A amamentação é essencial para o bebê e uma jornada repleta de desafios para muitas mães, como relatou a cantora Iza. No entanto, mitos e falta de apoio aumentam o peso emocional do processo. Especialistas desmistificam crenças comuns e reforçam: amamentação é responsabilidade de todos. Descubra como superar dificuldades e criar uma rede de suporte! 🤱💡
Essencial para a saúde e o vínculo, o processo exige muito mais do que apenas a boa vontade da mãe
Em maio, a cantora Iza não segurou as lágrimas durante sua participação no podcast Cá Entre Nós, apresentado por Fátima Bernardes e Beatriz Bonemer. O motivo do desabafo é um velho conhecido de muitas mulheres: as barreiras para amamentar a filha, Nala, hoje com 1 ano e 9 meses. Após enfrentar atrasos na descida do leite no pós-parto, acompanhados de fortes dores e sangramentos, a artista não conseguiu prosseguir com o aleitamento. A experiência a fez carregar um sentimento profundo de culpa, levando-a a confessar que se sentiu 'menos mãe' por um tempo.
A dor de Iza reflete a realidade de milhares de brasileiras. O país ainda não alcançou a meta mundial proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que estabelece o índice de 50% de bebês em aleitamento exclusivo —, embora a taxa tenha evoluído muito bem, saltando de 37,1% em 2006 para 45,8% em 2025. É justamente para fortalecer a conscientização sobre esse alimento padrão ouro na infância que existe a campanha Agosto Dourado.
Para aprofundar esse debate, a Malu conversou com Cinthia Calsinski, enfermeira obstetra e consultora de amamentação referência em saúde da mulher. No bate-papo, a especialista desmistifica os principais tabus sobre o tema, ensina como e quando buscar apoio e reforça uma mensagem urgente: amamentar não é dever único da mãe, mas um compromisso de toda a sociedade. Confira!
A amamentação costuma ser idealizada como um ato 100% natural e mágico, mas a realidade de muitas mães nos primeiros dias é de dor e frustração. Por que esse início pode ser tão desafiador?
"Embora a amamentação seja um processo biológico, ela não é instintiva nem para a mãe, nem para o bebê. Os primeiros dias envolvem adaptações e novidades para ambos. O recém-nascido ainda está aprendendo a sugar de forma eficiente e a mãe precisa desenvolver habilidades como posicionamento, pega e manejo das mamas. Além disso, cansaço, insegurança, recuperação do parto e expectativas irreais podem tornar esse período bastante desafiador. Sentir dificuldades no início é comum, mas sentir dor intensa não é normal e merece avaliação."
Quais são os mitos sobre a amamentação que mais precisamos desconstruir enquanto sociedade?
"O maior mito é acreditar que amamentar acontece naturalmente e que toda mulher saberá fazê-lo sem ajuda. Outro equívoco frequente é achar que leite 'fraco' existe ou que o choro do bebê significa, necessariamente, falta de leite. Também é importante desconstruir a ideia de que dor faz parte da amamentação. Dor persistente costuma indicar algum problema que pode e deve ser corrigido. Outro mito perigoso é responsabilizar exclusivamente a mãe pelo sucesso da amamentação, quando sabemos que o apoio familiar, dos profissionais de saúde e das políticas públicas faz toda a diferença."
O que a gestante e a lactante precisam saber sobre esse processo para se prepararem, sem romantização?
"A melhor preparação não é 'fortalecer o mamilo', mas adquirir informação de qualidade durante a gestação. A mulher precisa entender como funciona a produção de leite, reconhecer os sinais de uma boa mamada, saber quando procurar ajuda e compreender que dificuldades podem surgir sem que isso signifique incapacidade para amamentar. Também é importante alinhar expectativas: amamentar pode exigir aprendizado, ajustes e paciência nos primeiros dias."
Como a mulher pode diferenciar o desconforto normal da adaptação de um problema estrutural que exige intervenção, como mastite, ingurgitamento ou fissuras graves?
