Um estudo liderado pela Unifesp revelou que microfibras liberadas por roupas na lavagem e no uso chegam aos oceanos e prejudicam a vida marinha. A pesquisa mostrou que essas partículas se tornam mais tóxicas na água salgada, causando atrasos no desenvolvimento e anomalias em embriões de ouriços-do-mar. O cenário ameaça a biodiversidade marinha e exige ações da indústria têxtil, políticas públicas, uso de filtros em lavadoras e hábitos de consumo mais conscientes para conter essa poluição.
As roupas que fazem parte da rotina podem contribuir para um problema ambiental que muitas vezes passa despercebido. Segundo estudo conduzido pelo Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Universidade Santa Cecília (Unisanta) e a Universidade Estadual Paulista (Unesp), fibras liberadas por tecidos podem chegar aos oceanos e afetar organismos marinhos. Publicado na revista científica Toxics, o trabalho analisou os efeitos de fibras sintéticas, naturais e mistas sobre embriões de ouriços-do-mar. Os pesquisadores observaram atrasos no desenvolvimento e alterações na formação dos organismos após a exposição às partículas.
Como as fibras das roupas chegam ao mar?
A lavagem das roupas aparece como uma das principais formas de liberação das fibras têxteis. Durante o processo, pequenos fragmentos se desprendem dos tecidos e seguem para o sistema de esgoto. Além disso, quando as estruturas de tratamento não conseguem reter essas partículas, elas podem continuar o caminho até rios e, posteriormente, chegar ao ambiente marinho. Além disso, o próprio uso das peças provoca desgaste. Com o tempo, esse processo libera fibras no ambiente, que podem se espalhar pelo ar e pelo solo. A chuva e o vento também podem contribuir para o transporte dessas partículas até os cursos d'água.
Fibras ficaram mais tóxicas na água salgada
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. As fibras permaneceram por períodos prolongados na água salgada e apresentaram aumento de toxicidade. De acordo com o estudo, esse comportamento pode estar relacionado à degradação dos materiais no ambiente marinho. Então, nesse processo, compostos químicos presentes nas fibras podem ser liberados e aumentar os efeitos prejudiciais sobre os organismos.
O que aconteceu com os embriões de ouriços-do-mar?
Para avaliar os impactos das fibras, os pesquisadores utilizaram embriões de ouriços-do-mar, organismos que podem funcionar como indicadores das condições ambientais. Então, a exposição às partículas provocou atrasos no desenvolvimento embrionário e alterações morfológicas nos organismos analisados. Além disso, essas mudanças chamaram atenção porque o desenvolvimento adequado desses animais possui relação com o equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Segundo o professor Rodrigo Brasil Choueri, da Unifesp, coautor da pesquisa, os efeitos observados reforçaram a preocupação com uma forma de poluição que não pode ser percebida facilmente a olho nu.
O impacto pode atingir a biodiversidade
Alterações no desenvolvimento de organismos marinhos podem gerar consequências para o funcionamento dos ecossistemas. Os ouriços-do-mar, por exemplo, fazem parte de cadeias alimentares e desempenham funções no ambiente marinho. Por isso, os resultados do estudo reforçaram a necessidade de investigar os efeitos das microfibras sobre outras espécies e compreender melhor como essas partículas podem interferir nos ecossistemas. Além disso, ainda de acordo com os pesquisadores, o problema exigia atenção não apenas dos consumidores, mas também da indústria têxtil e do poder público.
Como reduzir a liberação de microfibras?
O estudo apontou algumas estratégias que poderiam ajudar a diminuir a chegada das microfibras aos ambientes aquáticos. Entre elas estavam:
- Filtros para máquinas de lavar: dispositivos capazes de reter fibras antes que elas cheguem ao esgoto poderiam reduzir a liberação desses resíduos;
- Tecidos menos poluentes: o desenvolvimento de materiais que liberem menos partículas durante o uso e a lavagem poderia diminuir a contaminação;
- Monitoramento ambiental: políticas públicas poderiam acompanhar a presença de fibras têxteis em rios e oceanos;
- Consumo mais consciente: escolhas relacionadas aos materiais das roupas e aos hábitos de lavagem também poderiam contribuir para reduzir a liberação de fibras.
A indústria da moda também entra na discussão
Os resultados da pesquisa colocaram a indústria têxtil no centro do debate sobre a poluição por microfibras. Além de buscar materiais que liberem menos partículas, o setor poderia investir em processos de produção capazes de diminuir esse impacto ambiental. O estudo também destacou a importância de políticas públicas e de novas pesquisas para compreender a extensão do problema e desenvolver formas mais eficientes de controlar essas partículas. Enquanto essas soluções avançam, hábitos individuais também podem contribuir para diminuir a quantidade de fibras liberadas no ambiente. Além disso, a pesquisa da Unifesp, portanto, mostrou que até mesmo uma atividade cotidiana, como lavar uma roupa, pode ter consequências que ultrapassam os limites de casa.