Autistas existem. E agora?

Autistas existem, mas ainda enfrentam barreiras para ocupar espaços. Jornalista diz que discussão precisa ir além da conscientização.

27 set 2026 - 18h00
(atualizado às 18h03)
Resumo
O artigo defende que o autismo deve ser tratado como uma pauta pública e democrática urgente, superando a mera conscientização restrita a famílias e consultórios. Diante da visibilidade crescente de milhões de autistas de todas as idades, a sociedade precisa parar de tratá-los como exceção ou exigir que se adaptem a padrões rígidos. Torna-se imperativo transformar espaços urbanos, escolas, leis e o mercado de trabalho com políticas públicas eficazes que garantam sua plena inclusão e cidadania.

As pessoas ainda aguardam que ele sorria, corresponda, abrace. Esperam que responda às perguntas, que participe das conversas, que se encaixe nos gestos sociais previstos para uma criança.

Autistas existem / Fonte: Canva
Autistas existem / Fonte: Canva
Foto: SaúdeLab / SaúdeLAB

Ele, no entanto, pula as linhas da calçada, imita dinossauros, se esconde atrás das minhas pernas. Nem sempre responde quando alguém fala com ele. Nem sempre quer cumprimentar. Nem sempre consegue permanecer em um ambiente barulhento ou cheio de gente.

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E, porque ainda existe uma expectativa muito estreita de como uma criança deve se comportar, sua presença pode ser confundida com falta de educação. Sua maneira de estar no mundo ainda causa estranhamento.

O problema não é ele.

O problema é uma sociedade que, mesmo diante de milhões de pessoas autistas, continua tratando o autismo como exceção.

Talvez por isso falar sobre o tema em todos os lugares ainda seja tão necessário. No corredor do amaciante e no plenário do Congresso. No recreio da escola e na reunião de trabalho. No jornal de domingo e na conversa do bar. No culto, na missa, no terreiro e na assembleia de condomínio.

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Também precisamos falar no ônibus lotado, na entrevista de emprego, no plantão médico, no restaurante, no aeroporto, no estádio e na roda de samba.

Porque autistas existem.

Sempre existiram.

O que mudou foi a visibilidade.

Eles estão nas ruas, nas escolas, nos parques, nos pontos turísticos, nas universidades e no mercado de trabalho.

São crianças, adolescentes, adultos e idosos. Têm diferentes necessidades de suporte, diferentes possibilidades de comunicação, diferentes condições sociais e trajetórias completamente distintas.

Não há mais espaço para alegar desconhecimento.

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E essa conversa precisa ultrapassar definitivamente os limites da conscientização. Autismo não pode continuar aparecendo como assunto restrito às famílias, aos consultórios, às escolas ou ao mês de abril.

Autismo é agenda pública.

Estamos falando de acesso à saúde, educação, assistência social, trabalho e renda. De formação profissional, planejamento urbano, transporte, moradia e segurança.

Estamos falando de legislação, fiscalização, orçamento público e políticas capazes de acompanhar uma pessoa durante toda a vida.

Estamos falando também de mães que deixam o mercado de trabalho para assumir cuidados que deveriam ser compartilhados; de adultos que chegam ao diagnóstico depois de décadas sem compreender as próprias dificuldades; de crianças excluídas de atividades escolares; de famílias que percorrem diferentes serviços tentando conseguir aquilo que já está previsto em lei.

Nada disso cabe no rodapé.

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Quando uma pessoa autista não consegue permanecer em uma escola porque o ambiente não foi preparado para recebê-la, há uma questão pública.

Quando um adulto não consegue acessar o mercado de trabalho porque uma entrevista exige habilidades sociais que nada dizem sobre sua competência profissional, também.

Quando uma família precisa judicializar um atendimento básico, novamente estamos diante de uma falha coletiva.

Por isso, falar de autismo também é falar de democracia.

É discutir quem tem direito de ocupar os espaços, circular pela cidade, estudar, trabalhar, participar e existir publicamente sem precisar esconder características próprias para ser tolerado.

Durante muito tempo, o esforço foi colocado quase exclusivamente sobre a pessoa autista: aprender a se comportar, suportar o barulho, controlar o corpo, responder adequadamente, parecer menos diferente.

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Esse modelo chegou ao limite.

Não podemos continuar esperando que milhões de pessoas se adaptem, individualmente, a estruturas construídas como se elas não existissem.

Elas existem.

A pergunta, agora, precisa ser dirigida a nós: o que estamos dispostos a mudar?

Fonte: SaúdeLAB
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