O temor de que o Brasil se torne uma Cuba ou Venezuela baseia-se em narrativas de poder e falsas simetrias, ignorando as estruturas econômicas distintas e as sanções coercitivas impostas a esses países pelos EUA. O risco concreto não reside na repetição dessa trajetória, mas na pressão externa sob a Doutrina Monroe e no alinhamento da extrema direita com Washington. Essa subordinação voluntária das elites ameaça a soberania, os recursos estratégicos e a indústria nacional.
O debate público brasileiro é atravessado, há décadas, pelo temor recorrente de que o país se transforme em uma "nova Cuba" ou uma "nova Venezuela".
Mobilizados por elites conservadoras e amplificados pela grande mídia, esses bordões ressurgem a cada eleição. Eles prejudicam o debate e ignoram as sanções econômicas impostas a ambas as nações.
Mas qual o risco de o Brasil vir a se tornar uma Venezuela ou uma Cuba do ponto de vista econômico e social? A comparação entre os países diz pouco sobre a realidade estrutural e muito sobre retórica e narrativas de poder. O Brasil possui uma economia vasta e diversificada, enquanto Cuba é uma ilha estatal e a Venezuela, dependente do petróleo. Mas vamos puxar o fio dessa meada desde lá atrás.
A construção do medo
O temor de uma "cubanização ou venezuelanização" não nasceu na campanha atual. Em artigo que escrevi com Wanderley Anchieta, pesquisador e doutor em Comunicação, analisamos como os jornais O Globo e Folha de S. Paulo ajudaram a construir, desde os anos 1960, uma narrativa específica sobre a Revolução Cubana.
Em 1961, após a ilha declarar-se socialista, o jornal O Globo estampava: "Nada de dubiedades ante Cuba, país comunista!", repercutindo o debate no Congresso Nacional que impunha uma falsa dicotomia entre democracia ocidental e comunismo.
Esse enquadramento dialogava com os estudos sobre a Guerra Fria, a exemplo do texto "clássico" Four Theories of the Press (publicado originalmente em 1956), que equiparava a imprensa soviética ao autoritarismo. Como apontam John Nerone e, no Brasil, Afonso de Albuquerque e Marco A. Roxo, essa classificação buscava mais opor modelos do que explicar realidades concretas, ignorando especificidades materiais.
Após 1964, a ditadura censurou o tema, mas manteve a ilha como o inimigo a ser evitado. Nos anos 1990, o termo "comunismo" cedeu lugar a "autoritarismo" e "totalitarismo". Segundo a historiadora Claudia Wasserman, o reaparecimento de Cuba nos jornais focou no conflito com Washington, espelhando debates nacionais como a redemocratização e a reorganização das esquerdas. No contexto diplomático, o Brasil insistia em manter sua tradição de mediador, enquanto se esperava que os EUA cumprissem seu "papel histórico" de "protetor" da região.
A vez da Venezuela
Outro caminho foi a chamada "onda rosa". A partir da eleição de Chávez (1998), governos de esquerda chegaram ao poder em vários países da região, entre eles o Brasil de Lula. Essa "guinada à esquerda" reunia projetos distintos cujas diferenças também foram apagadas pelo discurso do medo.
Em 2022, diante da vitória do Lula sobre Jair Bolsonaro, o Brasil se uniu à Colômbia, à Argentina, ao México, ao Chile e ao Peru em um bloco regional que parecia trazer de volta a esquerda latino-americana. As condições, porém, eram outras e 2026 nos mostra um cenário bem distante do projetado quatro anos antes.
O lastro da pressão externa
Em Cuba, o embargo dos Estados Unidos foi aplicado de forma escalonada desde 1959, declarado total em 1962 e consolidado em leis como a Helms-Burton, de 1996.
Segundo dados apresentados por Cuba à ONU, apenas as perdas econômicas entre março de 2024 e fevereiro de 2025 somaram US$ 7,5 bilhões. Em 2026, Washington reforçou o bloqueio e passou a ameaçar diretamente com tarifas os países fornecedores de petróleo à ilha. Relatos oficiais afirmam que o país não recebe combustível desde março.
Na Venezuela, as sanções endureceram em 2017 e 2019 e, em 3 de janeiro de 2026, forças dos EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro.
Em ambos os casos, as crises também confluem com causas internas, mas a pressão externa moldou o terreno em que elas se desenrolaram.
