Quais as chances de o Brasil se transformar em uma nova Cuba ou em uma nova Venezuela?

A economia e as riquezas do Brasil são incomparáveis à Cuba e Vanezuela, mas o risco de uma nova onda neocolonial existe. Desta vez, impulsionada pela entrega voluntária da soberania do país pelas elites locais, em caso de vitória do bolsonarismo nas eleições presidenciais

23 out 2026 - 13h39
Resumo
O temor de que o Brasil se torne uma Cuba ou Venezuela baseia-se em narrativas de poder e falsas simetrias, ignorando as estruturas econômicas distintas e as sanções coercitivas impostas a esses países pelos EUA. O risco concreto não reside na repetição dessa trajetória, mas na pressão externa sob a Doutrina Monroe e no alinhamento da extrema direita com Washington. Essa subordinação voluntária das elites ameaça a soberania, os recursos estratégicos e a indústria nacional.

O debate público brasileiro é atravessado, há décadas, pelo temor recorrente de que o país se transforme em uma "nova Cuba" ou uma "nova Venezuela".

Mobilizados por elites conservadoras e amplificados pela grande mídia, esses bordões ressurgem a cada eleição. Eles prejudicam o debate e ignoram as sanções econômicas impostas a ambas as nações.

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Mas qual o risco de o Brasil vir a se tornar uma Venezuela ou uma Cuba do ponto de vista econômico e social? A comparação entre os países diz pouco sobre a realidade estrutural e muito sobre retórica e narrativas de poder. O Brasil possui uma economia vasta e diversificada, enquanto Cuba é uma ilha estatal e a Venezuela, dependente do petróleo. Mas vamos puxar o fio dessa meada desde lá atrás.

A construção do medo

O temor de uma "cubanização ou venezuelanização" não nasceu na campanha atual. Em artigo que escrevi com Wanderley Anchieta, pesquisador e doutor em Comunicação, analisamos como os jornais O Globo e Folha de S. Paulo ajudaram a construir, desde os anos 1960, uma narrativa específica sobre a Revolução Cubana.

Em 1961, após a ilha declarar-se socialista, o jornal O Globo estampava: "Nada de dubiedades ante Cuba, país comunista!", repercutindo o debate no Congresso Nacional que impunha uma falsa dicotomia entre democracia ocidental e comunismo.

Esse enquadramento dialogava com os estudos sobre a Guerra Fria, a exemplo do texto "clássico" Four Theories of the Press (publicado originalmente em 1956), que equiparava a imprensa soviética ao autoritarismo. Como apontam John Nerone e, no Brasil, Afonso de Albuquerque e Marco A. Roxo, essa classificação buscava mais opor modelos do que explicar realidades concretas, ignorando especificidades materiais.

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Após 1964, a ditadura censurou o tema, mas manteve a ilha como o inimigo a ser evitado. Nos anos 1990, o termo "comunismo" cedeu lugar a "autoritarismo" e "totalitarismo". Segundo a historiadora Claudia Wasserman, o reaparecimento de Cuba nos jornais focou no conflito com Washington, espelhando debates nacionais como a redemocratização e a reorganização das esquerdas. No contexto diplomático, o Brasil insistia em manter sua tradição de mediador, enquanto se esperava que os EUA cumprissem seu "papel histórico" de "protetor" da região.

A vez da Venezuela

Outro caminho foi a chamada "onda rosa". A partir da eleição de Chávez (1998), governos de esquerda chegaram ao poder em vários países da região, entre eles o Brasil de Lula. Essa "guinada à esquerda" reunia projetos distintos cujas diferenças também foram apagadas pelo discurso do medo.

Em 2022, diante da vitória do Lula sobre Jair Bolsonaro, o Brasil se uniu à Colômbia, à Argentina, ao México, ao Chile e ao Peru em um bloco regional que parecia trazer de volta a esquerda latino-americana. As condições, porém, eram outras e 2026 nos mostra um cenário bem distante do projetado quatro anos antes.

O lastro da pressão externa

Em Cuba, o embargo dos Estados Unidos foi aplicado de forma escalonada desde 1959, declarado total em 1962 e consolidado em leis como a Helms-Burton, de 1996.

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Segundo dados apresentados por Cuba à ONU, apenas as perdas econômicas entre março de 2024 e fevereiro de 2025 somaram US$ 7,5 bilhões. Em 2026, Washington reforçou o bloqueio e passou a ameaçar diretamente com tarifas os países fornecedores de petróleo à ilha. Relatos oficiais afirmam que o país não recebe combustível desde março.

Na Venezuela, as sanções endureceram em 2017 e 2019 e, em 3 de janeiro de 2026, forças dos EUA sequestraram o presidente Nicolás Maduro.

