Se não pode vencê-los... Como a GM se alia à China para produzir elétricos e híbridos no Brasil

Companhia projeta fazer até 50 mil carros por ano na linha de produção da Pace (CE), incluindo a Captiva híbrida e o aguardado Celta elétrico, a partir de kits importados do país asiático

21 out 2026 - 05h43
Resumo
Para conter o avanço das marcas chinesas, a GM investe R$ 10,5 bilhões no Brasil e aposta em parcerias com a China para produzir modelos elétricos e híbridos no Ceará, como o Captiva plug-in e um compacto apelidado de "Celta elétrico". A estratégia inclui versões híbridas de seus SUVs, forte foco em exportações e negociações com Brasília para validar normas técnicas dos EUA, visando importar modelos de luxo, apoiando-se em sua ampla rede de pós-venda para manter a competitividade local.

Ao ver a rápida aceleração das marcas chinesas no Brasil, a veterana General Motors colocou em prática a máxima "se não pode vencê-los, junte-se a eles". A empresa planeja estreitar cada vez mais a estratégia para o mercado brasileiro com as operações e parcerias que mantém na China. Uma guinada asiática, mas ao seu próprio modo, com a visão de quem conhece bem o mercado consumidor local.

Publicidade

Há 101 anos no País, a empresa tem R$ 10,5 bilhões em investimentos em curso até 2028. Com esse aporte, foi a primeira a montar carros na Pace (Planta Automotiva Cearense), uma fábrica multimarcas instalada em Horizonte (CE). Ao longo de 2026, passou a fazer ali veículos com novas tecnologias de propulsão, como os elétricos Chevrolet Spark EUV e Captiva EV.

Primeiro Chevrolet híbrido está a caminho

O terceiro produto citado pelo executivo é o primeiro carro híbrido da Chevrolet a ser oferecido no Brasil: a versão plug-in da Captiva, que entra em linha ainda neste ano. O modelo é simbólico. Mostra a inflexão da companhia após defender, nos últimos anos, que a eletrificação deveria acontecer com transição direta dos carros a combustão para os puramente elétricos, sem passar pelos híbridos. Mais uma vez, a concorrência indicou que valia a pena "se juntar a eles".

"O que entendemos é que essa transição não vai acontecer da mesma forma nem na mesma velocidade em todos os mercados. Na América do Sul, precisamos considerar a realidade de cada país, a infraestrutura disponível e, principalmente, o que nossos clientes precisam", afirma Owsianski.

Celta elétrico vem aí e Sonic traz novas tecnologias

Em maio deste ano, a General Motors lançou o aguardado Sonic, SUV para competir no concorrido segmento subcompacto. O carro chegou apenas em versão a combustão e, por enquanto, mantém volume de vendas modesto. Em setembro, ficou na 31ª posição entre os automóveis mais vendidos, com 2,7 mil unidades.

Publicidade

Mas a companhia tem planos mais ambiciosos para o modelo. No começo de 2027, o carro deve passar a contar com uma configuração híbrida leve. "Ainda não vamos antecipar detalhes, mas o Sonic faz parte de uma ofensiva importante de produto e tecnologia que está só começando", promete Owsianski.

Em outra frente, a GM estuda montar na fábrica cearense um hatch compacto elétrico inédito — projeto baseado no Wuling Bingo Pro e apelidado pelo mercado de "Celta elétrico" pela proposta urbana que lembra o ícone dos anos 2000. O modelo é fruto da joint venture da companhia com as chinesas Saic Motor e Guangxi Automobile Group.

O presidente da GM para a América do Sul não confirma os detalhes, mas indica a movimentação: "Avaliamos o projeto de um hatch compacto inédito da Chevrolet, que pode ampliar nossa linha de veículos elétricos na região. A produção no Brasil também está entre as possibilidades", diz.

Wuling Bingo Pro pode chegar no Brasil como Celta elétrico, em referência ao compacto urbano dos anos 2000.
Wuling Bingo Pro pode chegar no Brasil como Celta elétrico, em referência ao compacto urbano dos anos 2000.
Foto: Divulgação/Wuling. / Estadão

Mudança nas regras para trazer Escalade e GMC

Enquanto busca velocidade e escala com a China, a GM também trabalha nos bastidores de Brasília para destravar a vinda de modelos de topo de linha da sua matriz norte-americana. A montadora negocia com o governo federal o reconhecimento mútuo dos padrões de segurança automotiva dos EUA (as normas FMVSS) nos processos de homologação brasileiros. A medida é o passaporte necessário para abrir as portas à importação modelos de luxo como o Cadillac Escalade e as picapes pesadas da GMC.

Publicidade

"Para ampliar no Brasil a oferta do nosso portfólio global, é importante avançarmos no reconhecimento dos padrões de segurança norte-americanos. São regras robustas e esse reconhecimento pode abrir espaço para novos produtos por aqui. Estamos avançando nas discussões com o governo e os órgãos reguladores", explica Owsianski.

Um olho na concorrência, outro nas exportações

Se, de um lado, a GM oxigena a gama de produtos com novas tecnologias e projetos vindos da Ásia e dos EUA, de outro, Owsianski entende que a companhia tem bons ativos para enfrentar a nova concorrência. "Este é um dos ambientes mais competitivos que vi em mais de 30 anos de indústria automotiva. Entrar em um mercado é uma coisa; construir uma relação de longo prazo é outra", avalia.

Chevrolet Sonic ainda tem volume modestos, mas deve inaugurar novas tecnologias na gama da marca.
Foto: Felipe Rau/Estadão. / Estadão

O executivo lembra que a empresa tem cerca de 1.000 concessionárias na América do Sul e, assim, segundo ele, conta com a estrutura necessária de pós-venda. Além disso, entende que é preciso olhar além do volume bruto de vendas. "Não estamos buscando volume a qualquer custo. Queremos crescer com qualidade e rentabilidade."

Nessa toada, a GM fortaleceu outra frente em 2026: as exportações a partir do Brasil, que cresceram 15,5% para países vizinhos. Para 2027, o plano é dar outro salto de 20%. Tudo isso sem tirar os olhos do mercado interno e da transformação rápida nas lojas — e nas ruas.

Publicidade
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se