Em mudança de tom, presidente dos EUA anuncia pausa em ataques a centrais de energia do Irã e diz que tem travado "conversas produtivas" com "um líder" iraniano. Mercado reagiu bem ao anúncio, mas Teerã nega conversas.Numa mudança de tom, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta segunda-feira (23/03) uma pausa de cinco dias em ataques a centrais de energia do Irã e afirmou que está negociando o fim da guerra com um "líder" iraniano não especificado.
Trump disse que essas conversações ocorreram com uma figura que não é o líder supremo Mojtaba Khamenei.
No entanto, mais tarde, tanto o Ministério das Relações Exteriores do Irã quanto o presidente do Parlamento do país negaram qualquer diálogo com Washington.
A mudança de tom de Trump ocorre no 24º dia da guerra no Oriente Médio, que vem provocando alta nos preços de energia, em meio à persistência do regime iraniano, que apesar de fragilizado pelo ataques maciços dos EUA e Israel, ainda mostra capacidade de retaliação.
Pausa em ataques
Pela manhã, em sua rede Truth Social, Trump adiou disse que estava adiando por "cinco dias" os ataques a usinas de energia ou infraestruturas energéticas com os quais havia ameaçado o Irã caso o Estreito de Ormuz não fosse reaberto até a noite de segunda-feira.
Mais tarde, disse a repórteres que os Estados Unidos e o Irã encontraram "pontos de acordo importantes" durante as negociações conduzidas, segundo ele, com um alto funcionário iraniano.
"Estamos lidando com o homem que acredito ser o mais respeitado e o líder" do país, disse Trump. Não se trata do líder supremo Mojtaba Khamenei, que, segundo ele, está "indisponível".
"Estamos negociando com pessoas que considero muito razoáveis, muito sólidas (…) Elas são muito respeitadas e talvez uma delas seja a que estamos procurando", disse, sem revelar nomes. Segundo Trump, as "conversas" foram "muito boas e produtivas" nos últimos dias.
Trump também afirmou que uma "mudança de regime" está em curso no Irã, onde, segundo ele, busca uma relação semelhante à que estabeleceu com a nova liderança na Venezuela após a deposição do então ditador Nicolás Maduro.
"Vejam a Venezuela, como está funcionando bem. Tudo está indo tão bem, com o petróleo e a relação com a presidente interina" Delcy Rodríguez. "Talvez encontremos alguém assim no Irã", afirmou Trump.
Se o diálogo falhar, segundo Trump, "simplesmente continuaremos bombardeando alegremente".
Apesar da pausa anunciada por Trump, Israel, país aliado dos EUA, continuou a anunciar operações de bombardeio contra o Irã nesta segunda-feira.
Membros do regime iraniano negam conversas
Citado pela agência de notícias oficial Irna, o Ministério das Relações Exteriores iraniano "negou que quaisquer negociações ou conversas tenham ocorrido com os Estados Unidos nos últimos 24 dias".
Uma autoridade israelense disse à plataforma de notícias Axios que os enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner, genro de Trump, conversaram com o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf.
No entanto, Ghalibaf negou categoricamente.
"Não houve negociações com os Estados Unidos, e notícias falsas estão sendo usadas para manipular os mercados financeiros e de petróleo e escapar do impasse em que os Estados Unidos e Israel estão presos", declarou Ghalibaf na rede X.
Ex-comandante da Guarda Revolucionária, Ghalibaf também disse que "o povo iraniano exige um castigo total para os agressores" e ressaltou que as autoridades do país permanecem "firmes" até alcançar esse objetivo.
Falas de Trump provocam reação positiva nos mercados
Os anúncios de Trump injetaram otimismo nos mercados. Após dias de alta, os preços do petróleo caíram acentuadamente, embora o Brent esteja sendo negociado em torno de 100 dólares o barril (524 reais, na cotação atual).
As bolsas também se recuperaram.
A Bolsa de Paris subia 1,53% por volta das 8h30 (Brasília); Frankfurt 1,92%; Milão 1,24%; Londres 0,18% e Madri 0,75%.
Negociações?
Em mais de três semanas de guerra no Oriente Médio, nem os Estados Unidos nem o Irã mencionaram publicamente as negociações.
No sábado, Trump deu a Teerã 48 horas para reabrir o Estreito de Ormuz, caso contrário, ameaçou "aniquilar" a rede elétrica iraniana, composta por mais de 90 usinas.
Desde o início da guerra, o Irã tem bloqueado efetivamente Ormuz, rota crucial para o fornecimento global de energia, em retaliação aos ataques israelenses e americanos. O trânsito de mercadorias pelo Estreito de Ormuz caiu 95% desde o início da guerra, segundo a empresa de análises Kpler.
Em resposta ao ultimato, o Irã ameaçou fechar completamente o estreito, minar o Golfo e atacar "toda a infraestrutura energética, de tecnologia da informação e de dessalinização de água pertencente aos Estados Unidos".
A imprensa iraniana chegou a publicar listas de alvos potenciais no Oriente Médio.
jps (AFP, EFE)