A apuração parcial das eleições em Israel indica um impasse: nem o bloco de direita do premiê Benjamin Netanyahu nem a oposição liderada por Gadi Eisenkot alcançaram as 61 cadeiras necessárias para formar maioria. Com isso, os partidos árabes israelenses, que conquistaram 19 assentos, tornam-se peças-chave nas negociações. Caberá agora ao presidente Isaac Herzog indicar quem tentará compor a coalizão de governo, sob o risco de novas eleições e de um governo interino caso o diálogo fracasse.
Nem o bloco do premiê Benjamin Netanyahu nem o do opositor Gadi Eisenkot obtém maioria no Parlamento, segundo contagem parcial. Partidos árabes avançam e podem decidir governo.O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e seus aliados parecem estar a caminho de conquistar o maior número de cadeiras no Knesset (Parlamento) após as eleições desta terça-feira (27/10).
No entanto, nem ele nem seu principal concorrente, Gadi Eisenkot, têm um caminho claro para formar maioria, pois, ao que tudo indica, nenhum dos dois blocos alcançará o número necessário de 61 cadeiras.
Com 85% dos votos apurados, o bloco de direita de Netanyahu tem 53 das 120 cadeiras do Knesset, enquanto o bloco oposicionista de Gadi Eisenkot tem 48. A ausência de uma maioria clara para qualquer dos lados pode significar semanas de negociações para formar uma coalizão, com a possibilidade de novas eleições caso as sondagens fracassem.
Tanto Netanyahu, que serviu como primeiro-ministro por mais de 19 anos em mandatos intercalados e é aliado de partidos de extrema direita e ultraortodoxos, quanto Eisenkot, ex-chefe militar que lidera uma ampla coalizão de oposição, prometeram tentar a formação de um governo.
Os resultados nesta quarta-feira ainda não são finais, mas um avanço já perceptível ocorreu entre os partidos árabes israelenses, que alcançam 19 cadeiras. Um líder da minoria árabe apelou à oposição para unir forças e pôr fim ao governo de Netanyahu.
Maioria só com os árabes
Esta é a primeira eleição desde o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023, que levou Israel a iniciar uma guerra devastadora na Faixa de Gaza.
Os eleitores da comunidade árabe, descendentes dos palestinos que permaneceram no território após a criação de Israel e que representam cerca de 20% da população, demonstraram forte indignação com a visão ultranacionalista judaica do governo Netanyahu para Israel e para os territórios palestinos.
A escolha é entre "a continuação do racismo, da exclusão e da supremacia ou uma verdadeira parceria judaico-árabe", afirmou Yousef Jabareen, líder da coligação árabe de esquerda Joint List.
Para ele, o público israelense votou por uma nova liderança e "qualquer pessoa que queira oferecer uma alternativa séria e genuína ao governo ensanguentado de Netanyahu terá de conversar conosco".
Netanyahu, que fez campanha com o slogan "ou a direita ou a Palestina", atacou repetidamente a oposição, afirmando que ela colocaria os árabes no poder.
Mas Eisenkot resiste a se aliar aos partidos árabes. Yair Golan, líder do principal partido de esquerda de Israel e integrante do campo de Eisenkot, tornou-se o primeiro membro da oposição a defender uma aliança com eles. "Netanyahu perdeu. Não devemos mais aceitar a divisão racista de Netanyahu entre votos judeus e votos árabes", declarou.
Mas o campo de Eisenkot também inclui políticos de direita que compartilham muitas das posições duras de Netanyahu e rejeitam categoricamente trabalhar com parlamentares árabes.
"Talvez todos tenham perdido nestas eleições, exceto os partidos árabes. Mas, para eles, ainda não está claro se conseguirão transformar esse enorme sucesso em influência política", avaliou o cientista político Gideon Rahat, da Universidade Hebraica de Jerusalém.
