Yayoi Kusama morre aos 97 anos: relembre a trajetória da artista famosa por bolinhas

Artista japonesa transformou experiências pessoais, obsessões e alucinações em uma das obras mais reconhecidas da arte contemporânea

27 ago 2026 - 08h34
Resumo
A aclamada artista japonesa Yayoi Kusama faleceu aos 97 anos, em Tóquio. Pioneira da vanguarda, ela transformou suas experiências com alucinações em uma icônica linguagem visual marcada por padrões repetitivos de bolinhas, abóboras e salas de espelhos infinitos. Após atuar na efervescente cena de Nova York nos anos 1960, viveu voluntariamente em um hospital psiquiátrico desde 1977, sem deixar de produzir. Kusama alcançou consagração global, recordes de público em museus e grande valor de mercado.

A artista japonesa Yayoi Kusama morreu aos 97 anos, em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio, no Japão. A informação foi divulgada na noite de quarta-feira (27) em um comunicado publicado no site oficial da artista, que não informou a causa da morte.

Yayoi Kusama transformou experiências pessoais, obsessões e alucinações em uma das obras mais reconhecidas da arte contemporânea
Yayoi Kusama transformou experiências pessoais, obsessões e alucinações em uma das obras mais reconhecidas da arte contemporânea
Foto: Edward Berthelot/Getty Images / Perfil Brasil

"Ao longo de uma vida extraordinária inteiramente dedicada à criação artística, Kusama construiu uma carreira aclamada internacionalmente como uma artista de vanguarda pioneira, cuja prática criativa abrangeu artes visuais, performance, ficção e poesia. Ela continuou a pintar até seus últimos dias, sem nunca largar o pincel, e seguiu a explorar o amor sem fim e a alma eterna", diz a nota.

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Da infância marcada por alucinações à arte

Nascida em 1929, em Matsumoto, no Japão, Kusama teve contato com a arte desde cedo. Ainda criança, começou a relatar experiências visuais que mais tarde influenciariam diretamente sua produção. Em sua autobiografia, a artista descreveu um episódio em que viu uma estampa de flores se espalhar pelas superfícies de um ambiente.

Essas experiências, então, ajudaram a formar uma linguagem própria, na qual padrões repetidos passaram a ocupar telas, objetos e espaços inteiros. No entanto, a família não apoiava sua decisão de seguir pela pintura. Mesmo assim, Kusama continuou produzindo e, aos 27 anos, decidiu deixar o Japão rumo a Nova York.

A fase de Yayoi Kusama em Nova York

A mudança colocou Kusama em contato com uma cena artística efervescente. Durante a década de 1960, ela realizou performances e exposições que chamaram atenção pelo caráter provocador. Seu trabalho também incorporou questões relacionadas à guerra, à sexualidade e à própria experiência psicológica.

Contudo, a artista enfrentou dificuldades em um ambiente artístico dominado por homens e se incomodou ao perceber que ideias semelhantes às suas recebiam reconhecimento por meio de outros nomes.

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Depois de anos nos Estados Unidos, Kusama voltou ao Japão. Em 1977, decidiu viver voluntariamente em uma instituição psiquiátrica em Tóquio, onde permaneceu por décadas e manteve uma rotina dedicada à produção artística. "Ainda tenho alucinações até hoje", disse Kusama em 2017.

A artista transformou essas experiências em matéria-prima para sua criação. A repetição, que aparece de forma insistente em seus trabalhos, tornou-se uma das marcas de sua identidade artística.

As bolinhas, os espelhos e as abóboras

Entre suas criações mais conhecidas estão as Salas de Espelhos Infinitos, ambientes que combinam espelhos e pontos de luz para criar a sensação de um espaço sem fim. A obra de Kusama também ganhou uma forte associação com as abóboras. O vegetal apareceu em esculturas e instalações ao longo de sua carreira e se tornou uma de suas imagens mais reconhecíveis.

Para a artista, a escolha tinha um significado pessoal. "As abóboras falam comigo", declarou certa vez. "Eles transmitem uma sensação de estabilidade e me dão paz de espírito."

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Com o passar dos anos, essas imagens deixaram de estar restritas ao circuito especializado. Exposições passaram a atrair grandes públicos, enquanto as instalações imersivas transformaram a obra de Kusama em um fenômeno também nas redes sociais.

Yayoi Kusama e reconhecimento internacional

A consagração veio especialmente a partir das últimas décadas de sua vida. Em 1993, Kusama tornou-se a primeira artista japonesa a representar o Japão individualmente na Bienal de Veneza. A artista também ganhou espaço em importantes instituições internacionais. Uma exposição na Tate Modern, em Londres, alcançou um dos maiores públicos da história da instituição.

Segundo Catherine Wood, diretora interina da Tate Modern, a mostra foi "a nossa exposição mais visitada de todos os tempos porque as pessoas realmente adoram o trabalho de Kusama". No Brasil, a relação com o público também foi expressiva. A exposição 'Obsessão Infinita', realizada em 2014, passou por Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, a mostra recebeu mais de 500 mil visitantes.

Desde 2023, o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), mantém uma galeria permanente dedicada à artista, com as instalações 'I'm here, but nothing' e 'Aftermath of Obliteration of Eternity'. A trajetória de Kusama também foi marcada por reconhecimento no mercado de arte. Uma de suas pinturas alcançou cerca de US$ 10,5 milhões em um leilão realizado em 2022, consolidando seu nome entre os mais valorizados de uma artista mulher.

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