A notícia que chegou do Vaticano nesta semana tem sabor de esperança para muita gente no Sul de Minas: o papa Leão XIV reconheceu as virtudes heroicas da irmã Maria Imaculada da Santíssima Trindade (1909-1988), carinhosamente chamada de "Mãezinha", e a declarou Venerável. Esse é um passo importante no caminho rumo à beatificação e, mais adiante, à canonização.
O decreto foi divulgado na quarta-feira (21), após audiência do pontífice com o cardeal Marcello Semeraro, responsável pelo Dicastério para as Causas dos Santos. No texto, a Igreja destaca o perfil espiritual da religiosa mineira: "vida de oração contemplativa, fidelidade ao carisma carmelitano e total entrega a Deus".
O que significa ser "Venerável"?
Na prática, o título de Venerável indica que a Igreja reconhece que aquela pessoa viveu as virtudes cristãs (como fé, esperança e caridade) de forma exemplar e em grau heroico. É uma etapa oficial no processo para levar alguém a proclamação de santo. Funciona assim, em linhas gerais:
- Servo(a) de Deus: início do processo para investigação formal da vida da pessoa;
- Venerável: reconhecem as virtudes heroicas da pessoa;
- Beato(a): geralmente, quando se reconhece um milagre atribuído à intercessão da pessoa (em casos de martírio, dispensa-se essa exigência);
- Santo(a): após novo reconhecimento (normalmente, outro milagre, depois da beatificação).
Quem foi a "Mãezinha" de Pouso Alegre
Nascida em 12 de janeiro de 1909, em Maria da Fé (MG), Maria Giselda Villela cresceu com uma espiritualidade intensa. É descrita pela Santa Sé como "uma profunda experiência de fé, marcada pelo desejo de total consagração a Deus". Ao professar seus votos religiosos, assumiu o nome de irmã Maria Imaculada da Santíssima Trindade. Tornou-se lembrada pela devoção centrada no mistério da Trindade, pela vida de silêncio interior e pela perseverança no caminho contemplativo.
A vocação ganhou forma concreta na fundação do Carmelo da Sagrada Família, em Pouso Alegre, onde ela teve papel decisivo no fortalecimento do carisma carmelitano na Igreja local. A imagem que fica é a de uma presença profundamente espiritual, mas também próxima do povo: uma vida recolhida, sem perder a ligação com as dores, necessidades e pedidos de quem batia à porta.
A religiosa morreu em 20 de janeiro de 1988, em Pouso Alegre. Segundo o Vaticano, ela deixou como herança uma comunidade "marcada pela fidelidade ao carisma carmelitano, centralidade da oração e confiança filial na ação de Deus". E o decreto reforça o núcleo desse reconhecimento: "a Serva de Deus viveu de modo heroico as virtudes cristãs - fé, esperança e caridade - bem como as virtudes humanas, de forma constante e exemplar". Agora, para avançar à beatificação, necessita-se do reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão de Mãezinha, ocorrido após sua morte.
Minas e a tradição de devoção
Minas Gerais já tem nomes fortes nessa caminhada, com quatro beatos ligados ao estado - entre eles Nhá Chica, Padre Victor e Isabel Cristina - e uma lista grande de "Servos de Deus" e "Veneráveis" em diferentes fases do processo.
A elevação de Mãezinha a Venerável, nesse contexto, é mais do que um selo institucional: para devotos e comunidades religiosas, é um reconhecimento público de uma vida que, silenciosamente, deixou marca. E também um lembrete de que, para muita gente, santidade não se mede por grandiosidade - mas por constância: oração, serviço, fidelidade e presença.