O problema de falar de filósofos que viveram há mais de dois mil anos é que muitas citações atribuídas a eles, na verdade, nunca foram ditas. Ou então parecem se encaixar perfeitamente em seu pensamento, mas não aparecem em nenhuma de suas obras. É o caso da frase "a pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos", frequentemente atribuída a Platão.
Ela não aparece de forma literal em nenhum texto platônico preservado e chegou até nós como uma citação de autoajuda de autenticidade duvidosa. O curioso é que a ideia por trás da frase está, de fato, entre os temas mais recorrentes de sua obra. E sua visão sobre os desejos é muito mais sofisticada e reflexiva.
O ciclo sem fim dos desejos
Em Górgias, Platão apresenta um diálogo entre Sócrates e Cálicles. O sofista defende que "quem quiser viver bem deve permitir que seus desejos atinjam a máxima intensidade e não reprimi-los". Sócrates responde que viver dessa forma é algo terrível, comparando essa existência à de "um tonel furado que não consegue reter nada e que obriga seu proprietário a enchê-lo dia e noite sem parar".
A alma dominada por desejos ilimitados seria como esse tonel: não importa o quanto se coloque dentro, ela continuará vazia. Séculos depois, a psicologia acabou dando razão a Platão e a Sócrates.
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