À medida que a terapia hormonal ganha cada vez mais espaço nas redes sociais, na mídia e em consultórios, um grupo de mulheres ainda se sente à margem dessa discussão: aquelas com contraindicação ao tratamento. Muitas chegam às consultas acreditando em algo inevitável. Elas acham que vão conviver com ondas de calor, insônia, alterações de humor, ressecamento vaginal e outros sintomas da menopausa, sem possibilidade de melhora. Essa percepção, no entanto, está longe da realidade.
Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2030 mais de 1,2 bilhão de mulheres estarão na pós-menopausa no mundo. Cerca de 47 milhões ingressarão nessa fase anualmente. Como elas vivem, em média, mais de um terço da vida após o fim do período reprodutivo, especialistas e órgãos de saúde passam a considerar a menopausa uma importante questão de saúde pública.
A medicina estima que aproximadamente 80% das mulheres enfrentam sintomas relacionados à menopausa. Cerca de um terço desenvolve manifestações moderadas ou intensas. Esses quadros, então, comprometem significativamente a qualidade de vida, o sono, o desempenho profissional, os relacionamentos e a saúde mental. Os médicos destacam entre os sintomas mais frequentes, por exemplo: fogachos, suor noturno, insônia, ansiedade, alterações de humor, dores articulares, redução da libido, dificuldades cognitivas e síndrome geniturinária da menopausa.
Contraindicações na menopausa
Embora a terapia hormonal siga como o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores em mulheres elegíveis, os médicos não a indicam para todas. Pacientes com histórico de câncer de mama hormônio-dependente, determinados tipos de câncer de endométrio, tromboembolismo venoso, doença hepática grave, sangramento uterino sem investigação adequada ou outras condições específicas não devem receber o tratamento hormonal sistêmico.
Nesses casos, o médico precisa fazer a indicação de forma individualizada. Assim recomendam a North American Menopause Society (NAMS), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a European Menopause and Andropause Society (EMAS). Os especialistas ressaltam, contudo, que essas contraindicações atingem apenas uma parcela das pacientes. A maioria pode utilizar hormônios com segurança, desde que passe por avaliação médica adequada.
Intervenções para quem não pode usar hormônios
Para as mulheres que realmente possuem contraindicação, o excesso de informações focadas exclusivamente na terapia hormonal acaba gerando frustração, insegurança e a falsa impressão de inexistência de tratamento.
"A terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para muitas mulheres e transformou a qualidade de vida de milhares de pacientes. Mas ela não é indicada para todas. Isso não significa que quem possui contraindicação precise conviver com os sintomas", aponta a a ginecologista Dra. Daniella Campos Oliveira, diretora médica da Clínica Elsimar Coutinho.
"Hoje contamos com alternativas não hormonais eficazes, além de mudanças no estilo de vida e outras estratégias respaldadas por evidências científicas. O mais importante é entender que cada mulher precisa de uma avaliação individualizada para receber a abordagem mais adequada e segura para o seu caso", complementa.
Novos possibilidades
Os avanços científicos dos últimos anos ampliaram significativamente as opções terapêuticas para mulheres que não podem ou optam por não utilizar hormônios. Um dos principais marcos veio com a aprovação do fezolinetanto pela Anvisa. A agência autorizou o primeiro medicamento não hormonal dessa classe no Brasil para o tratamento dos sintomas vasomotores moderados a graves associados à menopausa.
Os estudos internacionais SKYLIGHT 1 e SKYLIGHT 2, publicados na revista The Lancet, demonstraram redução significativa tanto da frequência quanto da intensidade dos fogachos já nas primeiras semanas de tratamento. Os pacientes mantiveram os benefícios ao longo do acompanhamento e os pesquisadores consideraram o perfil de segurança favorável.
Além dessa inovação, outras alternativas já integram a prática clínica em casos selecionados. Médicos prescrevem alguns antidepressivos em baixas doses, como determinados inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) e de serotonina-noradrenalina (IRSN).
Especialistas também aplicam a gabapentina em situações específicas. Soma-se a isso intervenções como terapia cognitivo-comportamental, programas estruturados de atividade física, medidas voltadas à higiene do sono e tratamentos direcionados à síndrome geniturinária da menopausa, incluindo terapias locais quando indicadas clinicamente.
Menopausa e tratamento individualizado
Nenhuma estratégia única atende todas as mulheres. O médico deve escolher a melhor abordagem considerando fatores como idade, tempo desde a menopausa, intensidade dos sintomas, histórico familiar, doenças associadas, fatores de risco, preferências da paciente e as melhores evidências científicas disponíveis.
As diretrizes mais recentes da North American Menopause Society (NAMS) reforçam que a terapia hormonal permanece como a opção mais eficaz para mulheres elegíveis, especialmente quando iniciada antes dos 60 anos ou dentro dos dez primeiros anos após a menopausa. Ao mesmo tempo, a entidade destaca que pacientes impedidas de utilizar hormônios devem receber orientação ativa sobre alternativas terapêuticas baseadas em evidências. Isso evita que permaneçam sem tratamento.
Informação também faz parte do tratamento
Apesar dos avanços científicos, muitas mulheres ainda desconhecem a existência de alternativas eficazes para quem não pode utilizar terapia hormonal. A falta de informação faz com que inúmeras pacientes convivam durante anos com sintomas incapacitantes. Elas acreditam que o sofrimento é uma consequência inevitável do envelhecimento ou que não existe solução.
"Precisamos ampliar esse debate. Quando falamos sobre menopausa, não podemos concentrar toda a discussão apenas na terapia hormonal. Cuidar da mulher nessa fase significa oferecer informação de qualidade, avaliar cada caso de forma individualizada e mostrar que existem alternativas seguras e eficazes para aliviar os sintomas. Nenhuma paciente deve se sentir desassistida porque não pode usar hormônios", conclui a Dra. Daniella Campos Oliveira.
*Texto escrito por Rafael Pereira, da PatWork