A cefaleia é um dos efeitos pouco falados do calor excessivo
Ninguém merece dor de cabeça, mas praticamente todo mundo vai enfrentar algum episódio ao longo da vida. Cientificamente conhecida como cefaleia, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), só a enxaqueca já atinge cerca de 30 milhões de brasileiros. Sem contar outros tipos de cefaleia, como a em salvas (mais rara e grave) ou a tensional (aquela dor típica depois de um dia exaustivo, por exemplo).
O problema é que muitas pessoas acabam tratando essas dores como "normais", quando não é bem assim. "Nenhuma dor é normal e nem deve ser banalizada. Normal mesmo é não sentir dor! A dor de cabeça é sempre um sintoma de que algo não vai bem no nosso organismo. A pessoa deve buscar sempre o motivo da dor e, se ela surgir de forma repentina, aguda e severa, procurar o pronto-atendimento para afastar a possibilidade de causas graves, como o rompimento de um aneurisma ou ua meningite, por exemplo", destaca Thaís Villa, médica neurologista especialista em diagnóstico e tratamento da enxaqueca.
A verdade é que a dor de cabeça tem gatilhos — e um deles, pouco comentado, mas bastante relevante, é justamente o calor excessivo. Com as ondas de calor tornando-se cada vez mais frequentes por causa das mudanças climáticas, a Revista Malu conversou com a especialista para entender como o calor afeta o cérebro e o que devemos fazer para nos proteger.
Por que a dor de cabeça no calor acontece?
Thaís explica que, com o calor e o aumento da temperatura corporal, o nosso organismo sofre — e com o cérebro não é diferente. "O calor extremo (assim como as mudanças bruscas de temperatura) é um gatilho que pode desencadear crises de enxaqueca, por exemplo. Quando a doença não está controlada, os gatilhos ficam cada vez mais frequentes e fortes."
Além disso, a especialista explica que a desidratação também pode desencadear crises. A falta de água deixa as células nervosas ainda mais excitadas em pessoas que sofrem de enxaqueca. "O organismo sofre mais no calor e esse estresse provocado pelas altas temperaturas deixa o cérebro em alerta. O que provoca dores de cabeça e outros sintomas", esclarece.
É normal?
Depende. Thaís orienta que, de modo geral, mesmo que você tenha boas explicações para os episódios de dor de cabeça, se eles ocorrem três ou mais vezes por mês, há mais de três meses, é preciso procurar um médico e pedir tratamento especializado. "Se é uma dor de cabeça recorrente, que atrapalha a rotina, a orientação é marcar uma consulta com um neurologista para investigação. Se o diagnóstico for de enxaqueca, o paciente deve ser acompanhado e iniciar um tratamento adequado, com a utilização de medicamentos específicos e orientações não medicamentosas para o controle da enxaqueca, dos sintomas e das crises", diz.
Ela destaca que alterações de temperatura, como calor ou frio extremo, ou mesmo qualquer variação climática muito brusca, podem ser um gatilho direto para a dor de cabeça. "O cérebro tem um 'termômetro' para percepção da temperatura externa e também interna do corpo e, como um todo, é um órgão muito sensível a qualquer mudança de temperatura", pontua.
Kit de sobrevivência
Agora que você já sabe que ter muita dor de cabeça não é normal e pode sim ser induzida pelo calor, confira os pilares para se proteger das dores, segundo Thaís Villa:
- Evite os horários de pico do sol (entre 10h e 16h): "A luz solar pode ser uma combinação muito desconfortável, principalmente para quem tem enxaqueca, já que a fotofobia (sensibilidade à luz) é um dos sintomas da doença".
- Aposte nos óculos escuros de boa qualidade: "O uso deles é essencial para proteger os olhos e ajudar a prevenir crises".
- Mantenha a hidratação. "Quem sofre de dor de cabeça frequente precisa beber bastante água ao longo do dia, já que manter a hidratação é fundamental para evitar o sofrimento do cérebro, especialmente durante o calor".
A médica finaliza reforçando a importância de buscar a causa da cefaleia com apoio de um médico especialista. No caso da enxaqueca, não há cura, mas há cuidados integrados que devolvem qualidade de vida aos pacientes. "Hoje já existem recursos modernos, como a aplicação da toxina botulínica em nervos específicos da cabeça, bloqueando a liberação de mediadores químicos responsáveis pela transmissão da dor e da inflamação, reduzindo a excitabilidade cerebral. Também os anti-CGRP, medicamentos injetáveis com anticorpos monoclonais, têm se mostrado altamente eficazes no controle da doença. O importante é não ignorar os avisos que nosso corpo nos dá", conclui.