Os parlamentares árabes também poderiam sustentar um governo minoritário de Eisenkot sem ingressar formalmente em uma coalizão, embora poucos analistas acreditem que tal arranjo sobreviveria por muito tempo.
Quando o resultado final será conhecido?
A autoridade eleitoral de Israel ainda está contabilizando votos nesta quarta-feira, e provavelmente levará até quinta-feira para que os resultados definitivos sejam conhecidos.
O órgão ainda terá de contabilizar centenas de milhares de votos de soldados israelenses e diplomatas que votaram fora de Israel.
As pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais canais de televisão israelenses ajudam a identificar a força relativa de cada partido, mas não são consideradas um indicador confiável dos resultados exatos, especialmente no fragmentado sistema político israelense.
As cadeiras do Knesset são distribuídas proporcionalmente às listas partidárias nacionais. Para entrar no Parlamento, os partidos precisam superar a cláusula de barreira de 3,25% dos votos nacionais.
Cerca de uma dúzia de partidos é considerada capaz de ultrapassar esse limite, o que torna a contagem final e a distribuição das cadeiras processos demorados.
A totalização dos votos é esperada para 30 de outubro, e os resultados oficiais serão publicados formalmente uma semana após a eleição, em 4 de novembro.
O que acontece depois da divulgação dos resultados?
Após a conclusão da contagem, todas as atenções se voltam para o presidente Isaac Herzog, que normalmente exerce um papel cerimonial discreto, mas que decidirá quem terá a primeira oportunidade de formar governo.
Herzog tem uma semana para consultar os partidos, que lhe recomendarão um candidato a primeiro-ministro, e encarregar da formação do governo quem considerar ter mais chances de sucesso. A partir daí, começa a correr um prazo de 28 dias, prorrogável por mais 14.
A incumbência não precisa ser dada ao líder do partido mais votado. Em 2009, por exemplo, o então presidente, Shimon Peres, designou Netanyahu para formar governo, embora o Likud tivesse conquistado 27 cadeiras, contra 28 do Kadima, de Tzipi Livni, porque Netanyahu dispunha de mais apoio potencial para construir uma coalizão.
Nenhum partido em Israel jamais conquistou maioria absoluta. Por isso, os governos são formados por coalizões partidárias, e as negociações para sua formação frequentemente duram várias semanas. Cada cadeira no Knesset conta, e pequenos partidos podem desempenhar papel decisivo ao se tornarem fiadores da maioria.
Se o primeiro candidato fracassar, o presidente pode encarregar um segundo nome, que terá 28 dias sem possibilidade de prorrogação. Se ele também fracassar, os deputados terão 21 dias para que ao menos 61 deles proponham um candidato. Esse candidato terá então mais 14 dias para formar um governo. Caso não consiga, o Knesset será dissolvido e novas eleições serão convocadas.
Haverá governo interino
Um impasse político poderia beneficiar Netanyahu no curto prazo, já que ele permaneceria como primeiro-ministro interino até que o Knesset conceda voto de confiança a um novo governo. Essa situação é limitada pela jurisprudência da Suprema Corte e pelas orientações da Procuradoria-Geral, que restringem nomeações importantes e outras decisões não urgentes.
Se as negociações entre os partidos fracassarem e novas eleições forem necessárias, Israel poderá permanecer até meados do primeiro semestre de 2027 com um governo interino.
Fim da era Netanyahu?
Muitos observadores consideram esta eleição um referendo sobre Netanyahu, o primeiro-ministro que governou Israel por mais tempo e que tem dividido profundamente a sociedade israelense.
Diante de acusações criminais por corrupção, que ele nega, Netanyahu procurou reformular o sistema judiciário.
Ele também se aliou a líderes da extrema direita que apoiam colonos radicais acusados de atacar palestinos na Cisjordânia com ampla impunidade.
Netanyahu também é procurado pelo Tribunal Penal Internacional em razão da devastadora guerra de Israel na Faixa de Gaza.
as/le (AFP, Reuters, Efe)
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