O que começa como entretenimento pode, em alguns casos, se transformar em um problema sério de saúde mental. O ex-participante do BBB Diego Grossi falou abertamente nas redes sociais sobre sua experiência com a ludopatia, um transtorno relacionado ao vício em jogos e apostas.
Em um relato sincero ao podcast Resenha do Maumau, ele contou como percebeu que havia algo errado. "Para quem não sabe, é uma doença chamada ludopatia. É uma doença de compulsividade por jogo e eu não sabia que eu tinha isso. E aí eu comecei a entrar em um círculo vicioso porque qualquer dinheiro que eu tinha, eu queria jogar para aumentar. Só que eu botava e o dinheiro não recuperava".
Impactos a longo prazo
Com o tempo, o comportamento começou a impactar diretamente sua vida financeira. Ele descreveu o momento em que se deu conta da gravidade da situação. "E aí teve um momento que eu entrei naquele negócio de resumo financeiro e quando eu fui ver eu já estava devendo 250 mil reais. E aí foi que eu comecei a falar: 'Caraca!' Na primeira vez que eu deixei de pagar o aluguel no dia. Pô, 4 mil, vou pagar o aluguel hoje, não. Vou pagar o atraso [a multa] e pago daqui a dez dias. E nem apostei tudo. Apostei mil e perdi. Falei: 'Não, agora eu vou recuperar, vou apostar 500'. Aí a compulsão foi aumentando e aquela coisa do desespero: 'Eu tenho que fazer esse dinheiro'".
Com o agravamento do quadro, as apostas passaram a ocupar cada vez mais espaço em sua rotina. "E quando eu fui ver, eu já estava virando noite jogando. Não só no futebol. Tem jogo 24 horas. Tem jogo na Alemanha, na Austrália. Jogo de futebol, ping pong, tênis de mesa... Teve uma época que eu estava generalizado. Eu estava com quatro telas abertas ao mesmo tempo, celular. E aí que vi que eu estava doente e fui procurar ajuda".
O que é a ludopatia
A ludopatia é um transtorno caracterizado pela dificuldade ou incapacidade de controlar o impulso de apostar. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição possui classificação médica e está associada aos códigos CID 10-Z72.6 (mania de jogo e apostas) e 10-F63.0 (jogo patológico).
Assim como outras formas de dependência, trata-se de um vício comportamental. Em vez de uma substância química, o cérebro passa a buscar a sensação de prazer gerada pela aposta. Isso faz com que a pessoa continue jogando mesmo diante de prejuízos financeiros, emocionais ou sociais. Em muitos casos, o vício leva a atitudes extremas, como vender bens, contrair dívidas ou utilizar dinheiro destinado a despesas essenciais.
O que acontece no cérebro
Especialistas explicam que o mecanismo da ludopatia é parecido com o observado em dependências químicas, como álcool ou drogas. O comportamento está ligado ao sistema de recompensa do cérebro.
Esse sistema é responsável por processar sensações de prazer e satisfação. Durante a aposta, ocorre a liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa. Esse processo reforça o comportamento e aumenta a vontade de repetir a experiência.
Com o tempo, a pessoa passa a buscar apostas cada vez mais frequentes ou valores maiores para alcançar o mesmo nível de excitação. Estudos recentes indicam que o desejo intenso de apostar, conhecido como fissura, pode ser tão forte quanto o observado em dependentes de substâncias como álcool ou cocaína.
Por que o problema tem crescido
Embora o vício em jogos exista há décadas - desde os tempos de bingos, cartas e caça-níqueis - especialistas observam que o problema ganhou novas proporções com a popularização das apostas online.
Hoje, basta um celular para acessar plataformas de jogo a qualquer hora do dia. Muitas pessoas relatam que começaram apostando por curiosidade ou diversão, mas acabaram desenvolvendo um comportamento compulsivo. No Brasil, iniciativas de apoio a pessoas com esse tipo de dependência existem há décadas, como a Irmandade de Jogadores Anônimos, fundada em 1993.
Sinais de alerta
Qualquer pessoa pode desenvolver ludopatia, independentemente da idade. O problema costuma se instalar de forma gradual, o que faz com que muitos demorem a perceber que o hábito já se transformou em vício. Entre os sinais que merecem atenção, estão:
- Pensar constantemente em jogos ou em formas de conseguir dinheiro para apostar;
- Sentir necessidade de apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma emoção;
- Tentar parar ou reduzir as apostas, mas não conseguir;
- Ficar irritado, ansioso ou inquieto quando tenta interromper o comportamento;
- Usar o jogo como forma de escapar de problemas emocionais;
- Apostar novamente para tentar recuperar perdas financeiras;
- Esconder de familiares ou amigos a frequência ou o valor das apostas;
- Comprometer relacionamentos, trabalho ou estudos por causa do jogo;
- Pedir dinheiro emprestado para continuar apostando.
Como buscar ajuda
Apesar de muitas pessoas acreditarem que conseguem interromper o hábito sozinhas, a ludopatia costuma exigir acompanhamento profissional. O tratamento pode envolver psicoterapia - especialmente a terapia cognitivo-comportamental (TCC) -, grupos de apoio como Jogadores Anônimos, além de acompanhamento psiquiátrico quando há sintomas associados, como ansiedade ou depressão.
O suporte da família e da rede de apoio também é considerado fundamental para ajudar a interromper o ciclo de apostas e reconstruir a vida financeira e emocional. No Brasil, o tratamento pode ser realizado tanto na rede privada quanto pelo Sistema Único de Saúde (SUS).