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Sobreviventes de 400 milhões de anos de mudanças globais, os tubarões talvez não sobrevivam a nós

Especialistas estimam que cerca de 100 milhões de tubarões são abatidos na pesca a cada ano - um massacre ao qual eles simplesmente não conseguem resistir

19 jan 2026 - 13h52
(atualizado em 20/1/2026 às 15h00)

O menino entra na gaiola de arame com apreensão - mas é o entusiasmo, não o medo, que o faz deslizar do convés do barco para as águas geladas verde-esmeralda da costa da África do Sul. É final de setembro e, apesar de uma brisa fresca, o catamarã construído especialmente para esse fim rapidamente se deslocou do pequeno porto de Gansbaai, 170 quilômetros ao sul da Cidade do Cabo, para a pequena baía onde o grupo de cerca de uma dúzia de visitantes espera encontrar com os moradores mais ilustres do lugar, em seu próprio ambiente natural: os tubarões.

E aos poucos eles aparecem, desfilando na frente do meu neto de dez anos, João Pedro. Meia dúzia de Bronze whalers, ou tubarões-cobre, uma das espécies de tubarão mais bonitas que existe, atraídos pelo cheiro da isca que fica embebida na água ao redor da gaiola, hipnotizam os turistas que vêm de todo o mundo para vê-los, gerando empregos e renda para essa comunidade costeira. Só essa empresa de ecoturismo, a Marine Dynamics, emprega cerca de 140 pessoas na observação de tubarões e baleias.

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Seu fundador, Wilfred Chivell, é um empreendedor visionário que investe uma parte substancial de sua receita no Dyer Island Conservation Trust, que também está ajudando a prevenir a extinção dos pinguins-africanos.

Atravessando o Atlântico e nas águas cristalinas e quentes do Caribe Mexicano, sigo um grupo de mergulhadores até o fundo arenoso a cerca de meia milha da Playa del Carmen. Ao entrarmos na água, as silhuetas de enormes fêmeas de tubarão-touro aparecem, circulando intensamente enquanto nosso guia de mergulho os recebe com uma caixa cheia de cabeças de atum.

Nos acomodamos no fundo em uma fila, observando essas criaturas de três metros continuarem circulando, ocasionalmente dando uma mordida no peixe oferecido pelo guia de mergulho. Como acontece na África do Sul, aqui uma pequena empresa chamada Phantom Divers lucra com a presença dos tubarões, e seu proprietário, Chino Loria, apoia esforços de conservação junto com outros operadores de mergulho por meio de uma ONG local, Saving Our Sharks A.C.,que transformou pescadores de tubarões em guardiões de tubarões.

O mito do predador assassino

Como Wilfred e sua Marine Dynamics, e Chino Loria e seus Phantom Divers, muitas pessoas e pequenos negócios ao redor do mundo agora estão lucrando com o uso não-extrativo de tubarões por meio de mergulho e ecoturismo. Das águas quentes das Bahamas às correntes frias que banham a ilha de Yonaguni, no Japão, esses encontros valem milhões de dólares para dezenas de comunidades costeiras que aprenderam a protegê-los. Além do valor econômico, esses encontros são uma oportunidade inestimável para descartar a noção tragicamente falsa de tubarões como máquinas de matar sem mente.

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Impulsionado pela popularidade do filme dos anos 1970 Tubarão, blockbuster de Steven Spielberg adaptado do best seller homônimo do escritor Peter Benchley, esse mito permitiu que tubarões fossem mortos de forma indiscriminada em todo o mundo, sem qualquer reação pública. Esses predadores esguios e maravilhosamente adaptados, que evoluíram há cerca de 400 milhões de anos para se tornarem a diversidade de espécies atualmente existentes, não deveriam ser motivo de preocupação para os frequentadores da praia. Na verdade, há centenas de vezes mais chances de morrer em um acidente de carro, picada de abelha ou queda de um coco na cabeça do que de um incidente com tubarão.

Até mesmo o muito temido tubarão branco retratado no filme não é caçador de pessoas; nas regiões onde a espécie é comum, como as costas da África do Sul, Austrália e Califórnia, centenas de milhares de pessoas nadam ou surfam todos os dias em sua presença, e ainda assim menos de dez fatalidades por ano podem ser atribuídas aos tubarões globalmente. Não somos considerados presas pelos tubarões, e os incidentes geralmente são um caso de identidade equivocada: surfistas que remam na superfície se parecem incrivelmente com tartarugas marinhas ou focas quando vistos de baixo.

Embora, por um lado, o desenvolvimento das operações de observação de tubarões ao redor do mundo tenha sido fundamental para reduzir a má reputação dos tubarões e criar incentivos financeiros para sua proteção, por outro lado a situação geral desses animais únicos ainda é grave. Especialistas estimam que cerca de 100 milhões de tubarões são abatidos na pesca a cada ano - um massacre ao qual eles simplesmente não conseguem resistir.

