Pesquisas revelam que o interesse da Geração Z pela leitura cresceu, com 66% declarando-se leitores em 2025. Contrariando estereótipos sobre nativos digitais, 65% leram livros físicos no último ano, mantendo o apreço pelo papel. Esses jovens adotam um consumo multimodal, alternando entre telas, audiolivros e impressos. O movimento impulsiona livrarias e bibliotecas físicas, que voltaram a ser valorizadas como pontos de convivência, descanso e conexão social para além do consumo puramente virtual.
Celular na mão, vídeos curtos, redes sociais e praticamente uma vida inteira conectada. Quando o assunto é Geração Z, é fácil imaginar que até a leitura aconteça predominantemente por uma tela. Uma nova análise sobre os hábitos desses jovens, porém, mostra um movimento que vai na direção contrária: os livros físicos continuam ocupando um espaço importante - e o interesse pela leitura cresceu.
O trabalho, publicado pela Cambridge University Press e desenvolvido pelas pesquisadoras Kathi Inman Berens e Rachel Noorda, analisou dados de levantamentos nacionais realizados em 2020, 2022 e 2025 para compreender como a Geração Z descobre e consome livros. Os resultados desafiam algumas ideias recorrentes sobre os chamados nativos digitais.
Sim, a Geração Z gosta de ler
Um dos números que mais chama atenção vem do levantamento realizado em 2025: 66% dos integrantes da Geração Z consultados se identificaram como leitores, percentual que apresentou crescimento em comparação com os dados de 2022.
E há outro detalhe interessante. Embora essa geração tenha crescido cercada por smartphones, computadores e serviços digitais, 65% disseram ter lido pelo menos um livro impresso no período de um ano. Ou seja, as telas não necessariamente substituíram o papel.
O que parece estar acontecendo é uma ampliação das maneiras de consumir histórias. Um mesmo jovem pode começar uma obra no celular, continuar em um livro físico e, em outro momento, recorrer ao audiolivro.
A leitura da Geração Z não cabe em um único formato
Para as pesquisadoras, uma das dificuldades de estudos anteriores sobre o assunto estava justamente na maneira como a leitura era medida. "Alguns estudos antigos e influentes não foram projetados para captar como a Geração Z frequentemente lê: multimodalmente - alternando entre impresso, e-book e audiolivro para o mesmo livro - e em plataformas web como Wattpad, Webtoon, Kindle Unlimited, DC Universe Infinite e Marvel Comics online", escreveram Berens e Noorda em artigo publicado no The Conversation.
Isso significa que olhar apenas para a quantidade de romances tradicionais lidos do começo ao fim pode deixar de fora uma parcela importante da experiência dessa geração.
Mangás, fanfics, quadrinhos digitais e histórias publicadas em plataformas on-line também fazem parte desse universo. Até textos que aparecem durante outras atividades cotidianas entram em uma rotina muito mais marcada pela palavra escrita do que pode parecer à primeira vista. A diferença é que esses jovens transitam com naturalidade entre diferentes suportes.
Mas o livro de papel continua conquistando espaço
Talvez seja justamente aí que esteja a surpresa. Mesmo tendo à disposição uma enorme quantidade de conteúdo digital, a Geração Z demonstra interesse pelo objeto físico. Os dados de 2025 indicaram crescimento da leitura de livros impressos em relação ao levantamento anterior.
E esse movimento não termina na última página. Os jovens também passaram a frequentar mais bibliotecas e livrarias físicas. Quase um terço dos participantes afirmou ter comprado um livro presencialmente em uma livraria. Em uma época na qual praticamente qualquer título pode ser comprado com poucos cliques e entregue em casa, sair especificamente para escolher um livro ganha outro significado.
Livrarias e bibliotecas viraram lugares para estar
A explicação pode ir além do prazer de folhear páginas. Quando os pesquisadores investigaram por que os jovens frequentavam espaços ligados à leitura, apareceu uma necessidade bastante contemporânea: encontrar um lugar agradável para passar algum tempo fora de casa.
Bibliotecas e livrarias podem funcionar como espaços de convivência, descoberta e descanso - uma alternativa entre permanecer em casa e frequentar ambientes nos quais consumir alguma coisa é praticamente obrigatório.
A pesquisa encontrou ainda uma associação curiosa entre a frequência às bibliotecas e a solidão. "Os da Geração Z que não visitavam bibliotecas tinham pontuações de solidão mais altas do que aqueles que visitavam", afirmaram as autoras. É importante destacar que essa associação, sozinha, não significa que ir à biblioteca seja responsável por diminuir a solidão. Pode haver diversas características envolvidas nessa relação. Ainda assim, o resultado reforça a importância que os espaços de convivência podem assumir para os jovens.
A volta das livrarias independentes também chama atenção
Esse desejo por experiências presenciais aparece em outro fenômeno observado nos Estados Unidos. Segundo dados divulgados em 2025 pela Associação Americana de Livreiros, o número de livrarias independentes no país havia aumentado significativamente nos cinco anos anteriores.
Para Ryan Raffaelli, professor da Harvard Business School, parte desse interesse está ligada justamente à busca por conexão. "Estamos vendo as pessoas querendo interagir umas com as outras. Querem sentir que fazem parte de algo, fazem parte do tecido social de sua comunidade ou organização. Mas você precisa dar a eles um motivo para se envolver e criar as condições certas para que isso aconteça", explicou à Fast Company.
Nesse contexto, uma livraria deixa de ser apenas um lugar onde livros são vendidos. Cafés, clubes de leitura, lançamentos, encontros com autores e simplesmente a possibilidade de permanecer entre outras pessoas ajudam a transformar esses espaços em pontos de convivência.
Digital ou impresso? Para a Geração Z, podem ser os dois
Talvez o dado mais interessante não seja que os jovens estejam "abandonando" as telas para voltar aos livros. A realidade parece ser mais complexa. A Geração Z não precisa necessariamente escolher entre papel e digital.
Essa geração pode descobrir uma história no TikTok, pesquisar opiniões nas redes sociais, ler parte dela em uma plataforma digital, comprar a edição impressa e depois conversar sobre o livro em uma comunidade on-line. É uma relação multimodal com a leitura - e o papel continua fazendo parte dela.
Por isso, a imagem de jovens que perderam completamente o interesse pelos livros diante do celular talvez precise ser revista. Eles continuam conectados, é claro. Mas, entre uma notificação e outra, muitos também estão redescobrindo algo que existe há séculos: o prazer de entrar em uma livraria, escolher uma história e simplesmente virar a próxima página.