O celular é guardado e a reação vem quase imediatamente. Reclamações, irritação ou a pergunta que muitos pais já ouviram em casa: "o que eu vou fazer agora?".
Também se tornaram comuns situações em que a criança perde rapidamente o interesse por brinquedos, livros ou brincadeiras e volta a pedir o celular poucos minutos depois.
Para muitos pais, surge então uma dúvida: as crianças estão desaprendendo a brincar?
A preocupação dos especialistas vai além do tempo de tela.
O que chama atenção é a substituição de experiências importantes para o desenvolvimento, como o brincar livre, a convivência, a criatividade e até a capacidade de lidar com o tédio.
Quando o celular ocupa espaço demais na rotina, a questão não é apenas o que a criança está assistindo. É também o que ela deixa de viver.
O que o excesso de telas está mudando na infância
Profissionais que acompanham o desenvolvimento infantil têm observado comportamentos que aparecem com frequência crescente entre crianças expostas a estímulos digitais por longos períodos.
Entre eles estão dificuldade de concentração, baixa tolerância à frustração, irritabilidade, necessidade constante de entretenimento e menor interesse por brincadeiras espontâneas.
Segundo a terapeuta ocupacional Catiuscia Homem, o problema não está apenas na tecnologia, mas no espaço que ela passa a ocupar na rotina.
"A criança precisa experimentar o tédio, o movimento e a brincadeira espontânea para desenvolver criatividade, autonomia e autorregulação emocional," observa a terapeuta.
De acordo com a especialista, o cérebro infantil precisa de experiências variadas para desenvolver habilidades emocionais, cognitivas e sociais.
Quando os estímulos rápidos predominam, atividades que exigem espera, imaginação e resolução de problemas podem perder espaço.
"Hoje vemos crianças acostumadas a receber estímulos rápidos o tempo inteiro. Isso pode dificultar processos importantes como atenção sustentada, espera e resolução de problemas", afirma.
Esse cenário ajuda a explicar uma queixa cada vez mais comum entre pais e responsáveis, que tem a ver com a sensação de que a criança só quer celular ou demonstra pouco interesse por atividades simples do dia a dia.
"O brincar não é apenas passatempo. É através dele que a criança organiza emoções, aprende a lidar com frustrações, desenvolve linguagem, imaginação e habilidades sociais", explica a especialista.
Excesso de telas na infância / Imagem:
SaúdeLabComo oferecer estímulos além das telas
Reduzir o excesso de celular na infância nem sempre significa simplesmente retirar os dispositivos. Para os especialistas, costuma ser mais eficaz ampliar as oportunidades de experiências interessantes fora das telas.
A música é uma dessas alternativas.
Segundo o musicoterapeuta Gustavo Gattino, doutor em Saúde da Criança e do Adolescente e pesquisador da relação entre música, cérebro e comportamento, ela ativa áreas relacionadas à atenção, memória, emoção e recompensa.
"A música ativa sistemas ligados ao prazer, à recompensa, à atenção, à memória e à emoção. O cérebro não trata música como um simples som de fundo. Ela mobiliza múltiplas áreas ao mesmo tempo", explica o musicoterapeuta.
Além de favorecer a convivência familiar, cantar, dançar ou aprender um instrumento pode estimular foco, criatividade, coordenação motora e regulação emocional.
"A diferença é que ela pode fazer isso promovendo interação humana, criatividade, movimento e aprendizado", assegura o profissional.
Para Catiuscia, o objetivo não deve ser eliminar a tecnologia, mas impedir que ela substitua vivências importantes da infância.
"Muitas famílias usam as telas como ferramenta de sobrevivência na rotina, e isso é compreensível. O mais importante é buscar equilíbrio e garantir que o digital não ocupe o espaço das interações, do brincar e das experiências reais da infância," destaca a especialista.
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6 formas de reduzir o tempo de tela sem transformar a rotina em conflito
- Monte cabanas com lençóis ou proponha brincadeiras de faz de conta.
- Deixe materiais como papel, lápis, tinta, massinha ou blocos de montar acessíveis.
- Reserve momentos para passeios ao ar livre, corridas, bicicleta ou jogos em parques.
- Crie períodos sem telas para toda a família, especialmente durante as refeições.
- Faça playlists com as crianças, cante junto ou transforme tarefas em brincadeiras musicais.
- Incentive atividades compartilhadas, como leitura, jogos de tabuleiro e conversas sem distrações digitais.
O desafio é encontrar equilíbrio
Especialistas reforçam que a discussão não deve ser baseada em culpa ou na demonização da tecnologia. As telas fazem parte da vida moderna e continuarão presentes no cotidiano das famílias.
O desafio é encontrar equilíbrio para que o digital não ocupe o espaço de experiências importantes para o desenvolvimento.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo a criança passa diante da tela, mas quanto tempo ainda sobra para brincar, imaginar, criar vínculos e descobrir o mundo fora dela.
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