Em ambos os casos, as crises também confluem com causas internas, mas a pressão externa moldou o terreno em que elas se desenrolaram.

A literatura sobre sanções econômicas, como os estudos de Gary Hufbauer, evidencia que punições financeiras assimétricas não necessariamente cumprem metas de democratização. Na prática, restringir suprimentos, capital e tecnologia desestrutura a produção local, pune a população civil e fortalece o controle estatal sobre os recursos remanescentes.

Embora o Brasil viva outra realidade, já experimentou mecanismos da diplomacia coercitiva de Trump. Em julho de 2025, os EUA anunciaram tarifa de 50% sobre importações, citando o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Também penalizaram Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, mas a medida foi retirada em dezembro.

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Em 2026, vieram tarifas de 25% após investigação pela Seção 301, dispositivo da lei comercial americana que permite retaliar práticas consideradas desleais pelos EUA.

A escala difere, mas o roteiro é reconhecível. Frente ao fantasma da "comunização", o risco concreto é uma nova onda neocolonial impulsionada pela entrega voluntária da soberania por elites locais.

America First versus América Latina

O slogan "América Primeiro" se refere à supremacia dos Estados Unidos, não aos interesses de um hemisfério. Anterior a Trump, reflete um projeto de nação secular. Na campanha de 2016, recuperou o tom racista, antissemita e xenófobo do período pós-Primeira Guerra, abandonando a diplomacia de Obama.

Em dezembro de 2025, a Estratégia de Segurança Nacional reafirmou a Doutrina Monroe com o "Corolário Trump": controlar ativos estratégicos e impedir sua apropriação por "ameaças externas", validando intervenções em países considerados ameaças à segurança americana.

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Para o Brasil, somam-se às tarifas as designações de cartéis e gangues como terroristas. CV e PCC já constam nas listas de Terroristas Globais Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras.

Isso prevê bloqueio de ativos sob jurisdição americana e criminalização de terceiros, mesmo aqueles com vínculos indiretos com as facções. Principalmente, abre precedentes para operações antiterrorismo além das fronteiras, ignorando a imunidade soberana, como o sequestro de Maduro sob alegação de narcoterrorismo.

Peça-chave

O Brasil tem peso próprio nesse tabuleiro. Segundo o Serviço Geológico dos EUA, o país tem a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo. Tem também nióbio, grafite, lítio, níquel e cobre. Para resguardar esses ativos, o governo atual sancionou, em setembro, a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

Os EUA lideram o investimento estrangeiro direto no país (34% do total), enquanto a China é a maior compradora, em meio à participação brasileira nos BRICS e na Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

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Nesse tabuleiro, a política externa polariza o debate eleitoral. Em junho, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) ofereceu sua equipe de transição ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, para acelerar acordos comerciais. Rubio agradeceu e manteve intocadas as sanções.

Enquanto a extrema direita aposta no alinhamento incondicional, em troca de uma suposta vantagem comercial no futuro, os críticos alertam para o desmonte sistemático de blocos do Sul Global e para um possível enfraquecimento do protagonismo brasileiro no cenário geopolítico internacional. A ala bolsonarista já manifestou seu interesse em deixar o Mercosul.

A história latino-americana demonstra que a subordinação aprofunda a reprimarização da pauta exportadora. Ao se reduzir a economia à exportação de produtos básicos (commodities) e de baixo valor agregado, como soja, minério e petróleo bruto, acentua-se a dependência e limita-se o crescimento industrial.

Economicamente, o país aumenta a importação de bens de alto valor agregado, expondo o consumidor à volatilidade dos mercados financeiros internacionais. Socialmente, perde-se a capacidade redistributiva do Estado frente à inflação. Politicamente, terceirizam-se as decisões nacionais.

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Como evitar falsos dilemas

O rótulo da "cubanização" ou "venezuelanização" prejudica o debate público ao substituir a análise concreta de projetos políticos por fantasmas ideológicos. É preciso ir além dos adjetivos e examinar o que está efetivamente em jogo para o país.

O risco de o Brasil "virar uma Cuba ou uma Venezuela" por tentar construir um projeto político com maior impacto social não está, e nunca esteve, sobre a mesa. Temos lidado por anos com uma falsa simetria. Contudo, o país encontra-se, de fato, diante de uma encruzilhada decisiva. O perigo real não é a repetição da trajetória de nossos vizinhos, mas sim a submissão a um projeto de extrema direita que conduz ao empobrecimento e ao desgaste da economia nacional.

Cuba e Venezuela colhem as consequências da coerção contínua de uma potência externa como reação à defesa da soberania. No caso brasileiro, o risco não vem de fora como punição, mas de dentro, na forma de entrega voluntária, por uma pequena elite, da riqueza que pertence a todo um povo.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Rosana Berjaga Mendez é bolsista FAPESP desde 2026

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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