Como cabelo humano tem sido usado para despoluir a Baía de Guanabara, no Rio

Mantas de retenção de poluentes são feitas com fios descartados por ONG que faz perucas para pacientes com câncer

25 jun 2026 - 20h11

Cabelo humano está sendo usado para a contenção de poluentes na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A tecnologia inédita no Brasil começou a ser instalada de forma experimental na Enseada de Bom Jesus, na Ilha do Fundão, para absorver óleo e reter resíduos na água.

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Dispositivos formados por rolos de cabelo humano e envolvidos em malha de algodão foram acoplados a uma barreira flutuante de cerca de 300 metros. A estrutura já era usada para reter lixo e passa agora a absorver também poluentes oleosos - um avanço importante para a proteção do manguezal local.

Estudos indicam que um grama de cabelo pode absorver, em média, cinco gramas de óleo, o que torna o material uma alternativa eficiente e de baixo custo no combate à poluição.

A ação é liderada pelas organizações não governamentais (ONGs) Orla Sem Lixo Transforma (OSLT) e Fiotrar, com apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. É a primeira vez que essa tecnologia é aplicada em ambiente natural no País.

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Os rolos de cabelo humano são aproveitados a partir de materiais que seriam descartados pela ONG Cabelegria, que confecciona perucas para pacientes com câncer. Presidente da ONG Cabelegria e fundadora da Fiotrar, Mariana Robrahn celebra a instalação da barreira.

"Sempre recebemos muitas doações de cabelo para a confecção de perucas, mas muitas vêm fora das especificações necessárias para esse uso e são descartadas ainda na triagem", contou Mariana.

"Além disso, no próprio processo de confecção da peruca também há uma perda significativa de fios. Eu sou uma pessoa que recicla tudo e o descarte de todo esse cabelo sempre me incomodou muito."

Em 2019, Mariana descobriu uma ONG nos Estados Unidos, a MatterofTrust, que usava cabelos humanos para criar mantas para retirar petróleo do oceanos.

"Acabamos criando um novo CNPJ (a ONG Fiortrar) para dar essa destinação aos fios descartados pela Cabelegria", explicou.

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A coordenadora do Orla Sem Lixo Transforma e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Suzana Vinzon, contou que o projeto passou por um ciclo de testes ao longo do último ano, que buscou adaptar a tecnologia às condições ambientais específicas da Baía de Guanabara e às características estruturais das barreiras desenvolvidas.

Os estudos do time da UFRJ revelaram também que as mantas de cabelo humano são eficazes não apenas na retenção de óleo, mas também de metais pesados.

A proteção dos manguezais é considerada estratégica para a resiliência da Baía de Guanabara. Esses ecossistemas funcionam como barreiras naturais, reduzindo a força das ondas e protegendo a costa contra erosão e eventos extremos. Ao evitar a contaminação por óleo e lixo, a nova tecnologia ajuda a preservar essas áreas, fundamentais também para o sequestro de carbono e a manutenção da biodiversidade.

"As nossas barreiras (de isopor) físicas impediam o retorno do lixo retirado dos manguezais. Agora, com a manta de cabelos acoplada a ela, impede também o retorno do óleo", explicou Suzana.

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