"Uma leve sensibilidade no início das mamadas pode acontecer nos primeiros dias. Já dor intensa, fissuras profundas, sangramento, febre, vermelhidão localizada, endurecimento persistente da mama ou piora progressiva da dor não são esperados e exigem avaliação. Quanto mais precoce for a intervenção, mais simples costuma ser o tratamento e menores são as chances de complicações."
Para as mães que sentem que a amamentação está indo mal: qual o passo a passo para corrigir?
"O primeiro passo é não insistir na dor esperando que ela passe sozinha. É fundamental avaliar a pega e o posicionamento do bebê, observar se ele está transferindo leite de forma eficiente e verificar se há alterações na mama ou na cavidade oral da criança. A hidratação e uma alimentação equilibrada são importantes para a saúde materna, mas, isoladamente, não aumentam a produção de leite. O estímulo frequente da mama pelo bebê é o principal fator para manter e aumentar a produção. Quando necessário, bombas extratoras podem ser aliadas, desde que utilizadas com orientação adequada. Quanto mais cedo a mãe procurar ajuda especializada, maiores as chances de resolver o problema com menor prejuízo à amamentação."
Aprender a ordenhar e armazenar leite pode ser uma solução viável para mulheres com dificuldades de amamentar?
"Sim, em algumas situações. A ordenha pode estimular a produção de leite, permitir que o bebê receba leite materno quando não consegue mamar diretamente e facilitar o retorno ao trabalho. No entanto, ela não substitui automaticamente a mamada no peito e deve fazer parte de uma estratégia individualizada. O ideal é que a mulher aprenda a técnica correta de ordenha e armazenamento ainda durante o pré-natal ou logo após o parto, sempre que possível. E é importante lembrar que, para que o leite atenda às necessidades específicas daquele bebê, a boca e o seio precisam ter contato direto. A imunomodulação do leite — ou seja, a adequação da composição para as necessidades imunológicas — só acontece dessa maneira."
Existe essa ideia da amamentação como um processo exclusivo da mãe, quando na verdade toda ajuda é bem-vinda. Como o pai e a rede de apoio devem agir para ajudar de fato, sem meros palpites?
"A rede de apoio tem um papel decisivo. O pai ou parceiro pode assumir tarefas da casa, cuidar do bebê entre as mamadas, oferecer água, alimentação e acolhimento emocional à mãe. Mais importante do que dar opiniões é proteger a mulher de julgamentos e incentivar que ela busque orientação profissional quando necessário."
Até que ponto o estresse, a privação de sono e a exaustão emocional da mãe interferem na produção de leite e na descida?
"O estresse intenso não costuma reduzir imediatamente a produção de leite, mas pode dificultar a ejeção. Isso acontece porque a adrenalina liberada em situações de estresse pode inibir a ação da ocitocina, hormônio responsável pela descida do leite. A mãe pode sentir que 'o leite secou' quando, na verdade, ele está sendo produzido, mas encontra dificuldade para sair. Já a privação crônica de sono e a exaustão emocional podem comprometer a recuperação materna, aumentar a ansiedade e tornar todo o processo mais difícil. Por isso, descanso e apoio não são luxo: fazem parte do cuidado com a amamentação."
Se, mesmo após tentar os ajustes e contar com apoio, a amamentação exclusiva não for possível ou saudável para a mãe, como lidar com a culpa?
"A culpa é alimentada pela ideia de que existe apenas uma forma de ser uma boa mãe. A amamentação é extremamente importante e seus benefícios são inquestionáveis, mas ela precisa acontecer dentro de um contexto em que mãe e bebê estejam saudáveis física e emocionalmente. Quando todas as possibilidades foram avaliadas e a amamentação exclusiva não é viável, isso não representa fracasso. Cuidar da saúde física e emocional da mulher também é um ato de cuidado com o bebê. O mais importante é que as decisões sejam tomadas com informação, apoio e acompanhamento profissional, nunca baseadas em culpa ou pressão social. Uma mãe acolhida e emocionalmente saudável também promove desenvolvimento, vínculo e segurança para seu filho."
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