Junho marca o Mês Mundial da Conscientização da Infertilidade. E eu considero importante aproveitar esse período não apenas para falar sobre exames, diagnósticos e tratamentos, mas também sobre o sofrimento emocional de quem tenta engravidar e não consegue.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 6 pessoas adultas no mundo é afetada pela infertilidade ao longo da vida. Esse dado mostra que a infertilidade não é uma experiência rara.
Ainda assim, muitas mulheres atravessam esse processo em silêncio, como se estivessem vivendo uma dor que não pode ser dita.
Quando uma gravidez não acontece, a dor não está apenas no resultado negativo de exames ou tratamentos. Está também na expectativa que se renova a cada ciclo, no corpo que passa a ser observado com cobrança, nos planos que precisam ser adiados e nas perguntas que chegam de fora como se fossem simples.
A infertilidade pode afetar a autoestima, o relacionamento, a sexualidade, o projeto familiar e a forma como a mulher percebe o próprio corpo. Por isso, não deveria ser tratada apenas como uma questão médica. Também existe uma dimensão emocional importante nesse processo.
Infertilidade não é fracasso
Para muitas mulheres, não conseguir engravidar pode ser vivido como uma falha pessoal. Como se o corpo tivesse deixado de cumprir algo que era esperado dele.
Essa sensação não nasce apenas da experiência individual. Ela também é construída por uma sociedade que ainda associa muito fortemente o valor da mulher à maternidade.
A maternidade segue sendo tratada, em muitos contextos, como destino natural. Espera-se que a mulher queira ser mãe, consiga engravidar, fique feliz com a gestação e viva esse processo como realização.
Quando isso não acontece, a culpa pode aparecer com muita força. É como se essa mulher passasse a se perguntar: o que há de errado comigo?
Mas infertilidade não define valor, feminilidade nem capacidade de amar.
Ela pode ter diferentes causas, pode envolver fatores femininos, masculinos, combinados ou sem causa aparente. E, muitas vezes, não está sob controle da pessoa que deseja ter filhos.
Infertilidade e saúde mental: o peso das tentativas e das perguntas
A tentativa de engravidar pode se tornar emocionalmente desgastante quando passa a ser marcada por exames, tratamentos, datas, medicações, perdas, espera e incerteza.
Em processos de reprodução assistida, cada etapa pode carregar uma expectativa muito grande. A mulher reorganiza a rotina, o trabalho, a vida financeira e os planos familiares em torno de uma possibilidade.
Quando o resultado não vem, não é apenas um procedimento que não deu certo. É uma esperança que se frustra.
Esse sofrimento pode ser ainda maior quando vem acompanhado de perguntas invasivas.
"E os filhos?"
"Quando vem o bebê?"
"Vocês não querem tentar?"
"Está esperando o quê?"
Para quem está em tratamento, viveu perdas gestacionais ou tenta engravidar há muito tempo, essas perguntas podem reabrir uma dor que talvez a pessoa esteja tentando organizar internamente.
Muitas mulheres passam a evitar encontros familiares, festas, conversas com amigas grávidas ou ambientes onde sabem que serão questionadas.
Isso não significa inveja, frieza ou falta de alegria pela felicidade dos outros. Muitas vezes, é apenas uma tentativa de se proteger.
Estabelecer limites não é falta de educação. Em alguns momentos, preservar a própria privacidade é uma forma de cuidado.
Existe um luto que nem sempre recebe nome
A infertilidade também pode envolver um luto pouco reconhecido.
Há o luto pela gravidez que não veio. Pelo bebê que foi imaginado. Pelo mês em que havia esperança. Pelo tratamento que não funcionou. Pela perda gestacional. Pelo corpo que não respondeu como se esperava.
Esse luto nem sempre é validado socialmente. Muitas pessoas tentam consolar com frases como "relaxa que uma hora vem", "é só parar de pensar nisso" ou "vocês ainda podem tentar de novo".
Mas, para quem está vivendo esse processo, essas frases podem soar como uma tentativa de diminuir a dor. Acolher não é prometer que vai dar certo. Acolher é permitir que a pessoa fale sobre o que sente sem precisar justificar o próprio sofrimento.
Quando buscar ajuda
Nem toda tristeza durante a tentativa de engravidar significa um transtorno emocional. Sentir medo, raiva, frustração ou tristeza pode fazer parte desse caminho. Mas alguns sinais merecem atenção quando se tornam frequentes, intensos ou começam a comprometer a rotina:
- Tristeza persistente
- Choro frequente
- Culpa e ansiedade intensa
- Irritabilidade constante
- Isolamento social
- Alterações no sono
- Perda de interesse por atividades antes prazerosas
- Medo intenso de tentar novamente
Nesses casos, buscar apoio profissional, como o de um psicólogo perinatal, é importante. Não para transformar toda experiência difícil em diagnóstico, mas para evitar que essa mulher atravesse sozinha um processo que já costuma ser emocionalmente exigente.
A infertilidade pode fazer parte da história de muitas pessoas, mas não deveria ser vivida como sentença de fracasso.
Falar sobre isso também é uma forma de cuidado. Porque, quando a dor deixa de ser tratada como vergonha, ela pode finalmente encontrar escuta.