Quem são os ucranianos que lutam pelo Exército russo

10 out 2026 - 05h52
Resumo
Moscou tem recrutado prisioneiros de guerra ucranianos para unidades como o Batalhão Kryvonis, usando propaganda para responder a grupos russos pró-Ucrânia. Embora a Rússia classifique essas formações como voluntárias, relatos apontam que a adesão ocorre sob tortura e coação física ou psicológica no cativeiro, com soldados aceitando apenas para tentar fugir no front. Ucranianos que retornam dessa situação enfrentam investigações por suposta traição em seu país de origem.

Moscou possui unidades militares compostas por cidadãos ucranianos, alguns deles prisioneiros de guerra. Como são recrutados e que papel essas formações desempenham no conflito?Ele se juntou ao exército inimigo para escapar do cativeiro russo. É o que diz o primeiro-tenente ucraniano Pavlo Oliinyk, de 25 anos. Antes de ser capturado pela Rússia em outubro de 2024 na região do Donbass, no leste da Ucrânia, ele havia servido nas Forças Armadas ucranianas.

Propaganda militar russa em Simferopol, na Península da Crimeia ocupada pela Rússia
Propaganda militar russa em Simferopol, na Península da Crimeia ocupada pela Rússia
Foto: DW / Deutsche Welle

Como prisioneiro, ele sofreu choques elétricos, espancamentos e violência psicológica. Por isso, aceitou a oferta dos russos para integrar o chamado Batalhão Maksym Kryvonis - batizado em homenagem a um coronel cossaco ucraniano do século 17. Oliinyk conta que quis aproveitar a oportunidade para chegar ao front, com a intenção de fugir de lá para um território controlado pela Ucrânia. A DW conseguiu contatá-lo por escrito, por intermédio de um advogado.

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"Voluntários ucranianos" no Exército russo

Foi no início de 2023 que a imprensa estatal russa noticiou pela primeira vez a existência de unidades compostas por ex-soldados do Exército ucraniano. Na época, foi relatado que "ex-prisioneiros de guerra ucranianos" haviam prestado juramento à Rússia. A propaganda mencionava a criação de seis unidades desse tipo, que, em agosto de 2026, foram reunidas na Brigada de Forças Especiais de Voluntários Ucranianos.

O Batalhão Kryvonis, criado há três anos, é o que mais gera repercussão midiática entre as formações que passaram a integrar a referida brigada. Há indícios de sua participação em combates, ao contrário das demais unidades.

Seu efetivo exato é desconhecido. Relatos na imprensa estimam o grupo em cerca de 200 homens, enquanto vídeos publicados mostram apenas algumas dezenas. A emissora ucraniana Suspilne identificou mais de 30 integrantes do batalhão e assegurou se tratar de ucranianos feitos prisioneiros pela Rússia em 2023 e 2024.

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Segundo os relatos, o grupo é liderado por Vyacheslav Gubin, ex-membro do conselho distrital de Derhachi, na região ucraniana de Kharkiv, que desertou para o lado russo em 2014. Seu filho, Svyatoslav, atua como vice-diretor político da unidade. Ele declarou à imprensa russa que o grupo não é uma unidade do Exército russo, mas sim uma "formação de voluntários ucranianos".

Para que servem os "voluntários" ucranianos?

Pavel Luzin, especialista em política de defesa da Fletcher School, da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, afirma que, de modo geral, não existem na Rússia formações de voluntários que "não tenham sido autorizadas desde o início e não sejam controladas pelo governo central".

Ele considera tais grupos formados por ucranianos uma "imitação". O objetivo de Moscou seria desviar a atenção dos grupos compostos por russos que lutam pela Ucrânia, como o Corpo de Voluntários Russos e a Legião Liberdade da Rússia. Essa avaliação também foi expressa com frequência pelos serviços de inteligência ucranianos.

Essa versão é confirmada pelo veterano ucraniano Yevhen Shybalov, que esteve em cativeiro russo em 2022. Segundo ele, militares russos não esconderam que o Corpo de Voluntários Russos é a principal razão para a criação de unidades russas compostas por ucranianos. "Eles se incomodam com o fato de russos lutarem ao lado da Ucrânia, mas não haver ucranianos lutando ao lado da Rússia", diz Shybalov à DW.

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Quão voluntárias são essas unidades?

Segundo o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, mais de 95% dos ucranianos relataram ter sofrido tortura ou maus-tratos durante o cativeiro russo após serem libertados. O estado físico e psicológico de todos os homens que retornaram levanta "sérias dúvidas" sobre um recrutamento "voluntário", opina William Wiley, da ONG Commission for International Justice and Accountability.

Enquanto isso, Mykhailo Savva, do Centro para Liberdades Civis da Ucrânia, chama a atenção para processos criminais movidos pelas autoridades ucranianas contra membros individuais dessas formações russas. O fato de estarem sendo processados criminalmente sugere que eles teriam passado para o lado russo voluntariamente.

