Em "Discurso sobre o Método", René Descartes comparou a leitura de clássicos a viajar no tempo, alertando para o risco de usá-la como fuga para evitar a realidade presente. Essa reflexão ganha relevância contemporânea em uma época em que o escapismo se tornou um estilo de vida, refletindo-se na tendência de distorção da realidade observada entre os jovens da Geração Z, que acabam se distanciando do próprio cotidiano ao se refugiarem excessivamente em outros mundos e épocas.
A escritora Susan Sontag disse que "ler é ir para outro lugar, viver outras vidas e conhecer outros mundos". Soa incrivelmente inspirador e belo, algo que poderíamos postar em um story do Instagram com a foto de um cantinho aconchegante para leitura e uma xícara de café fumegante. Há quase quatro séculos, René Descartes refletiu sobre essa metáfora, mas a subverteu: "É quase a mesma coisa conversar com pessoas de outros séculos e viajar".
Com essa reflexão, Descartes pretendia questionar a educação de sua época e apontar o que ele considerava um perigo: o uso da erudição histórica e da leitura dos clássicos como uma rota de fuga para evitar o confronto com a realidade do presente.
O curioso é que, em uma era em que a fuga parece ser o nosso modo de vida, seja para escapar do desconforto, do compromisso ou do cotidiano, o que Descartes explica sobre o que acontece com aqueles que viajam (ou leem) demais e se distanciam do próprio presente faz mais sentido hoje do que quando ele escreveu sobre isso em "Discurso sobre o Método". E isso fica evidente na forma como a manipulação da realidade se tornou uma tendência entre a Geração Z.
Tornar-se um estranho na própria vida
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