Trump de novo se associa a Jesus: mera provocação ou blasfêmia?

16 abr 2026 - 13h25
(atualizado às 14h00)

Presidente irritou a própria base de apoio cristã com montagens de IA que usam iconografia religioso. Governo Trump também tem dado contornos religiosos à guerra no Irã, enquanto critica papa Leão 14.Enquanto dá contornos religiosos à guerra no Irã, o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, voltou a publicar na quarta-feira (15/04) uma imagem que o associa a Jesus Cristo.

Foto: DW / Deutsche Welle

De olhos fechados, o chefe da Casa Branca aparece abraçado a Jesus, numa pose similar à dele. Uma luz emana dos dois, com uma bandeira dos EUA ao fundo.

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Originalmente, a imagem teria sido publicada por uma conta fã de Trump, que sugere que o presidente americano é a uma carta de trunfo jogada por Deus contra "monstros satânicos, demoníacos e que sacrificam crianças".

Ao republicar o conteúdo, a conta de Trump adicionou: "Os lunáticos da esquerda radical podem não gostar disso, mas eu acho que é bem legal!!!". Foi a segunda vez em cinco dias que o presidente apostou na controversa estratégia de evocar a religião para se referir a si mesmo.

No início da semana, ele já publicara uma imagem que, gerada por inteligência artificial (IA), colocava ele próprio caracterizado como Jesus. O gesto foi chamado de blasfêmia por diversos críticos, inclusive entre cristãos, que ocupam lugar importante na base trumpista.

Onda de críticas

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Diversas figuras que costumam apoiar publicamente Trump ou sua agenda conservadora saíram em ataque contra ele, exigindo uma retratação, postura rara para o republicano.

"Não sei se o presidente achou que estava sendo engraçado, se está sob a influência de alguma substância ou qual possível explicação ele poderia ter para essa blasfêmia escandalosa," escreveu Megan Basham, uma escritora e comentadora cristã e conservadora, na rede social X. "Mas ele precisa retirar isso imediatamente e pedir perdão ao povo americano e depois a Deus."

Diante da enxurrada de críticas, a publicação foi apagada, e o presidente tentou mudar de assunto argumentando ter acreditado inicialmente que a imagem o mostrava como "um médico", e não como Jesus. A deculpa de Trump acabou sendo ridicularizada nas redes sociais.

Para Meghan J. Clark, da Universidade de Saint John, em Nova York, vários elementos apontam para o tom religioso da imagem. Dentre elas, estão a pose das mãos de Trump, a luz que emana dele e as vestes branca e vermelha — todas tradicionalmente associadas à figura de Jesus. Os arredores evocam, ainda, "o nacionalismo cristão" que vem marcando a gestão Trump na Casa Branca, afirma a especialista.

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Na sua avaliação, esta imagem deu um passo além em relação a outras publicações ousadas já compartilhadas por contas oficiais do presidente. "A imagem é blasfema, de um ponto de vista cristão. A base de apoio (de Trump) não a achou engraçada, como acontecera antes. Ela ficou ofendida (...), porque não é uma figura humana sendo personificada, mas, sim, Jesus."

Em maio do ano passado, por exemplo, fora a vez de uma imagem artificial que o apresentava vestido de papa. À época, os cardeais se reuniam no Vaticano para escolher um novo pontífice, dias após a morte de Francisco.

Ousadia ou blasfêmia?

Em artigo para o site The Conversation, Philip C. Almond, professor de História do Pensamento Religioso da Universidade de Queensland, na Austrália, explica que, de forma geral, a definição de blasfêmia abarca "palavras, pensamentos ou atos que demonstrem desprezo ou zombaria em relação a Deus e às questões sagradas."

O conceito, entretanto, não é fixo e muda ao longo da História. Foi na Idade Média que fazer-se passar por Jesus ou reivindicar poderes que pertencem exclusivamente a ele passou a ser entendido como blasfêmia.

