Cocaína, agrotóxicos e microplásticos: o que expedição encontrou no Rio Tietê

Análise em 14 pontos da nascente à foz mostra que não há nenhum trecho livre de contaminação; governo estadual diz apostar em saneamento para a despoluição

24 jun 2026 - 17h21
(atualizado às 18h46)

Um grupo de cientistas e ambientalistas percorreu o Rio Tietê em 2025, coletando amostras de água para avaliar diferentes tipos de poluição no principal rio de São Paulo.

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Os resultados da Expedição Tietê divulgados nesta quarta-feira, 24, mostram não apenas poluição, mas várias camadas simultâneas de contaminação por compostos que vão dos microplásticos a medicamentos e drogas ilícitas, como a cocaína.

A análise é inédita na abrangência dos parâmetros analisados e na escala, segundo a ONG SOS Mata Atlântica, e traz poluentes que ainda não têm monitoramento obrigatório por lei, como é o caso dos resíduos farmacológicos, que causam efeito tóxico e impacto ecológico.

Encontrados em concentrações altas o suficiente para causar efeito tóxico, alguns desses parâmetros não são medidos regularmente pelas bases de monitoramento, sendo chamados pelos pesquisadores de "poluentes invisíveis".

Leia abaixo os principais resultados sobre esses agentes de contaminação.

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  • Fármacos e drogas ilícitas

A investigação da ocorrência de fármacos e drogas ilícitas, conduzida por pesquisadores da Unifesp - Câmpus Baixada Santista surpreendeu pelas concentrações encontradas.

A cafeína, detectada em todos os pontos, teve concentrações na ordem de parte por milhão, o que indica o lançamento de esgoto bruto no rio. Outras substâncias que também apareceram em altíssima concentração foram a losartana (medicamento anti-hipertensivo), o acetaminofeno (analgésico e antitérmico) e a valsartana (usada contra insuficiência cardíaca), trazendo risco para os organismos aquáticos.

Segundo o professor do Departamento de Ciências do Mar da Unifesp Camilo Seabra, elas causam "efeitos tóxicos significativos". "Não provocam mortalidade, mas sim, por exemplo, desregulação hormonal, diminuição da produção, do crescimento, da locomoção de organismos aquáticos. Isso tem impacto ecológico de médio a longo prazo muito significativo", disse.

A benzoilecgonina, substância produzida pelo organismo ao metabolizar a cocaína foi quantificada em 10 pontos ao longo do rio, desde Mogi das Cruzes até a barragem de Ibitinga.

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O ponto localizado em Osasco teve as maiores concentrações para todas as substâncias analisadas, principalmente cafeína e losartana. Registrou também a maior concentração de cocaína.

"Se esse rio está funcionando como um grande esgoto a céu aberto, podemos olhar para ele também com uma visão epidemiológica", afirma Seabra, que calcula, em uma estimativa preliminar, o uso de cocaína por 1,5% a 2% da população, a partir da concentração encontrada no ponto de coleta de Osasco.

A análise detectou ainda contaminação incipiente por cafeína e traços de cocaína (em concentração abaixo do limite de quantificação) até mesmo na nascente no rio, possivelmente relacionada ao lançamento de esgoto doméstico ou a atividades recreativas na região.

  • Agrotóxicos

Os pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP realizaram uma análise direcionada no rio por agrotóxicos que têm uso autorizado no Brasil.

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Foram detectados 25 compostos, entre fungicidas, inseticidas e sobretudo herbicidas, com maiores concentrações e frequências no trecho entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita. A região tem intensa atividade agrícola, principalmente no cultivo de cana de açúcar.

Embora em baixas concentrações, alguns agrotóxicos também foram encontrados na nascente do rio.

"Esses resultados mostram que os agrotóxicos conseguem chegam por várias rotas a diferentes partes do meio ambiente, como através de chuvas e de lixiviação", diz a pesquisadora do CENA-USP Nicoli Gomes de Moraes.

Os pesquisadores responsáveis pela análise destacam a presença da atrazina, herbicida proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda amplamente usado no Brasil. Ela foi detectada acima dos limites legais em trechos do Tietê, chegando a uma concentração sete vezes mais alta (14 mil nanogramas por litro) do que é permitido por lei (dois mil nanogramas por litro) para a proteção da água doce.

  • Microplásticos

Os microplásticos têm sido detectados em todos os ambientes e organismos da Terra, mas são ainda pouco estudados nos rios brasileiros. Foram encontrados em todos os pontos da análise, em concentrações que foram de 330 a 23.587 partículas por metro cúbico.

