Série de Felca no Fantástico: por que é difícil dizer "não"?

Medo do julgamento e necessidade de aprovação são algumas das possibilidades

7 abr 2026 - 11h15

A psicóloga especialista em timidez e ansiedade social, Karina Orso, explica como o medo do julgamento e a dificuldade de se posicionar fazem com que muitas pessoas tenham dificuldade de impor limites

A dificuldade de dizer "não", mesmo em situações simples do dia a dia, ganhou destaque nacional com a estreia da série "Sobre Nós", apresentada pelo influenciador Felca no Fantástico. Ao compartilhar experiências pessoais e investigar comportamentos ligados à saúde mental, o criador de conteúdo trouxe à tona uma questão comum, mas pouco discutida: por que tantas pessoas sentem desconforto ao negar pedidos?

Esse padrão é ainda mais comum entre pessoas tímidas
Esse padrão é ainda mais comum entre pessoas tímidas
Foto: Reprodução de 'Fantástico' (2026) TV Globo) / Revista Malu

Segundo a psicóloga especialista em timidez e ansiedade social, Karina Orso, esse comportamento está frequentemente ligado ao medo do julgamento e à necessidade de aprovação. "Muitas pessoas aprendem, ao longo da vida, que dizer 'sim' é uma forma de ser aceito e evitar conflitos. O problema é que, com o tempo, isso pode fazer com que elas deixem de considerar as próprias vontades", explica.

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Na prática, a dificuldade de dizer "não" não significa falta de clareza ou de opinião, mas sim um receio intenso das possíveis consequências dessa negativa. A pessoa imagina que será mal interpretada, rejeitada ou vista como egoísta. Esse tipo de pensamento faz com que o desconforto de dizer "não" pareça maior do que o próprio incômodo de aceitar algo que não gostaria.

É um padrão

Esse padrão é ainda mais comum entre pessoas tímidas, que tendem a ter uma autocrítica elevada e maior sensibilidade à avaliação do outro. Antes de se posicionar, elas costumam analisar excessivamente o que vão dizer, antecipar reações negativas e, muitas vezes, concluir que é melhor ceder. "A pessoa tímida geralmente quer se posicionar, mas trava diante da possibilidade de desagradar. Ela passa a priorizar o outro e se deixa em segundo plano", afirma Karina.

Com o tempo, esse comportamento pode gerar um acúmulo de demandas e frustrações. Ao aceitar mais do que gostaria, a pessoa passa a lidar com compromissos, responsabilidades e situações que não refletem suas reais vontades. Isso pode levar à sobrecarga emocional, à sensação de falta de controle sobre a própria rotina e até ao esgotamento.

Impactos no trabalho

No ambiente profissional, o impacto tende a ser ainda mais evidente. A dificuldade de impor limites pode fazer com que o colaborador aceite tarefas além da sua capacidade, evite conversas importantes ou permaneça em silêncio diante de situações injustas. "Muitas vezes, o profissional não comunica que está sobrecarregado ou não recusa uma demanda por medo de parecer incapaz ou pouco colaborativo", explica.

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Embora o comportamento possa parecer uma tentativa de manter relações saudáveis, o efeito costuma ser o oposto. Relações equilibradas dependem de limites claros e comunicação honesta. Quando a pessoa não consegue expressar suas necessidades, cria-se um desequilíbrio que pode gerar desgaste emocional e insatisfação.

Aprendendo

Segundo Karina, aprender a dizer "não" não significa se tornar uma pessoa ríspida ou indiferente, mas desenvolver a capacidade de se posicionar com clareza e respeito. Esse processo envolve reconhecer os próprios limites, compreender o medo do julgamento e, aos poucos, experimentar novas formas de comunicação no cotidiano.

À medida que a pessoa começa a se posicionar, percebe que as consequências nem sempre são tão negativas quanto imaginava. Essa experiência contribui para o fortalecimento da autoconfiança e para a construção de relações mais saudáveis. "Dizer 'não' é uma forma de se respeitar. Quando a pessoa entende isso, ela passa a se comunicar de forma mais segura e alinhada com o que realmente deseja", destaca.

Ao trazer o tema para o centro do debate, a série apresentada por Felca amplia a discussão sobre comportamentos silenciosos que impactam diretamente a saúde mental. A dificuldade de dizer "não" pode parecer pequena em situações isoladas, mas, quando se torna um padrão, pode limitar escolhas, gerar sobrecarga e afastar a pessoa de uma vida mais equilibrada.

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No fim das contas, aprender a impor limites não é apenas uma questão de comunicação, mas de autonomia. É a possibilidade de fazer escolhas mais conscientes e construir relações baseadas não apenas na aceitação, mas também no respeito às próprias necessidades.

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