Será a Nicarágua o próximo país na mira dos Estados Unidos?

20 abr 2026 - 17h00

As sanções contra dois filhos do casal presidencial Ortega Murillo mostram que, para Washington, o regime de Manágua continua sendo um problema e um alvo em potencial a curto ou médio prazo.No fim de 2018, o conselheiro de segurança nacional do primeiro mandato de Donald Trump, John Bolton, referiu-se a Venezuela, Cuba e Nicarágua como a "tríade da tirania", lançando as bases da posição de Washington em relação à região.

Em 2025, Constituição da Nicarágua definiu que o presidente Daniel Ortega (foto) governa ao lado de sua esposa, Rosario Murillo, como "copresidentes"
Em 2025, Constituição da Nicarágua definiu que o presidente Daniel Ortega (foto) governa ao lado de sua esposa, Rosario Murillo, como "copresidentes"
Foto: DW / Deutsche Welle

Sete anos depois, com a Venezuela sob intervenção após a captura de Nicolás Maduro e Cuba enfrentando grave crise econômica e escassez de combustíveis devido às pressões dos Estados Unidos, os olhares parecem se voltar para a Nicarágua.

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Talvez isso explique por que, na quinta-feira (16/04), o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou sanções contra Daniel e Maurice Ortega Murillo, filhos do casal presidencial nicaraguense Daniel Ortega e Rosario Murillo. Os irmãos são acusados, ao lado de outras cinco pessoas, de terem ligações com uma rede de extração de ouro que financiaria o regime.

"Durante o primeiro mandato, chamaram esses três países de 'tríade das tiranias'. Com seu retorno ao poder e seu maior foco no hemisfério ocidental, o governo Trump parece disposto a abordar os regimes desses países, embora com objetivos que nem sempre são claros", diz à DW Adam Ratzlaff, especialista em relações internacionais e fundador e diretor executivo da Pan-American Strategic Advisors.

O cientista político nicaraguense Manuel Orozco, do Diálogo Interamericano, explica à DW que a ideia de que "depois de Cuba vem a Nicarágua é uma perspectiva mais tautológica do que o reflexo de um plano organizado". Para ele, as prioridades dos Estados Unidos na América Latina são Cuba e Venezuela, e depois o Haiti. "A Nicarágua também importa, mas as ações políticas são realizadas levando em conta as condições internas do país, não em relação a uma lista de espera", ressalta.

A Nicarágua "não desapareceu do mapa"

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Tiziano Breda, analista para a América Latina e o Caribe da Armed Conflict Location & Event Data (Acled), afirma que "a mensagem que os Estados Unidos querem transmitir com essas sanções é que, embora claramente tenham outras prioridades no Irã, na Venezuela e em Cuba, a Nicarágua não desapareceu do mapa, mesmo sendo o último elo dessas tentativas de mudança de regime".

O especialista ressalta que "essas sanções aos filhos vêm acompanhadas de sanções a figuras do governo e empresas ligadas ao setor de mineração", e que a ameaça paira sobre Manágua, pois o governo está na mira caso decida "não atender às exigências de Washington".

"O governo Trump mostrou que está disposto a intensificar a pressão tanto sobre aliados quanto sobre adversários. O foco em Cuba e na Venezuela começou aumentando a pressão contra funcionários do regime e seus aliados. Embora as novas sanções indiquem que Washington está aumentando a pressão, a importância dessas sanções específicas dependerá de como o regime reagir", observa Ratzlaff.

As vantagens do perfil discreto

"As sanções fazem parte de um processo contínuo", diz Orozco, que sustenta que os Estados Unidos têm sido muito proativos em relação ao regime de Ortega. "Implementaram várias sanções e expressaram suas críticas à ditadura, exigindo o fim da repressão, o fim de seus laços com forças 'malignas' como a China e a redução da migração", afirma.

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Ao mesmo tempo, diz o cientista político nicaraguense, Manágua espera que os Estados Unidos se desgastem em outras frentes, como Venezuela, Oriente Médio, Ucrânia ou Cuba, e que isso diminua a pressão sobre a Nicarágua.

"A captura de Nicolás Maduro na Venezuela em 3 de janeiro causou um choque em todo o hemisfério e sinalizou uma mudança drástica nos cálculos de risco. Como resultado, os Ortega têm tentado manter um perfil mais discreto. No entanto, isso não significa que o regime não seja mais repressivo, mas que está evitando elevar o nível de confronto e o risco de se tornar um alvo prioritário do governo Trump", acrescenta Ratzlaff.

Haverá um efeito dominó?

Tiziano Breda afirma que, se Washington tivesse sucesso e conseguisse alinhar os interesses de Havana com os dos Estados Unidos, é "bastante provável que ocorra um efeito dominó e que Washington se sinta encorajado a buscar outra mudança no último país que resta na América Latina em total oposição ideológica".

Embora, como sempre, tudo dependa de outros fatores. Por exemplo, aponta Breda, se as tensões no Irã e em Cuba continuassem e Trump percebesse que as eleições de meio de mandato estão em risco. Nesse caso, "é menos provável que ele se aventure em outro exercício de intervenção".

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Ratzlaff concorda. "Dado o conflito no Irã, há dúvidas sobre até que ponto o governo poderá voltar a se concentrar na região. No entanto, tanto o secretário de Estado Marco Rubio quanto aliados-chave no Congresso estão muito interessados em desmantelar os regimes de Cuba, Nicarágua e Venezuela. A questão é se outras realidades geopolíticas desviarão a atenção da América Latina."

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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