A literatura sobre sanções econômicas, como os estudos de Gary Hufbauer, evidencia que punições financeiras assimétricas não necessariamente cumprem metas de democratização. Na prática, restringir suprimentos, capital e tecnologia desestrutura a produção local, pune a população civil e fortalece o controle estatal sobre os recursos remanescentes.
Embora o Brasil viva outra realidade, já experimentou mecanismos da diplomacia coercitiva de Trump. Em julho de 2025, os EUA anunciaram tarifa de 50% sobre importações, citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Também penalizaram Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, mas a medida foi retirada em dezembro.
Em 2026, vieram tarifas de 25% após investigação pela Seção 301, dispositivo da lei comercial americana que permite retaliar práticas consideradas desleais pelos EUA.
A escala difere, mas o roteiro é reconhecível. Frente ao fantasma da "comunização", o risco concreto é uma nova onda neocolonial impulsionada pela entrega voluntária da soberania por elites locais.
America First versus América Latina
O slogan "América Primeiro" se refere à supremacia dos Estados Unidos, não aos interesses de um hemisfério. Anterior a Trump, reflete um projeto de nação secular. Na campanha de 2016, recuperou o tom racista, antissemita e xenófobo do período pós-Primeira Guerra, abandonando a diplomacia de Obama.
Em dezembro de 2025, a Estratégia de Segurança Nacional reafirmou a Doutrina Monroe com o "Corolário Trump": controlar ativos estratégicos e impedir sua apropriação por "ameaças externas", validando intervenções em países considerados ameaças à segurança americana.
Para o Brasil, somam-se às tarifas as designações de cartéis e gangues como terroristas. CV e PCC já constam nas listas de Terroristas Globais Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras.
Isso prevê bloqueio de ativos sob jurisdição americana e criminalização de terceiros, mesmo aqueles com vínculos indiretos com as facções. Principalmente, abre precedentes para operações antiterrorismo além das fronteiras, ignorando a imunidade soberana, como o sequestro de Maduro sob alegação de narcoterrorismo.
Peça-chave
O Brasil tem peso próprio nesse tabuleiro. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, o país tem a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo. Tem também nióbio, grafite, lítio, níquel e cobre. Para resguardar esses ativos, o governo atual sancionou, em setembro, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Os EUA lideram o investimento estrangeiro direto no país (34% do total), enquanto a China é a maior compradora, em meio à participação brasileira nos BRICS e na Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
Nesse tabuleiro, a política externa polariza o debate eleitoral. Em junho, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ofereceu sua equipe de transição ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, para acelerar acordos comerciais. Rubio agradeceu e manteve intocadas as sanções.
Enquanto a extrema direita aposta no alinhamento incondicional, em troca de uma suposta vantagem comercial no futuro, os críticos alertam para o desmonte sistemático de blocos do Sul Global e para um possível enfraquecimento do protagonismo brasileiro no cenário geopolítico internacional. A ala bolsonarista já manifestou seu interesse em deixar o Mercosul.
A história latino-americana demonstra que a subordinação aprofunda a reprimarização da pauta exportadora. Ao se reduzir a economia à exportação de produtos básicos (commodities) e de baixo valor agregado, como soja, minério e petróleo bruto, acentua-se a dependência e limita-se o crescimento industrial.
Economicamente, o país aumenta a importação de bens de alto valor agregado, expondo o consumidor à volatilidade dos mercados financeiros internacionais. Socialmente, perde-se a capacidade redistributiva do Estado frente à inflação. Politicamente, terceirizam-se as decisões nacionais.
Como evitar falsos dilemas
O rótulo da "cubanização" ou "venezuelanização" prejudica o debate público ao substituir a análise concreta de projetos políticos por fantasmas ideológicos. É preciso ir além dos adjetivos e examinar o que está efetivamente em jogo para o país.
O risco de o Brasil "virar uma Cuba ou uma Venezuela" por tentar construir um projeto político com maior impacto social não está, e nunca esteve, sobre a mesa. Temos lidado por anos com uma falsa simetria. Contudo, o país encontra-se, de fato, diante de uma encruzilhada decisiva. O perigo real não é a repetição da trajetória de nossos vizinhos, mas sim a submissão a um projeto de extrema direita que conduz ao empobrecimento e ao desgaste da economia nacional.
Cuba e Venezuela colhem as consequências da coerção contínua de uma potência externa como reação à defesa da soberania. No caso brasileiro, o risco não vem de fora como punição, mas de dentro, na forma de entrega voluntária, por uma pequena elite, da riqueza que pertence a todo um povo.
Rosana Berjaga Mendez é bolsista FAPESP desde 2026