Nascido em Belo Horizonte, mas com idas frequentes à fazenda do tio em Curvelo quando criança, o estilista mineiro Gustavo Lins não perdeu o jeito mineiro de ser, nem quando fala nem quando pensa em suas criações. O designer tem peças expostas na mostra da Câmara francesa de Alta-Costura (aberta ao público em geral), com oito estilistas, no São Paulo Fashion Week. Único brasileiro que faz parte da entidade de moda, Gustavo falou com o Terra no saguão da Bienal do Ibirapuera e deu algumas dicas para mulheres e homens não perderem a elegância jamais.
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Para as mulheres, dá dois conselhos. O primeiro é sempre ter roupas com um quê masculino para realçar a elegância. "Pode ser uma cor, como o marrom, um paletó de alfaiataria ou mesmo num vestido feminino com ombro bem cortado", diz, apontando para os vestidos de alta-costura expostos da coleção de Bethy Lagardére, a homenageada desta edição do SPFW. Isso, segundo ele, não significa perder a feminilidade.
O outro conselho é de bom senso. "Se quiser valorizar alguma parte do corpo, opte por apenas uma, e não todas de uma vez." Para os homens, ele aponta dois itens básicos que não pode faltar no guarda-roupa masculino: um paletó bem cortado, de preferência feito sob medida em alfaiate, e um sapato com sola de couro, "material que dá força e energia".
Arquiteto de roupa
Gustavo Lins tem 47 anos e vive há 20 em Paris. Antes, concluiu sua tese de doutorado de arquitetura em Barcelona. O tema foi roupa e arquitetura, focando sua tese nos quimonos japoneses, que desconstruiu inteiro para saber todos os segredos dessa tradicional peça oriental. Tais vestes até hoje são a base para a construção de uma roupa que leve sua assinatura. "O quimono mede de 33 a 36cm de largura. E é sempre a partir dessa medida que começo a elaborar uma roupa", conta o estilista, ao revelar que sempre pensa com a cabeça de um arquiteto. "Eu faço arquitetura, mas não com tijolo, madeira ou cimento, com seda, algodão, porcelana e qualquer outro tecido", afirma, ao explicar que não faz alta-costura, mas pret-à-porter de luxo. E qual a diferença? "Minhas roupas podem ser confeccionadas de forma industrial, a alta-costura não."
Sua formação, realmente, é de alta-costura, trabalhou em ateliês por 12 anos como modelista e, nesse período, foi costureiro mesmo por nove meses. "Posso ser considerado como mão-de-obra especializada". Ele conta que sua infância, passada nas fazendas, colocando selas em cavalo e lavando e escovando os animais ainda o inspira, assim como o ambiente mineiro. "Trabalho muito com couro, por causa dessa experiência com cavalos. E meu estado me traz a cartela de cores, com cinza, preto, violeta e tons mais esmaecidos, como os do cerrado mineiro e as tonalidades dos minerais e das pedras da região."
Ele foi convidado para participar da Câmara de Alta-Costura de Paris há cerca de três anos. A grife que leva seu nome tem seis. "Foi uma surpresa. Eu já tinha recebido o convite um ano antes, mas não aceitei. Depois, fui convidado de novo e já me senti mais preparado." Hoje, seus planos são vender e produzir mais no Brasil. Apenas a loja Esencial, em São Paulo, comercializa suas peças no País.