O consumo de cação levanta dúvidas frequentes entre consumidores, principalmente em relação à segurança alimentar e à própria identidade do animal. Afinal, em muitos mercados e restaurantes, usa-se o termo de forma genérica. Isso acaba escondendo informações importantes sobre origem, espécie e possíveis riscos à saúde. Essa falta de clareza contribui para a percepção de que comer cação pode ser perigoso.
Nos últimos anos, pesquisadores, órgãos ambientais e entidades de defesa do consumidor têm alertado para cuidados específicos com o cação. Questões como contaminação por metais pesados, sobrepesca de tubarões e rotulagem inadequada aparecem como pontos centrais no debate. Por isso, entender o que é o cação e por que ele gera tanta preocupação é um passo importante para quem busca consumir pescado de forma mais informada.
Afinal, cação é peixe ou tubarão?
Na prática do comércio brasileiro, a palavra cação costuma designar diferentes espécies de tubarões de pequeno e médio porte. Do ponto de vista biológico, o cação pertence ao grupo dos peixes cartilaginosos, assim como raias e quimeras. Ou seja, tecnicamente ele é peixe, mas não é um peixe ósseo como sardinha, tilápia ou salmão. Essa diferença é relevante, pois espécies de tubarão apresentam características próprias de crescimento, reprodução e acumulação de contaminantes.
Outro ponto importante é a forma como o produto chega ao consumidor. Em geral, o cação é vendido em postas ou filés, sem cabeça, pele ou nadadeiras, o que dificulta a identificação da espécie original. Sem essa identificação, torna-se mais complexo saber se se trata de um animal de captura legal, se é uma espécie ameaçada ou se existe maior risco de contaminação. Essa generalização sob o rótulo "cação" cria um cenário em que o consumidor não tem acesso a informações detalhadas sobre o que está comprando.
Por que comer cação pode ser perigoso para a saúde?
O principal motivo de preocupação em relação ao consumo de cação está ligado à possibilidade de acúmulo de metais pesados, principalmente mercúrio. Tubarões ocupam o topo da cadeia alimentar marinha e, por isso, tendem a concentrar em seus tecidos substâncias presentes em menores quantidades em outros organismos. Esse fenômeno, chamado de bioacumulação, faz com que espécies predadoras possam apresentar níveis elevados de contaminantes.
Estudos publicados ao longo da última década indicam que tubarões capturados em diferentes regiões podem conter concentrações significativas de mercúrio. A ingestão frequente desse metal está associada a riscos neurológicos, especialmente em gestantes, crianças e pessoas com condições de saúde específicas. Por esse motivo, recomenda-se cautela no consumo de cação, evitando a ingestão em grandes quantidades e com alta frequência.
Além do mercúrio, o cação pode apresentar resíduos de outros poluentes orgânicos persistentes, decorrentes da contaminação marinha. Embora os níveis variem conforme a área de pesca e a espécie, a ausência de rotulagem detalhada dificulta qualquer escolha mais criteriosa. Em muitos casos, o consumidor não sabe de qual região veio o pescado, o que torna a avaliação de risco ainda mais complexa.
Quais são os principais riscos ao consumir cação com frequência?
Quando o consumo de cação é constante, alguns riscos tendem a se tornar mais relevantes. Entre eles, destacam-se:
- Exposição prolongada ao mercúrio: relacionada a possíveis efeitos sobre sistema nervoso, cognição e desenvolvimento fetal.
- Maior ingestão de poluentes ambientais: devido à posição do cação na cadeia alimentar.
- Falta de rastreabilidade: dificuldade de saber a espécie exata, a origem e as condições de captura.
- Consumo de espécies ameaçadas: risco de contribuir, sem saber, para a redução de populações de tubarões.
Alguns grupos populacionais costumam receber orientações específicas de moderação no consumo de grandes predadores marinhos. Entre eles estão gestantes, lactantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas. Em vez de incluir o cação como peixe de rotina, profissionais de saúde frequentemente sugerem priorizar outras espécies de menor porte e ciclo de vida mais curto, que tendem a acumular menos contaminantes.
Como identificar e substituir o cação de forma mais segura?
Para reduzir riscos associados ao peixe cação, alguns cuidados práticos podem ser adotados. O primeiro é buscar informações mais detalhadas no ponto de venda, questionando espécie, origem e tipo de pesca. Apesar de nem sempre haver respostas completas, essa atitude estimula uma maior transparência na cadeia de comercialização do pescado.
Outra medida é diversificar o consumo de peixes, priorizando espécies menores e de ciclo rápido, como sardinha, anchova, cavalinha, tilápia de cultivo certificado e alguns peixes de água doce. Essa variedade ajuda a diminuir a exposição concentrada a contaminantes de um único tipo de animal. Em restaurantes, é possível perguntar se o prato anunciado como cação poderia ser preparado com outro peixe disponível.
- Verificar o rótulo e buscar nome científico ou espécie declarada.
- Priorizar fornecedores que informem área de pesca ou tipo de cultivo.
- Alternar o cação com outras fontes de proteína de origem marinha ou de água doce.
- Consultar orientações de órgãos de saúde para grupos sensíveis, como gestantes e crianças.
Outro aspecto frequentemente mencionado por especialistas é o impacto ambiental do consumo de tubarões. Como muitos deles se reproduzem lentamente, a captura excessiva pode afetar a estabilidade dos ecossistemas marinhos. Assim, ao avaliar se vale a pena comer cação, entram em jogo não apenas questões de segurança alimentar, mas também de conservação e de escolha consciente do pescado consumido no dia a dia.