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"Ao mesmo tempo que não é uma surpresa, é preocupante", afirma Ítalo Braga de Castro, professor do Instituto do Mar da Unifesp responsável pela análise do tema na expedição.

O impacto dos níveis de microplásticos no Tietê foi considerado de moderado a forte pelos cientistas, estando abaixo dos níveis de rios asiáticos, mas acima dos níveis de cursos d'água europeus na comparação internacional. Essas micropartículas derivam de diversas atividades, como a lavagem de roupas sintéticas, e são altamente móveis. Sua presença na água contamina a cadeia alimentar e ameaça os seres vivos e o ambiente.

Castro destaca o fato de que as quantidades são progressivamente mais altas em zonas com altos níveis de densidade populacional e urbanização, e também nas regiões de barragens.

O que diz a análise integrada?

Uma das principais conclusões dos estudos é que as múltiplas camadas de contaminação do Tietê não estão isoladas: "microplásticos podem absorver agrotóxicos e fármacos; ambientes eutrofizados favorecem a proliferação bacteriana; a baixa concentração de oxigênio dissolvido altera processos de degradação química; e os reservatórios prolongam o tempo de permanência dos contaminantes no sistema", aponta o relatório.

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O levantamento associa o padrão de degradação do Tietê principalmente à urbanização, ao lançamento de esgotos domésticos e industriais, à intensificação das atividades agropecuárias e à presença de barragens e reservatórios. E destaca que "a melhora observada nos níveis de oxigênio dissolvido em determinados trechos não significa a eliminação dos contaminantes presentes no sistema".

Os piores indicadores ambientais coincidem com os trechos mais urbanizados da bacia, especialmente Mogi das Cruzes, Guarulhos, Osasco e Pirapora do Bom Jesus. Nesses trechos, o lançamento de esgoto doméstico sem tratamento é apontado como principal poluidor, havendo forte correlação entre parâmetros como cafeína, cocaína, bactérias indicadoras de contaminação fecal e carbono orgânico.

Segundo o relatório, há um gradiente espacial definido da poluição conforme as regiões da bacia:

  • Cabeceira: baixa interferência antrópica, melhor qualidade da água e carga contaminante reduzida;
  • Região metropolitana de São Paulo: "colapso ambiental", eutrofização e múltiplas formas de contaminação
  • Médio Tietê : zona de transição, caracterizada pela retenção hidrológica promovida pelos reservatórios e aumento da influência de atividades agrícolas.
  • Baixo Tietê: melhora parcial de alguns parâmetros de qualidade da água, mas persistem contaminantes e efeitos acumulados de toda a bacia hidrográfica
  • Foz: foram detectados compostos como cafeína, carbamazepina, microplásticos e resíduos farmacológicos, evidenciando a persistência e o transporte de contaminantes contínuo ao longo de toda a bacia.

A iniciativa aponta a necessidade de fortalecer políticas de saneamento, controle da poluição, a adoção de práticas agropecuárias mais sustentáveis, recuperação florestal e monitoramento contínuo da bacia do Tietê, que concentra grande parte da população e da atividade econômica paulista, com papel fundamental no abastecimento de água, na produção industrial e agropecuária, geração de energia, navegação e conservação da biodiversidade.

Pesquisadores também reforçam a importância de se discutir a inclusão desses "poluentes invisíveis" na legislação e nas redes de monitoramento estadual, para que sejam considerados como parte das medidas de despoluição do rio.

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Programa estadual tem cinco eixos

A Secretaria de Meio Ambiente do Estado, em nota, afirma que o Programa IntegraTietê, lançado em 2023, foi concebido justamente para integrar ações de saneamento, recursos hídricos, meio ambiente, drenagem, logística e governança, e tem alcançado "resultados expressivos na recuperação do rio e seus afluentes".

O programa atua em eixos estratégicos:

  • universalização do saneamento e melhoria da qualidade das águas;
  • controle de cheias por meio de desassoreamento e obras de drenagem;
  • limpeza e coleta de lixo superficial;
  • recuperação ambiental e valorização das várzeas;
  • monitoramento e fiscalização;
  • e governança integrada, com monitoramento, transparência e atuação coordenada entre os diversos órgãos e municípios da bacia

A principal frente é a universalização da coleta e do tratamento de esgoto. "Nos últimos dois anos, a carga de poluição transportada pelo Rio Tietê foi reduzida em 21%, passando de 219 para 173 toneladas por dia, uma queda equivalente a 46 toneladas diárias", diz o Estado.

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