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"Se acreditarmos que sua postagem apagada no Truth Social (a rede social de Trump) tinha a intenção de sugerir que ele é Jesus — ou, de alguma forma, divino —, então os cristãos têm o direito de considerá-la blasfema," escreveu Almond. "De uma perspectiva secular, trata-se mais de uma tolice egocêntrica."

A reação online à publicação de Trump da quarta-feira, em que ele aparece abraçado com Jesus, e não no seu lugar, foi mais contida do que a indignação que acompanhou a imagem anterior.

Enfrentamento com papa

Outro ponto sensível para a estratégia religiosa de Trump tem sido os ataques que o presidente americano tem direcionado ao papa Leão 14. O pontífice vem criticando a guerra no Oriente Médio, afastando qualquer forma de conflito dos valores cristãos, a contragosto do governo americano.

Ele tem o apoio de parte dos atores de influência nos mundos da política e do catolicismo.

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"O papa Leão 14 tem defendido de forma consistente a paz, o diálogo e a moderação em um mundo marcado pela guerra e pelo sofrimento", disse a organização norte-americana Knights of Columbus, a maior fraternidade masculina católica do mundo, numa declaração atribuída ao seu Cavaleiro Supremo, Patrick Kelly. "As palavras do Santo Padre não são discursos políticos — são reflexos do próprio Evangelho."

Por sua vez, numa publicação na própria rede social, Trump chamou o papa de "fraco" e pediu que "alguém, por favor, diga a Leão" sobre as mortes de manifestantes pelo Irã e afirmou que a República Islâmica "ter uma bomba nuclear é absolutamente inaceitável".

Já o vice-presidente JD Vance, que se converteu ao catolicismo em 2019, disse que o papa estava errado ao afirmar que os discípulos de Cristo "nunca estão ao lado daqueles que antes empunhavam a espada e hoje lançam bombas" e que "é muito, muito importante que o papa tenha cuidado ao falar sobre questões de teologia".

Já Leão disse que "não tem medo" do governo Trump e que continuaria a se manifestar. Durante sua visita a países africanos desta semana, ele denunciou potências mundiais "neocoloniais" que, segundo ele, estariam violando o direito internacional, sem citar países específicos.

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"Cruzada" no Oriente Médio

A Casa Branca tem recorrido ao vocabulário cristão para angariar entusiasmo com a guerra no Irã. Trump chamou o resgate de um aviador americano abatido no Irã de "milagre de Páscoa" e sugeriu que os ataques dos Estados Unidos e de Israel têm a bênção de Deus.

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, foi ainda mais longe, citando supostas passagens bíblicas para justificar o uso de "ira esmagadora" contra inimigos que, segundo ele, "não merecem misericórdia".

No entanto, alguns veículos da imprensa dos EUA notaram que os supostos versículos na realidade eram um trecho de uma fala do filme Pulp Fiction (1994), dirigido por Quentin Tarantino, no qual um personagem recita as frases - que não estão na Bíblia - quando está prestes a executar um homem.

"Eles (Trump e Hegseth) estão invocando Deus na guerra contra o Irã de modos que não ouvimos para a ação na Venezuela," afirma Clark. Para ela, a Casa Branca pode estar tentando surfar no sentimento islamofóbico, "que é amplamente difundido no movimento Maga".

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A mensagem religiosa tem sido ecoada por líderes cristãos conservadores — desde figuras próximas a Trump, como Robert Jeffress, um influente pastor do Texas, até pregadores de pequenas cidades. Eles têm enfatizado o significado bíblico do Estado moderno de Israel, que muitos evangélicos associam a uma profecia sobre a Segunda Vinda de Jesus Cristo.

"Pessoas más existem, e se você não lidar com elas, elas lidarão com você", afirma Jackson Lahmeyer, um pastor evangélico e apoiador de Trump que concorre ao Congresso dos Estados Unidos. "Bem e mal — essa é a história da Bíblia. A boa notícia é que, no final, o bem sempre vence."

Os evangélicos brancos estão entre os maiores apoiadores de Trump: mais de 80% votaram nele em 2024, segundo pesquisas de boca de urna, e levantamentos mostram que eles representam cerca de um terço da base de apoio.

ht (ots, Reuters)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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