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Estamos indo de volta pra casa

Voltar para casa também pode ser uma forma de recomeçar; entre saudade, família e novos caminhos, mudar o ritmo da vida pode ser o primeiro passo para recuperar as forças e continuar crescendo

13 out 2026 - 23h07
Resumo
Após anos de independência e conquistas profissionais longe de suas origens, o autor decide retornar para perto da família, motivado pela recuperação da mãe após um câncer e pelo cansaço da rotina acelerada. Embora enfrente receios quanto à readaptação, ele não encara a volta como desistência, mas como um recolhimento estratégico para recuperar o sentido da própria vida, desacelerar e reaprender a conviver com as pessoas queridas, sem abrir mão de suas ambições e projetos futuros.

Estou voltando para casa, embora, depois de tanto tempo morando longe, eu já não saiba tão bem onde é a minha casa. Há tanto de mim na vida que construí longe, e tanto de mim que ficou lá atrás, junto da minha família. Escrever isso parece mais simples do que viver essa decisão.

Voltar para casa também pode ser uma forma de recomeçar; uma reflexão sobre família, saudade, mudanças, amadurecimento e novos caminho
Voltar para casa também pode ser uma forma de recomeçar; uma reflexão sobre família, saudade, mudanças, amadurecimento e novos caminho
Foto: Reprodução: Feyza Yıldırım/Pexels / Bons Fluidos

Passei tanto tempo longe que aprendi a resolver quase tudo sozinho. Criei meus horários, assumi minhas responsabilidades, construí um nome e uma marca. Realizei sonhos e ainda estou vivendo alguns daqueles que, menino, eu mal sabia como alcançar.

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Eu me lembro muito bem de quando tinha 14, 15 anos. Deitado na minha cama de solteiro, no escuro da noite, coberto com aquele cobertor com "desenho de um burrico", que me acompanhava desde a infância, ficava pensando: "Quando irei embora daqui? Esse não é meu lugar." Não sabia exatamente para onde iria, nem como faria isso acontecer, mas sentia que tinha alguma coisa para fazer lá fora. Havia uma vida que eu queria conhecer e alguém que eu sonhava ser.

Hoje, penso naquele menino. Queria que ele pudesse me ver, saber por onde passei e quantas coisas que imaginava naquela cama fizeram parte da minha vida. Acho que ele entenderia por que precisei ir. Talvez se surpreendesse ao saber que, tanto tempo depois, eu teria vontade de voltar.

Enquanto realizava aqueles sonhos, me acostumei a matar a saudade por telefone, a organizar visitas e a ir embora de novo. A distância foi se acomodando na rotina. Havia sempre um trabalho, um compromisso, alguma coisa que me fazia adiar o próximo encontro. Eu sabia que sentia falta, mas nem sempre percebia quanto tempo estava passando entre uma visita e outra.

Embora nunca tenha compartilhado isso por aqui, há cinco anos estamos enfrentando a barra mais difícil que a minha família já passou: o câncer da minha mãe.

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Estive longe na fase mais difícil. Ainda é delicado falar disso, porque há sentimentos que continuo tentando compreender. A preocupação atravessava qualquer distância, mas, de certa forma, estar longe também me deu espaço para reunir forças e encarar o medo que a doença trouxe.

Agora, com ela recuperada, me sinto mais forte para voltar. Durante tanto tempo, desejei que ela ficasse bem. Hoje quero viver com ela os dias que tanto esperei que chegassem. Conversar sobre qualquer coisa, fazer planos, vê-la ocupada com a própria rotina. Quero compartilhar também a alegria e estar junto sem contar quanto tempo falta para ir embora. 

Mesmo assim, tenho medo. Medo de sentir falta da vida que conheço, de estranhar a nova rotina, de descobrir que estar perto também exige aprender a conviver de novo. Minha família mudou, eu mudei. Voltar não vai me devolver a vida que deixei quando fui embora. Vou precisar conhecer de perto quem nos tornamos durante esses anos.

Não consigo fingir que tenho certeza de tudo só porque tomei uma decisão. Posso querer essa mudança e ainda sentir um aperto pelo que vou deixar. Tenho orgulho da minha história, das pessoas que fazem parte dela e de tudo o que construí. Há muito de mim aqui. Por isso, mudar também dói.

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Vou continuar entre lá e cá. São Paulo segue fazendo parte da minha vida, dos meus projetos e dos meus afetos. Mas quero dar mais espaço à vida que posso ter perto da minha família.

Tenho reconhecido um cansaço que já não consigo ignorar. A correria me envolveu tanto que ficou difícil olhar para a minha vida além do que precisava resolver a cada dia. Ainda tenho projetos e vontade de crescer, mas, de certa forma, me sinto estagnado. Preciso de outra perspectiva para enxergar os próximos passos.

Muita gente vê o voltar para casa, o se recolher, como um sinal de que alguém desistiu de crescer. Mas vale pensar no que acontece quando a correria ocupa tanto espaço que já não conseguimos avaliar a própria vida. Há períodos em que fazemos muito, resolvemos muito, e ainda assim sentimos que estamos no mesmo lugar. De tão envolvidos em dar conta de tudo, deixamos de perguntar se aquilo ainda faz sentido para nós.

Recolher-se pode abrir espaço para essa pergunta. Mudar o ritmo e olhar o próprio caminho com alguma distância são formas de se restabelecer. Crescer também exige perceber quando estamos esgotados, quando precisamos rever uma escolha ou encontrar outra maneira de seguir. Às vezes, é ao sair da correria que conseguimos enxergar para onde ainda queremos ir.

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É assim que tenho pensado nessa volta. Os sonhos continuam comigo. Aquele menino que queria conhecer o mundo ainda tem muita coisa para realizar. Hoje, estar perto da minha família pode me ajudar a recuperar as forças e a clareza para continuar.

Também quero participar dos dias que geralmente não viram fotografia. Sentar à mesa numa semana qualquer, demorar numa conversa, acompanhar as pequenas mudanças enquanto elas acontecem. Ter a liberdade de ir embora de um encontro sabendo que posso voltar no dia seguinte.

Não sei quanto tempo vou levar para me sentir em casa. Quero me permitir esse tempo. Depois de tantos anos aprendendo a viver longe, vou precisar aprender a viver perto. Estou voltando com medo mesmo, com gratidão pela vida que construí e curiosidade pela vida que ainda posso construir.

Há lugares aos quais pertencemos pelo que vivemos, outros pelo que ainda queremos viver. Uma mudança pode nos aproximar de um deles sem desfazer o que nos liga ao outro.

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