Você já ouviu que manga com leite faz mal? Ou que certos chás "curam" doenças? Por muito tempo, esse tipo de informação (hoje chamada de fake news) circulou de forma quase inofensiva, baseada em tradições, crenças e falta de acesso ao conhecimento científico. Mas o cenário mudou - e ficou mais complexo.
Hoje, o que antes eram apenas ideias populares deu lugar a um fenômeno mais estruturado e intencional: a desinformação. Diferente de equívocos do passado, muitas das informações que circulam atualmente são criadas com o objetivo claro de enganar, influenciar comportamentos ou até vender soluções sem comprovação.
De "fake news" à desinformação
Embora o termo "fake news" tenha se popularizado recentemente, ele não é novo. Surgiu ainda no século 19 para criticar publicações que divulgavam conteúdos falsos de forma recorrente. No campo da saúde, no entanto, especialistas têm adotado um conceito mais específico: desinformação. A diferença está na intenção. Aqui, não se trata apenas de erro - mas de conteúdo produzido deliberadamente para confundir. E isso tem consequências diretas na forma como as pessoas cuidam da própria saúde.
Quando a dúvida se torna regra
Uma pesquisa internacional publicada na revista Nature trouxe um retrato preocupante. O estudo ouviu 16 mil pessoas em 16 países, incluindo o Brasil, para entender o que elas acreditam sobre temas de saúde. Os participantes foram expostos a afirmações comuns nas redes sociais - muitas delas já desmentidas pela ciência - e os resultados chamaram atenção.
Entre 25% e 32% das pessoas disseram acreditar nessas informações. Além disso, uma parcela significativa afirmou não saber se eram verdadeiras ou falsas. No total, cerca de 70% dos entrevistados acreditavam em pelo menos uma dessas ideias.
Entre elas, estavam temas como: segurança das vacinas; benefícios de alimentos específicos; uso de medicamentos na gestação; teorias conspiratórias sobre saúde pública. O dado mais surpreendente é que muitas dessas pessoas tinham ensino superior e buscavam informações sobre saúde com frequência.
A era do excesso de informação
Esse cenário tem nome: infodemia. O termo descreve o volume massivo de informações (verdadeiras e falsas) que circulam rapidamente, dificultando a identificação de fontes confiáveis. Após a pandemia de COVID-19, esse fenômeno se intensificou. Um levantamento citado por organizações internacionais mostrou que a confiança em vacinas infantis caiu em dezenas de países. Ao mesmo tempo, cresce a sensação de confusão: muitas pessoas relatam não saber mais em quem acreditar.
Todo mundo fala, mas nem todo mundo informa
Outro ponto importante é a multiplicação de vozes consideradas "confiáveis". Hoje, uma recomendação pode vir tanto de um especialista quanto de um influenciador ou de alguém próximo - e, muitas vezes, essas fontes têm o mesmo peso na decisão final.
Essa mistura de opiniões, experiências pessoais e conteúdos sem validação científica cria um ambiente onde a informação perde clareza - e o risco aumenta.
Por que isso importa?
Quando o assunto é saúde, acreditar em informações equivocadas pode ter impactos reais: atrasar diagnósticos, comprometer tratamentos e até colocar vidas em risco. Por isso, especialistas reforçam a importância de uma comunicação mais clara, acessível e baseada em evidências. Não basta que a informação exista. Ela precisa chegar de forma compreensível e confiável.
Em meio a tantas vozes, aprender a filtrar o que se consome virou parte do autocuidado. Buscar fontes seguras, questionar conteúdos virais e desconfiar de promessas simples para problemas complexos são atitudes que fazem a diferença. No fim, mais do que nunca, cuidar da saúde também passa por cuidar da informação que você escolhe acreditar.