Tradicionalmente utilizados para adornar o sorriso, os grillz ganharam novas formas e modelos que transcendem a dentição. As joias, que se popularizaram na década de 1980 por influência da cultura afro-americana, agora surgem em eventos de gala e semanas de moda ornamentando narizes, orelhas e outras partes do rosto.
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Embora a tendência tenha ganhado força nos últimos anos, o uso de joias dentais - modelo de grillz mais adotado – data de milênios. Segundo o jornal The New York Times, o povo maia foi um dos pioneiros ao adotar adornos nos dentes. Eles realizavam perfurações superficiais para fixar pedras preciosas com uma resina feita de pasta de ossos moídos e origem vegetal.
Historiadores já encontraram crânios com arcadas dentárias altamente decoradas. Séculos mais tarde, o uso retornou com vigor no sul dos Estados Unidos, tanto em próteses fixas quanto removíveis, confeccionadas majoritariamente em metais nobres como ouro e prata. No entanto, a inserção definitiva na cultura popular ocorreu apenas no início dos anos 1980.
Grillz dentais
O joalheiro nova-iorquino Eddie Plein, proprietário da Famous Eddie's Gold Teeth, é creditado como um dos precursores da tendência. Na época, as peças eram chamadas de “frontais” ou “capas” e ganharam as ruas rapidamente. Nos anos seguintes, os grillz tornaram-se pilares do visual hip hop e da estética gangster — estilo que, inclusive, brilhou no Met Gala 2025, “Superfine: Tailoring Black Style”, onde as peças foram exploradas por artistas como Doechii, A$AP Rocky e Pharrell Williams.
“Antigamente não era apenas ostentação ou estética; era também por necessidade. Por muito tempo, o ouro era usado como restaurador comum e por ser um material excelente. Antigamente, era o melhor material: mais duradouro e mais acessível”, explica a dentista e especialista em grillz, Ana Damski.
No Brasil, o uso dentais também é forte. Ao combinar referências nacionais e internacionais, o público cria uma estética completamente nova. Uma das pioneiras no nicho no país, Damski mantém um consultório odontológico especializado na criação das peças.
Ao Terra, ela conta que a profissão é um legado familiar.O avô de Ana confeccionava peças para fins de restauração e, observando o ofício, ela cresceu apaixonada pela odontologia. “Eu nasci no interior do Paraná, em uma cidade pequenininha, então não tinha dentistas, o que tinha era o meu avô. E ele fazia de tudo, cirurgias, coisas grandes, restaurações… E tudo na cadeira de barbeiro dele. Quando ele ficou idoso, já para se aposentar, eu mexia nas coisas dele. Sempre amei essa parte de dente”, recorda.
Ana se formou na área e optou por unir o interesse pela moda à odontologia. Hoje, soma mais de 100 mil seguidores e atende uma clientela estrelada, que inclui nomes como Slip Mami, Ebony, Bella Campos e Baco Exu do Blues.
“As joias dentais são feitas sob medida, em cima do dente do paciente. Nós moldamos, depois de um mês está pronto porque são feitas manualmente. As joias removíveis podem colocar e tirar na hora em que você quiser. Já as fixas, preparamos o dente como se fosse [para] uma lente de porcelana, preparamos um pouquinho o dente para poder encaixar a pecinha”, explica a especialista.
Segundo Ana, os valores variam conforme a complexidade, com opções a partir de R$ 450. Ela ressalta que, apesar das peças não causarem problemas bucais ou dentários e serem feitas por meio de acompanhamento profissional, o preconceito ainda é uma barreira.
“Já me mandaram prints de muitos dentistas sendo preconceituosos e falando a partir do estereótipo da periferia, estereótipo de maloqueiro… É puro, puro, puro preconceito. É racismo. [...] É a mesma coisa da porcelana, só que é uma faceta de ouro. E por que é coisa de periferia, coisa de favelado, sendo que o material é caríssimo?”, desabafa.
Grills faciais
Os grillz faciais, que adornam outras partes do rosto além da boca, prometem ser uma das tendências deste ano. Na última semana, o estilista Rick Owens chamou atenção ao surgir na Semana de Moda de Paris ao surgir com uma joia nasal. A peça, assinada pelo estúdio Unfortunately Unforgettable, fundado em 2024, é descrita pela designer francesa Unfor como um “grillz nasal” ou “nose armor” (armadura de nariz).
Seguindo o padrão de personalização, a joia é feita sob medida e lembra um piercing, porém sem intervenções invasivas, sendo totalmente removível.
Outro nome de destaque no setor é a Ask & Embla. Fundada em 2013, a marca afirma que cria joias alternativas para narizes, orelhas e lábios, inspiradas nos princípios da mitologia nórdica e com fortes raízes góticas. Já a Yaaqee Studio, fundada em 2020 por Ida Lajevardi, confecciona grillz dentais e para o nariz.
No Brasil, a marca Laet vem com uma proposta parecida e ousada voltada para orelhas.