O novo personagem de Alexandre Borges promete trazer para o horário nobre uma discussão cada vez mais presente - e ainda cercada de silêncio: os vícios emocionais e as compulsões da vida moderna. Na nova novela da Globo, Quem Ama Cuida, o ator dá vida a Ulisses, um homem que vê a própria vida desmoronar aos poucos por conta do vício em jogos, do consumismo exagerado e da tentativa constante de preencher vazios emocionais através de excessos.
Segundo Alexandre, o personagem vai muito além de alguém que simplesmente perde dinheiro em apostas. Para ele, Ulisses representa dores emocionais profundas que muitas pessoas vivem atualmente, ainda que de formas diferentes. "O grande problema é que ele é viciado em jogo e isso vai ficando cada vez mais forte ao longo da novela. Ele começa a perder tudo e vai ficando desesperado", explicou o ator, em entrevista à Quem.
Quando o excesso tenta preencher o vazio
Na trama escrita por Walcyr Carrasco, Ulisses é irmão do personagem de Antonio Fagundes e vive tentando equilibrar os conflitos familiares enquanto afunda cada vez mais em hábitos compulsivos.
Mas, para Alexandre Borges, a novela toca em algo ainda mais profundo: a necessidade humana de buscar compensações emocionais. "Muita gente vive isso, mas a gente ainda fala pouco sobre compulsão. E não é só jogo. Pode ser comida, bebida, cigarro, compra", afirmou.
A fala do ator reflete um comportamento cada vez mais comum em tempos de ansiedade, excesso de estímulos e busca constante por satisfação imediata. Especialistas em saúde mental explicam que muitas compulsões funcionam como tentativas inconscientes de aliviar angústias, preencher sentimentos de vazio ou anestesiar dores emocionais.
O perigo das fugas emocionais
Ao comentar o personagem, Alexandre também levantou uma reflexão importante sobre o julgamento que costuma existir em torno das compulsões. "O mais importante é tentar entender de onde vem esse vazio, sem moralismo, sem apontar o dedo ou achar que é simplesmente falta de caráter", disse.
A observação chama atenção para uma mudança importante na forma como a saúde mental vem sendo discutida. Durante muito tempo, vícios e comportamentos compulsivos foram vistos apenas como falta de controle ou fraqueza individual.
Hoje, profissionais da psicologia e da psiquiatria entendem que esses padrões geralmente estão ligados a sofrimento emocional, ansiedade, traumas e dificuldades internas mais profundas.
Um retrato emocional dos tempos atuais
Para Alexandre Borges, o comportamento de Ulisses também funciona como um reflexo do momento social que estamos vivendo. "Vivemos um momento de muita ansiedade, violência, excesso, golpes, discussões vazias… Acho que o mundo está precisando de mais espiritualidade", refletiu.
Segundo o ator, muitas pessoas acabam recorrendo a algum tipo de excesso para sentir prazer, alívio ou até sensação de existência em meio ao cansaço emocional cotidiano. "Muitas vezes, as pessoas buscam alguma fuga para se sentirem vivas de alguma maneira", afirmou.
"Todos nós somos compulsivos por alguma coisa"
Talvez a fala mais forte de Alexandre seja justamente a que amplia o debate para além dos vícios mais conhecidos. "Espero que a novela consiga discutir isso sem julgamento, porque, de certa forma, hoje em dia todos nós somos compulsivos por alguma coisa."
A reflexão propõe um olhar mais humano e menos condenatório sobre comportamentos que, muitas vezes, aparecem disfarçados de rotina comum: compras impulsivas, uso excessivo de redes sociais, trabalho em excesso, comida, álcool ou a necessidade constante de distração.
Mais do que falar sobre apostas, Quem Ama Cuida promete usar a ficção para discutir uma questão silenciosa da vida contemporânea: a dificuldade de lidar com o vazio emocional em um mundo que oferece distrações o tempo inteiro.