Mas onde exatamente está a linha que distingue uma decisão tomada sob pressão de uma tomada voluntariamente? Segundo o ativista de direitos humanos e veterano ucraniano Maksym Butkevych, que esteve preso na Rússia entre 2022 e 2024, é difícil afirmar isso dadas as condições do cativeiro russo. Por um lado, impera na Rússia uma "atmosfera de coerção e pressão constantes"; por outro, prisioneiros poderiam ter desertado voluntariamente devido a uma afinidade ideológica com as forças de ocupação.

Como são recrutados os prisioneiros ucranianos?

Butkevych conta à DW que, nos anos de 2022 e 2023, foi oferecido a todos os prisioneiros - de forma "mais ou menos insistente" - que passassem para o lado russo. No caso dele, isso ocorreu após a primeira sessão de maus-tratos graves. "Eles nos mostraram que podiam fazer qualquer coisa conosco; por isso, deveríamos concordar com tudo", relata.

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Yevhen Shybalov diz ter passado por situação semelhante. Segundo ele, os russos tentam forçar confissões de crimes de guerra ou recrutar homens para o serviço de inteligência de Moscou. Também buscam identificar pessoas "valiosas" que poderiam ser incluídas em trocas de prisioneiros. Segundo ele, após interrogatórios envolvendo violência, propostas específicas eram apresentadas a todos os prisioneiros.

Mas Shybalov acha que ainda assim existem limites. "É possível torturar alguém para forçar um consentimento, mas chega um momento difícil em que é preciso entregar uma arma à pessoa. Por isso, trata-se mais de pressão psicológica e artifícios para obter uma concordância voluntária", ressaltou.

Butkevych concorda. Nenhum dos dois conhece alguém que quisesse se juntar às formações militares russas. Para a maioria, dizem eles, essa é uma linha vermelha que não se cruza jamais.

O que acontece após o consentimento?

O soldado Pavlo Oliinyk, agora sob custódia ucraniana após ter escapado do Exército russo, relata experiências diferentes. Ele diz ter recusado várias vezes a oferta de integrar o Batalhão Kryvonis. Somente na quarta tentativa ele decidiu aceitar, mas "exclusivamente para conseguir fugir". Antes disso, ele havia sido mantido em confinamento solitário na região ocupada do Donbass, onde foi interrogado sobre posições militares, sua brigada e questões pessoais.

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"Não falo bem russo, por isso respondi às perguntas de forma precária e pouco clara [...]. Então, usaram violência física e choques elétricos contra mim. Quando exigiram que eu assinasse um documento concordando em colaborar com os serviços de inteligência das Repúblicas Populares de Luhansk e Donetsk, me trancaram nu por oito horas em um pequeno armário de metal", relata Oliinyk.

Ele diz não ter assinado documentos do Ministério da Defesa da Rússia e que o contrato que lhe foi oferecido era com "uma pessoa física que presta serviços militares". Após concordar, ele foi submetido a palestras ideológicas e à exibição de fotos e vídeos em salas sem janelas, sendo obrigado, na sequência, a relatar o conteúdo do que havia visto.

Controle e abusos no Batalhão Kryvonis

Segundo Oliinyk, o Batalhão Kryvonis reunia tanto voluntários quanto pessoas que aderiram sob coação.

Em um vídeo que circula na internet - supostamente gravado durante um interrogatório na Ucrânia -, ele afirma que os ex-prisioneiros de guerra ucranianos integrantes da unidade (cerca de 50 homens) eram vigiados e monitorados a cada passo por combatentes de uma empresa militar privada chamada Redut.

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À DW, ele diz que chegou a receber um telefone, mas que o aparelho também era monitorado; por isso, temendo represálias, não entrou em contato com ninguém na Ucrânia. Nesse mesmo vídeo, ele também fala sobre espancamentos e tortura dentro da unidade.

Oliinyk conta que os homens recebiam o pagamento mensal em envelopes, entregues por um representante do serviço de inteligência militar da Rússia. Ele nega ter participado de combates contra a Ucrânia, alegando ter desertado logo em sua primeira missão, em março de 2025.

Na ocasião, ele foi enviado a Andriivka, na região de Donetsk, como parte de um grupo de oito soldados das forças especiais russas, acompanhado por outro membro do batalhão. Antes mesmo de a operação de limpeza da área começar, ele fugiu: atravessou um campo, escondendo-se de drones em porões e casas, e encontrou soldados ucranianos dois dias depois.

Oliinyk está detido na Ucrânia há um ano e meio. As autoridades investigam uma possível acusação de alta traição sob a lei marcial. Até o momento, porém, nenhuma acusação formal foi apresentada contra ele.

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