"Nossa luta por sobrevivência é diária", afirma modelo trans

21 jun 2024 - 12h00
(atualizado às 12h09)

A modelo trans mineira Gabriela Ádie tem colecionado desfiles no Brasil e em Paris, além de publicidades para grifes como Carolina Herrera, Paco Rabanne e Yves Saint Laurent. Tanto trabalho e sucesso é uma caminhada sem volta para reforçar a representatividade trans no mercado internacional.

Gabriela Ádie
Gabriela Ádie
Foto: Divulgação / Elas no Tapete Vermelho

Em entrevista exclusiva ao "Elas no Tapete Vermelho", Gabi lembra que ainda há muito preconceito em relação às pessoas trans e que já sofreu ataques de haters em suas plataformas nas redes sociais, principalmente vindos de perfis falsos. "Aprendi a lidar e ignorar com o tempo, porque percebi que é muito diferente de quando pessoas cis (que se identificam com o gênero que foi atribuído a ela quando ela nasceu) recebem ataques de haters. No caso de pessoas trans, são ameaças à nossa existência", desabafou .

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Nascida em Caratinga (MG), a jovem de 21 anos foi descoberta pelas redes sociais em 2020, mas teve que esperar dois anos até de fato começar a carreira na moda, por conta da pandemia. Em 2022, mudou-se para São Paulo, onde despontou.

Antes de subir nas passarelas, porém, compartilhava conteúdos de maquiagem, que foram o ponto de partida para contratos como criadora de conteúdo para grifes como Carolina Herrera, Paco Rabanne, Yves Saint Laurent, Sephora, Avon, Nívea, Eucerin, entre diversas outras. Hoje, possui mais de 1 milhão de seguidores no TikTok e 121 mil no Instagram.

Gabriela Ádie também participou do reality 'Cabelo Pantene 3' e estrelou campanhas para Simple Organic e Mari Maria - Sephora, consagrando-se modelo disputada entre os grandes players do mercado da beleza.

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No Brasil, foi destaque na São Paulo Fashion Week, onde participou de 4 temporadas, desfilando para marcas como Ellus, Neriage, À La Garçonne, Led, André Lima e também fez parte do casting do desfile da grife Mondepars, de Sasha, que lançou sua coleção dia 10 de junho, em São Paulo. Na Europa, desfilou na semana de moda de Paris para Marine Serre e para a alta-costura da grife Patou.

Confira entrevista completa

Elas no Tapete Vermelho - Qual a importância da representatividade trans na moda atualmente?

Gabriela Ádie - A moda é, por si só, um grande palco de exposição. Nós sabemos o quanto pessoas não LGBT's estão presentes nesse meio, faturando muito, expondo suas ideias, engrandecendo sua imagem. Ocupar a moda enquanto pessoa trans é usar toda essa exposição para atrair olhares para uma causa de grande importância e falar sobre pessoas que vivem, na maioria das vezes, em situação de vulnerabilidade. Ser uma pessoa trans na moda é um desafio que fala não só da moda em si, mas também do reflexo da transfobia cotidiana.

Elas no Tapete Vermelho - Você acha que ainda há muito preconceito?

Gabriela Ádie - É evidente que ainda há muito preconceito, ódio, exclusão e falta de oportunidades. Quando olhamos para os dados trazidos anualmente pelo Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), vemos o tamanho da violência contra pessoas trans no Brasil, especialmente quando colocamos também o recorte social e racial dentro da comunidade trans. Nossa luta por sobrevivência é diária. (Em 2023, segundo a Antra, houve 155 mortes de pessoas trans no Brasil, sendo 145 assassinatos e 10 suicídios. A mais jovem trans assassinada tinha 13 anos).

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Elas no Tapete Vermelho - Já sofreu isso pessoalmente? 

Gabriela Ádie - Já passei por várias situações delicadas, algumas até mais pesadas de se lembrar. Acho que o mais próximo dos olhos de quem me acompanha pela internet foi a onda de transfobia que eu sofria nas plataformas, pelos comentários e mensagens diretas, por volta de 2022. Na verdade até hoje tenho pessoas que se dão o trabalho de enviar mensagens perturbadoras e criminosas se escondendo atrás de perfis falsos. Aprendi a lidar e ignorar com o tempo, porque percebi que é muito diferente de quando pessoas cis recebem ataques de hate. No caso de pessoas trans, são ameaças a nossa existência.

Elas no Tapete Vermelho - Qual sua mensagem as pessoas trans que têm medo de se arriscar no mercado?

Gabriela Ádie -  Minha mensagem é: se fortaleça internamente, antes de qualquer coisa. Quando você sabe se esquivar (ou atacar, se necessário) da transfobia, ninguém consegue te diminuir.

Elas no Tapete Vermelho - Qual seu recado para as marcas em relação à representatividade trans?

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Gabriela Ádie - Gostaria muito que as marcas soubessem escutar e nos contratar cada vez mais pelo nosso talento, para além da causa que representamos. É também de grande importância que as marcas se atentem aos detalhes que cercam nossa existência: como ter times de profissionais preparados e que saibam o mínimo sobre a gente. Ninguém merece chegar num trabalho e ter que explicar que é de péssimo tom perguntar qual o nome "morto" de uma pessoa trans, por exemplo.

Elas no Tapete Vermelho - Entre maquiagem e passarela, de qual você gosta mais ou ambos têm o mesmo peso?

Gabriela Ádie - Pra mim, é quase impossível escolher! Amo cada uma das duas, assim como cada uma tem seu peso. A maquiagem está comigo desde o começo de tudo, fazendo parte até de quem eu sou. Já as passarelas são o que me fazem querer continuar cada dia mais. É uma adrenalina viciante que só quem já cruzou uma passarela entende.

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