Entre picos de dopamina e o choque da rotina, especialista explica por que o fim da festa pode provocar queda de humor
Depois de dias intensos de blocos, desfiles e encontros, o fim do Carnaval costuma trazer um sentimento inesperado para muita gente: um vazio difícil de explicar. A chamada "depressão pós-Carnaval" não é um diagnóstico clínico, mas descreve uma experiência comum: a queda brusca de humor após um período de euforia coletiva.
Para o especialista em ciência da felicidade e psicologia positiva Gustavo Arns, o fenômeno revela uma confusão frequente entre alegria, prazer e felicidade.
"A alegria é uma emoção passageira. O prazer é ainda mais efêmero, ligado a estímulos sensoriais e picos de dopamina. Já a felicidade é um estado mais amplo e profundo, que não depende apenas de momentos festivos", explica.
O que acontece no cérebro depois da festa?
Durante o Carnaval, o cérebro é intensamente estimulado: música, interação social, dança, cores e novidades ativam circuitos ligados à recompensa e ao prazer. Essa combinação pode gerar o que Arns chama de "ressaca dopaminérgica".
Após dias de alta excitação, o organismo retorna ao seu nível basal de funcionamento. Essa queda pode ser percebida como desânimo, cansaço, irritabilidade ou melancolia.
O mesmo mecanismo costuma ocorrer depois de férias prolongadas, grandes viagens ou eventos aguardados por muito tempo. Quanto maior o pico emocional, maior pode ser a sensação de contraste na volta à rotina.
A volta à rotina pesa — e muito
Além da mudança neuroquímica, existe o fator prático: o retorno às responsabilidades. Caixa de e-mails lotada, compromissos acumulados, trânsito, metas e cobranças.
"Quando desaceleramos por alguns dias e depois voltamos a um ritmo acelerado, o contraste pode gerar angústia. Mesmo quem gosta do próprio trabalho sente essa transição", afirma o especialista.
O problema se intensifica quando associamos felicidade apenas a momentos extraordinários. Se a ideia de bem-estar estiver vinculada exclusivamente a festas, viagens ou lazer intenso, a rotina tende a parecer sem graça — e até frustrante. "Isso é muito pouco para sustentar o bem-estar ao longo da vida."
Felicidade não é ausência de tristeza
Para Tal Ben-Shahar, uma das principais referências mundiais em psicologia positiva, a felicidade é a combinação do bem-estar físico, emocional, intelectual, relacional e espiritual.
"Relacionamentos sólidos, propósito e crescimento nem sempre são experiências alegres, mas são profundamente significativas. A felicidade inclui emoções difíceis. Ela não elimina a tristeza", destaca Arns.
Essa visão ajuda a compreender por que o vazio pós-evento não significa necessariamente que algo está errado, mas pode ser um convite à reflexão.
Quando o vazio merece atenção
Sentir certa melancolia após um período de grande euforia é natural. No entanto, se os sintomas forem intensos, persistentes ou acompanhados de alterações no sono, apetite ou motivação, é importante buscar apoio profissional.
Arns sugere algumas perguntas para atravessar esse momento com mais consciência:
- Tenho espaço para criatividade e prazer no meu dia a dia?
- Minhas atividades cotidianas estão alinhadas aos meus talentos?
- Estou cultivando relações significativas fora dos momentos de festa?
Quanto maior a conexão com o próprio propósito e com vínculos consistentes, mais suave tende a ser a transição entre lazer e rotina.
Como suavizar a ressaca emocional
Algumas atitudes simples podem ajudar:
- Retomar gradualmente o ritmo de compromissos;
- Manter pequenos momentos de prazer na semana;
- Priorizar o sono e o autocuidado;
- Planejar algo positivo para as próximas semanas
"O vazio e a angústia são estados mentais. Reconectar-se com aquilo que faz sentido na própria vida é o caminho para que a felicidade não termine quando a festa acaba", conclui o especialista.