Como alinhar a preparação para o vestibular a uma rotina equilibrada: 'Aprender o processo'

Para Ana Paula Gomes Seferian, especialista em metodologia de ensino, planejamento é ponto central para o vestibulando, e começa durante o ensino médio

30 abr 2026 - 05h41

A rotina acelerada da vida atual traz novos desafios. No entanto, quando o assunto é vestibular, a pressão enfrentada pelos estudantes segue intensa ou até maior que antigamente. Para garantir uma boa preparação e manter o bem-estar emocional, é preciso alinhar a preparação a uma rotina realista e equilibrada, como explica a especialista em metodologia de ensino Ana Paula Gomes Seferian.

Hoje vivemos numa época de mudanças, mas algo que não mudou tanto foi a tensão causada pelos vestibulares. Como contornar essa pressão em cima dos estudantes?

O primeiro ponto é o estudante entender que ele pode ter outras oportunidades. Então, se ele presta um vestibular em um ano e, porventura, ele não for aprovado, é importante que aprenda nesse processo, e aprenda, inclusive, estratégias para lidar com a ansiedade, que atrapalha muito.

Publicidade

Há casos de alunos que estão realmente preparados para o vestibular, mas na hora da prova a pressão é tão grande que entram em pânico?

Ah, tem. Na época que eu prestei vestibular, há algumas décadas, eu tive um amigo que só conseguiu fazer a prova na terceira vez que ele tentou. Porque ele passava mal mesmo. O estudante precisa entender que a prova é uma etapa, uma forma de ele ingressar numa nova fase da vida. Mas, se ele não consegue de primeira, não significa que ele está fora, pois pode se preparar melhor para a segunda oportunidade.

E para o dia que antecede, assim como o dia do vestibular, quais dicas poderia dar para os estudantes?

É mais interessante que o estudante descanse, fique tranquilo, procure se alimentar e dormir bem. É fundamental fazer esse preparo do corpo e da mente antes da prova. É trabalhar muito mais essa questão emocional e controlar a ansiedade. Estudar um dia antes do vestibular não vai interferir no desempenho do aluno.

E quais dicas podem ser dadas para o planejamento pessoal de quem vai prestar o vestibular?

É importante o estudante criar uma rotina de estudos dentro da realidade dele. Hoje há pessoas que ingressam na universidade que são trabalhadores. E para a moçada mais jovem, que acabou de sair do ensino médio e pretende se preparar, é importante planejar as semanas com os horários de estudo, assim como o horário para se alimentar direito e para dormir bem; separar as disciplinas e os temas para pesquisas e estudos. Uma coisa que eu acho que é bastante interessante é a pessoa elencar as disciplinas que tem mais dificuldade e, de repente, priorizar em um primeiro momento essas que ela tem mais dificuldade para ficar mais segura e deixar as que se sente mais confortável para depois, até para uma otimização na energia que vai gastar estudando em determinadas horas do dia. É importante também a pessoa fazer algo que lhe dê prazer, como ler um livro, assistir a um filme, fazer uma caminhada, por exemplo. Ao longo dos meses, o estudante está ali imerso nos estudos, aquilo vai esgotando, então é importante ter esses respiros.

E a IA pode se tornar um copiloto nos estudos? Hoje existem ferramentas que criam planos de estudo adaptados às dificuldades, além de simulados infinitos. Como ela influencia a forma de aprender?

Primeiramente, a gente tem de ter clareza que essas ferramentas ainda não são totalmente isentas de erro. Então, por exemplo, se você pensa em pedir ajuda, digamos assim, para uma ferramenta para te auxiliar num bom planejamento, acho que é válido, mas a gente tem sempre de ter um olhar crítico. Não tomar sempre como uma verdade absoluta. Agora, em termos de conteúdos, eu acho que tem de ter um pouco mais de cuidado ainda. E não só na inteligência artificial, mas na própria rede de internet. Nós temos que ter muito cuidado com as fontes que nós buscamos informações.

Publicidade

Em um mundo em que tudo se confere online, qual é o valor de procurar as universidades em que deseja estudar e buscar contato com profissionais e universitários?

Eu acho que é importante. E tem vários materiais também de universidades. Muitas apresentam aqueles guias do estudante que já trazem algumas informações, mas, sem dúvida, é bom a gente conversar com quem está estudando ou já está no ramo que esse aluno quer e pensa em trabalhar. É entender as oportunidades e também os desafios da área. É sempre interessante fazer essa pesquisa até mesmo antes de fazer a inscrição para a prova, para ter uma margem de erro um pouco menor, porque também pode acontecer.

E essa procura deve ser feita com antecedência? Geralmente, no segundo ano do ensino médio?

É, eu acho que sim. No segundo ano já dá, assim como no terceiro ano. Eu penso que os estudantes ainda são bastante jovens para decidir a carreira, mas esse processo de pesquisa, de aprofundamento, de levantamento de informações deve começar a ser feito antes. É uma forma de o estudante já ficar um pouco mais seguro também do que ele quer. Existem também algumas orientações vocacionais que são legais e ajudam bastante.

E como envolver a família nesse processo, sem torná-la mais um foco de pressão?

Eu penso que as famílias podem, dependendo da postura, ajudar ou atrapalhar. Se a família pressiona muito, atrapalha porque coloca um peso ainda maior sobre o estudante. Agora, se a família tenta se organizar para ajudar esse estudante, respeitando os momentos de estudo, pensando em espaços que sejam comuns para a família, mas que sejam adequados para esse estudante ter a sua individualidade, isso ajuda bastante.

Há casos de alunos que estejam se preparando para o vestibular que precisam de um apoio psicológico também para lidar com toda ansiedade e pressão?

Eu acho que sim. Hoje, com o ritmo de vida que nós temos, o bombardeio de informações, é outra lógica, né? Então, as pessoas estão mais ansiosas, naturalmente. Se a pessoa já percebe que o nível de ansiedade está muito elevado para ela, acho que vale a pena sim ter uma conversa com algum especialista. Isso pode ajudar o estudante a criar estratégias para tentar lidar com esse tipo de emoção e de ansiedade.

Publicidade

Hoje muito se fala em tornar a faculdade o centro de estudos do jovem, mas agregar também outros conhecimentos ao mesmo tempo. É a época das microcertificações, dos cursos que atendem a outros interesses. Qual é o valor disso?

De novo, isso vai depender de cada perfil de estudante. Às vezes, ele pode não se encontrar em um primeiro momento em uma determinada carreira que esteja no ensino superior, mas essa busca por conhecimento pode mostrar de repente que, olha, estava achando que era uma engenharia, por exemplo. E você fez outros cursos que te mostraram que não é bem Engenharia. Talvez seja, sei lá, um outro curso que tem ali características ou que ainda ele perceba e identifique uma especialidade mais certa. Que ele seja mais assertivo na escolha do curso.

Quais são as principais dicas que você daria para o aluno tentar se identificar com o curso que vai prestar vestibular?

A vida escolar já é o momento que o estudante vai começar a perceber as potencialidades dele. Quanto mais informação o sujeito tiver sobre as carreiras, mais segurança vai ter na escolha. E é importante também que olhe para o que ele gosta, para o que quer e para o que acredita. Quando trabalha com o que a gente gosta, a gente tem muita chance de ter sucesso. Não é só o lado financeiro, mas de ser uma conquista pessoal mesmo.

Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se