Biologicamente falando, tubarões são peixes bastante diferentes: amadurecem tarde na vida, produzem poucos filhotes em comparação com outras espécies de peixes e simplesmente não suportam tal escala de predação pelo ceifador supremo - nós mesmos. Para algumas espécies, como o tubarão-martelo, já exterminamos cerca de 90% de suas populações no planeta.

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Pesca comercial dizima tubarões todos os anos

Antes considerados "captura incidental" pela predatória pesca comercial de outros peixes de alto valor - como o atum -, devido à sobrepesca os tubarões tornaram-se alvo direto dos barcos espinheleiros de longo alcance, milhares dos quais dizimam diariamente a vida marinha, sem nenhum controle eficaz.

Tubarões - agora assumidamente um alvo direto dessa indústria - mas também tartarugas marinhas e albatrozes (esses ainda considerados "captura incidental"), todos caem vítimas dessas empresas fortemente subsidiadas por governos e totalmente insustentáveis em termos ambientais.

E não é nenhuma "necessidade" de carne de tubarão que impulsiona esse genocídio. A sopa de barbatanas de tubarão - feita de cartilagem e, portanto, sem nutrição real - surgiu na China moderna como símbolo de status para uma classe média e alta emergente com raízes profundas na tradição. E, apesar das recentes tentativas do governo chinês de desencorajar seu consumo, toneladas e toneladas de nadadeiras continuam sendo enviadas de todo o mundo para a China, Taiwan e outros países asiáticos, e também consumido por comunidades asiáticas no exterior.

Apesar de muitos países proibirem essa prática, os tubarões continuam tendo suas nadadeiras cortadas e depois jogados de volta na água para morrer de forma horrível e indefesa. O contrabando de barbatanas de tubarão é generalizado, e não há esforço suficiente para acabar com isso.

Além de tudo isso, a carne de tubarão carrega concentrações prejudiciais de substâncias tóxicas, desde metais pesados até pesticidas. É um dos alimentos mais perigosos de se comer, e ainda assim países como o Brasil permitem que seja servido nas refeições das escolas públicas, um duplo crime: contra os tubarões e contra a saúde pública.

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Presença de tubarões é sinal de saúde ambiental

Além disso, estudos recentes relacionaram a existência de populações saudáveis de tubarões a uma melhora na estabilidade e resiliência geral dos ecossistemas marinhos. Os tubarões ajudam a manter certas espécies intermediárias na cadeia alimentar sob controle e eliminam indivíduos mais fracos e doentes, garantindo que toda a cadeia e outras espécies de peixes comercialmente interessantes continuem prosperando.

Esses efeitos provocados pelos tubarões também ajudam o oceano a manter sua estabilidade climática e potencial de produção de oxigênio. Seja você morador à beira do mar ou do interior, seu próprio bem-estar depende, portanto, dos tubarões e de um oceano saudável.

Há uma necessidade urgente de parar o declínio desses guardiões dos mares. E todos podemos fazer algo a respeito. Recusar comer carne de tubarão (aqui no Brasil muito comumente rebatizada de "cação") e, claro, repudiar a famosa sopa de barbatana de tubarão, já é um bom começo.

Mas também precisamos proteger as populações remanescentes de tubarões por meio de outras medidas. Os chamados acordos regionais de pesca, que regulam principalmente as operações industriais de espinhel, devem proibir a captura dirigida de tubarões e a retenção de capturas "incidentais" dessas criaturas majestosas.

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O comércio internacional de tubarões deveria ser completamente proibido e, nesse sentido, a Convenção CITES, que regula o comércio de espécies ameaçadas, fez muitos progressos, incluindo várias espécies de tubarões e raias em suas listas de comércio proibido. E mais e maiores áreas marinhas protegidas precisam ser estabelecidas, com regras rigorosas de proteção, para permitir que as populações se recuperem.

Há esperança. No Brasil, áreas protegidas como o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e o Refúgio de Vida Silvestre de Alcatrazes, ambos santuários por cuja criação tive a oportunidade de fazer campanha, agora mostram sinais claros de recuperação em suas populações de tubarões.

E no Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande, iniciado com ajuda do Shark Conservation Fund e atualmente apoiado pela Petrobras, nossa pequena equipe de pesquisa conseguiu descobrir a maior agregação de tubarões ao longo de toda a costa brasileira - os galhas-pretas, uma espécie tímida que todo inverno compartilha as águas da baía com os banhistas, sem que estes saibam da presença deles e da imensa importância que têm para todos nós.

Salvar as baleias da extinção exigiu décadas de campanha. Salvar tubarões também pode demorar um pouco. Mas se queremos que nossa espécie dure em um planeta vivo, precisamos garantir que ela tenha um Oceano vivo, onde baleias, golfinhos, tartarugas marinhas, albatrozes, corais e, sim, tubarões, sejam protegidos da nossa própria ganância e miopia.

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Há esperança. Ainda há tempo. Podemos vencer.

The Conversation
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Foto: The Conversation

José Truda Palazzo Jr. coordenador geral do Projeto Tubarões da Baía da Ilha Grande, realizado pelo IBRACON em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, e é coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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