Casa Branca reunirá Serviço Secreto e agências para revisar a segurança do presidente em eventos futuros, como Copa do Mundo, UFC e comícios. Críticos apontam falhas de agentes no Hotel Hilton; governo defende a atuação.O esquema de segurança ao redor do presidente dos EUA, Donald Trump, foi colocado sob escrutínio após um atirador tentar invadir o salão de um hotel onde ele jantava com jornalistas neste sábado (25/04), em Washington. Autoridades americanas afirmam que o republicano seria um dos alvos do suspeito. Caso se confirme, esta seria a terceira vez em menos de dois anos que ele tem a vida colocada em risco por atiradores.
O homem, que portava armas de fogo e facas, chegou a efetuar disparos antes de ser imobilizado e detido por seguranças. O episódio ocorreu às vésperas da participação esperada de Trump em uma série de grandes eventos, internos e ao ar livre, nos próximos meses. Entre eles, estão as comemorações dos 250 anos dos EUA, a Copa do Mundo e a liderança de comícios destinados a mobilizar apoio aos republicanos antes das eleições de meio de mandato, em novembro.
A chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, realizará nesta semana uma reunião com integrantes da equipe de operações da Casa Branca, do Serviço Secreto e do Departamento de Segurança Interna para discutir protocolos de segurança em aparições públicas do presidente, segundo apurado por agências de notícias. O encontro analisará a reação do aparato de segurança no incidente de sábado e "explorará opções adicionais" para eventos futuros, disse um funcionário à agência de notícias AP.
Separadamente, uma pessoa familiarizada com o assunto afirmou à AP que o Serviço Secreto dos EUA já reavaliava seu esquema de segurança para os próximos eventos e atuava em nível elevado de alerta devido ao número de alertas recebidos por Trump e aos atritos derivados da guerra no Irã. A agência é a primeira responsável pela proteção do presidente.
As equipes de inteligência também reexaminam registros e manifestações hostis feitas contra o presidente nos últimos meses. Um dos temores é que episódios de grande repercussão instiguem imitadores a reproduzirem a tentativa.
A Casa Branca e o Palácio de Buckingham afirmaram que a visita de Estado dos monarcas britânicos rei Charles e rainha Camilla, na próxima segunda-feira, seguirá conforme o planejado. Ainda assim, a organização de outros eventos abertos é vista como mais delicada. Entre eles, a luta do UFC que ocorrerá no gramado da Casa Branca para marcar o 80º aniversário de Trump, em junho, partidas da Copa do Mundo e a corrida da IndyCar, que passará pela Casa Branca.
Governo defende atuação no jantar; críticos apontam falhas
Membros do governo defenderam a atuação das forças durante o jantar com jornalistas, que incluíam ainda agentes do Departamento Federal de Investigações (FBI). "O sistema funcionou. O homem mal conseguiu passar do perímetro. [...] Isso é algo que deve ser aplaudido", disse o procurador-geral interino Todd Blanche.
O diretor do Serviço Secreto, Sean Curran, argumentou que seus agentes, que não tinham responsabilidade de patrulhar o evento, garantiram a proteção do presidente e de outros membros do governo. "Nossa proteção em múltiplas camadas funciona", disse Curran no sábado.
Segundos após os disparos, agentes do Serviço Secreto cercaram Trump, que pareceu escorregar levemente ao ser retirado às pressas. Outra equipe moveu o vice-presidente JD Vance com rapidez.
"Esses caras fizeram um bom trabalho ontem à noite. Fizeram um trabalho muito bom", repetiu Trump no domingo, em entrevista ao programa 60 Minutes, da CBS News.
Por outro lado, parlamentares, jornalistas e até aliados do presidente acusaram falhas no planejamento de segurança. Segundo as autoridades, o suspeito conseguiu não apenas reservar um quarto no hotel onde estava Trump, como também passar pela camada mais externa de segurança portando duas armas de fogo.
O atirador ainda chegou a enviar uma carta para seus familiares antes do incidente, na qual zombava da "insana" falta de segurança no Hotel Hilton. Trata-se do mesmo hotel onde o ex-presidente Ronald Reagan foi alvejado em 1981. Nesta segunda-feira, a gerência do local informou que operava sob protocolos "rigorosos" do Serviço Secreto.
O deputado republicano do Texas Michael McCaul, presidente emérito do Comitê de Segurança Interna da Câmara, disse que os protocolos de segurança para Trump e o vice-presidente JD Vance talvez precisem ser alterados.
"Acho que o Serviço Secreto precisa reconsiderar ter o presidente e o vice-presidente juntos em algo assim", disse McCaul à CNN.
Kari Lake, republicana escolhida por Trump para chefiar a Agência dos Estados Unidos para Mídia Global, reclamou de não ter sido obrigada a apresentar um documento com foto para conferência com seu ingresso ao entrar no hotel do jantar. "Não consigo acreditar como a segurança era frouxa", escreveu Lake na rede X.
Esta também foi a percepção da correspondente da DW em Washington, D.C., Ines Pohl, que estava presente no jantar. "Eu não tive que mostrar nenhuma identificação, apenas um convite impresso. Tecnicamente, eu poderia ter dado meu convite a outra pessoa."
Apesar disso, especialistas concordam que os agentes agiram rápido para garantir a segurança do presidente. O jornalista americano Garrett Graff, autor de livros e reportagens sobre segurança, argumenta que o sistema "funcionou como projetado". O agente aposentado do Serviço Secreto Thomas D. Quinn, que ajudou a criar as equipes de contra-ataque da agência, publicou no X que "o plano de segurança [...] funcionou e o agressor foi detido".
Mais mudanças à frente
Já os planos futuros devem mudar. Ronald Kessler, jornalista e autor de um livro sobre o Serviço Secreto, disse que as autoridades provavelmente vão considerar a instalação de vidro à prova de balas ao redor dos locais onde Trump discursa, tanto ao ar livre quanto em ambientes fechados — de forma semelhante ao que ocorreu após a tentativa de assassinato contra ele na Pensilvânia, durante a campanha presidencial de 2024.
Os participantes, segundo Kessler, provavelmente passarão por triagens mais rigorosas daqui para frente. Um exemplo foi o esquema da final masculina do Aberto dos Estados Unidos de tênis, cuja presença de Trump gerou enormes filas de segurança.
Esses eventos ressaltam as complexas questões de segurança em torno da proteção presidencial em um país onde os cidadãos esperam que seus líderes circulem por espaços públicos, realizem comícios, participem de eventos e apareçam diante de multidões.
"Presidentes não gostam de ter proteção em excesso", disse Kessler. "Acho que, por natureza, eles são muito expansivos. Querem encontrar pessoas. Não querem ser acusados de [ser] prisioneiros da Casa Branca. Então, tentam contornar algumas dessas melhorias."
No caso de Reagan, em 1981, por exemplo, agentes de segurança queriam que ele deixasse o Hotel Hilton por uma garagem coberta. A equipe do presidente, porém, temia que o movimento gerasse uma imagem negativa e rejeitou o esquema. Reagan acabou sendo baleado ao sair por uma área aberta.
Ao programa 60 Minutes, Trump disse que "não estava facilitando" o trabalho do Serviço Secreto e reconheceu que o perímetro de segurança do jantar será ampliado quando o evento for remarcado.
"Eu provavelmente os fiz agir um pouco mais devagar. Eu disse: 'Espera um minuto, espera um minuto. Deixa eu ver. Espera um minuto'", relatou Trump.
gq/ra (AP, Reuters, OTS)