhares de anos. "É reconfortante sentir a companhia das pessoas que vieram antes de nós", afirma.

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David Robson é jornalista especializado em ciência e autor premiado. Seu livro mais recente, The Laws of Connection: 13 Social Strategies That Will Transform Your Life (As Leis da Conexão: 13 Estratégias Sociais para Transformar Sua Vida, em tradução livre), foi lançado em junho de 2024.

Robson mantém perfis no Instagram e no Threads com o nome @davidarobson e escreve a newsletter 60-Second Psychology (Psicologia em 60 Segundos, em tradução livre), publicada na plataforma Substack. No Brasil, publicou Por que Pessoas Inteligentes Cometem Erros Idiotas?, pela editora Sextante, e O Lado Bom das Expectativas, pela Vestígio.

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