A pimenta é um daqueles ingredientes que dividem opiniões, mas dificilmente passam despercebidos. Picante, aromática e extremamente versátil, ela marca presença em pratos salgados, molhos, conservas, sopas, carnes e até em bebidas e sobremesas. Em pequenas quantidades, já é capaz de transformar uma receita comum em algo cheio de personalidade.
Segundo especialistas em gastronomia, o segredo da pimenta não está em "esconder" sabores, mas justamente no contrário: ela potencializa os outros ingredientes. É o que destaca o programa The Food Chain, da BBC World Service, ao explicar que a ardência ajuda a realçar nuances de aroma e gosto que, sem ela, passariam despercebidas.
Um ingrediente ancestral e global
Muito antes da colonização, povos indígenas das Américas já cultivavam e consumiam pimentas do gênero Capsicum. Há registros de uso que remontam a cerca de nove mil anos. Variedades como a malagueta, a dedo-de-moça e a pimenta-de-cheiro faziam parte da alimentação e também de práticas medicinais e culturais.
Com a chegada dos europeus, a pimenta cruzou oceanos e se espalhou pela Europa, África e Ásia. Hoje, ela ocupa o posto de segundo condimento mais usado no mundo, ficando atrás apenas do sal. O fruto deu origem a uma infinidade de produtos: molhos, pastas, geleias, conservas, pápricas e versões desidratadas que circulam globalmente.
Por que a pimenta arde?
A sensação de queimação provocada pela pimenta vem da capsaicina, substância presente principalmente nas sementes e nas nervuras internas do fruto. Ao entrar em contato com a língua, ela ativa receptores do sistema nervoso responsáveis por identificar dor e calor.
Curiosamente, o mesmo receptor é estimulado quando o corpo entra em contato com temperaturas acima de 43 °C. Por isso, o cérebro interpreta a pimenta como uma espécie de "calor intenso", mesmo sem haver uma queimadura real.
E fica o alerta: água não ajuda a aliviar o ardor. Pelo contrário, tende a espalhar a capsaicina. Alimentos como leite, pão, açúcar ou farinha são mais eficazes para amenizar a sensação.
Escala Scoville: medindo o "fogo"
A intensidade da ardência é medida pela Escala de Scoville, criada no início do século XX. Quanto maior o número de unidades Scoville (SHU), maior a concentração de capsaicina. Enquanto o pimentão ocupa o nível zero da escala, variedades extremas, como a Pepper X, ultrapassam 2 milhões de SHU. Já pimentas mais populares, como jalapeño, dedo-de-moça e biquinho, ficam em faixas bem mais moderadas, ideais para o dia a dia.
Pimenta no Brasil: tradição e produção
No Brasil, a pimenta sempre foi mais do que um tempero. Relatos históricos indicam que povos indígenas chegaram a utilizá-la como forma de defesa, espalhando frutos esmagados para afastar invasores - uma ideia que, séculos depois, inspiraria o spray de pimenta.
Atualmente, a produção nacional está espalhada por pequenos e médios agricultores, especialmente em estados como Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Ceará, Bahia e Sergipe. Estima-se que o país produza cerca de 75 mil toneladas por ano, abastecendo tanto o mercado interno quanto o externo.
Benefícios e cuidados
Além do sabor marcante, a pimenta é rica em nutrientes como vitaminas A, C e E, fibras, potássio e compostos antioxidantes. A capsaicina tem ação termogênica, ajudando a acelerar o metabolismo, além de propriedades anti-inflamatórias e analgésicas, bastante estudadas pela ciência.
Entre os benefícios associados ao consumo moderado estão o fortalecimento do sistema imunológico, a melhora da circulação sanguínea e o auxílio no controle da glicemia. Ainda assim, o exagero pode causar desconfortos gastrointestinais, especialmente em pessoas com gastrite, úlceras ou maior sensibilidade intestinal.
Tipos de pimenta e como usar
- Malagueta: bastante picante, comum em pratos nordestinos;
- Dedo-de-moça: ardência média, muito versátil;
- Jalapeño: sabor equilibrado, usada fresca ou defumada (chipotle);
- Pimenta-de-cheiro: aromática e pouco ardida, ideal para molhos e ensopados;
- Biquinho: quase sem picância, ótima para conservas e geleias.
Vale lembrar que nem toda "pimenta" é igual: a pimenta-do-reino, por exemplo, pertence a outra família botânica e deve sua ardência à piperina, não à capsaicina.
Muito além do ardor
Em países como México e Índia, a pimenta é ingrediente central da identidade culinária. No Brasil, aparece tanto na comida baiana quanto nos botecos mineiros, quase sempre como complemento que valoriza o prato - e não como protagonista obrigatória.
No fim das contas, a pimenta é um convite ao equilíbrio: usada com moderação, ela não apenas esquenta a comida, mas amplia sabores, estimula os sentidos e ainda oferece benefícios à saúde. Um pequeno fruto que prova que intensidade e sutileza podem, sim, andar juntas.