O anúncio pode até soar como um roteiro trivial. Ex-atleta, cuja carreira contém títulos de expressão nacional e continental, transitando à área técnica a partir das categorias de base até chegar a uma equipe profissional na primeira divisão do esporte em seu próprio país. Uma trajetória comumente celebrada pela economia de atenção que permeia os noticiários do futebol. Porém, desta vez, a protagonista em questão representa o gênero feminino na liderança técnica de um ambiente predominantemente masculino.
Marie-Louise Eta, a primeira mulher anunciada como treinadora (interina) na Bundesliga alemã chega para romper barreiras, preconceitos e paradigmas de ordem histórica na modalidade esportiva que (poderia) fomenta(r) debates democráticos com maior frequência no planeta.
Apesar de ocupar o cargo apenas de forma temporária (pois espera-se que em junho ela assuma oficialmente a equipe feminina no mesmo clube, o 1.FC Union Berlin), a treinadora se posiciona como pioneira entre as grandes ligas do futebol europeu.
Antes dela, sua conterrânea Sabrina Wittmann foi a precursora dos holofotes ao assumir o comando da equipe profissional do FC Ingolstadt, também na Alemanha, embora o clube ainda permaneça na terceira divisão do futebol masculino no país.
Tal pioneirismo de ambas essas mulheres em solo alemão pode elucidar as conquistas que já acompanham o percurso de suas colegas de profissão no alto rendimento esportivo mundo afora.
Especificamente no futebol feminino, treinadoras mulheres venceram as últimas seis Olimpíadas (entre 2004 e 2024), bem como as últimas oito Eurocopas da UEFA (entre 1997 e 2025). Além disso, desde 2003 apenas duas seleções nacionais lideradas por treinadores homens terminaram a Copa do Mundo da FIFA como campeãs (Japão em 2011 e Espanha em 2023).
Num total de nove edições do mundial feminino, as mulheres ocuparam apenas 24% das vagas disponíveis para treinadores, mas conquistaram 44% dos títulos durante o período de 1991 a 2023.
Pesquisa da UEFA
Uma pesquisa quantitativa financiada pela UEFA e conduzida em parceria com a Federação Belga de Futebol examinou justamente a realidade de 1010 treinadoras (mulheres) no futebol europeu em 2025. Implementada em 17 países do continente e focada em perspectivas positivas, a pesquisa adotou uma análise econométrica para entender as condições que possam potencializar o presente e o futuro das treinadoras atuantes na Europa. Ao traduzir os cálculos em resultados práticos, destacam-se três implicações centrais:
Primeiro, o entorno social das treinadoras influencia como elas acreditam em sua própria capacidade e como elas optam em avançar com suas respectivas carreiras no futebol. Segundo, a formação das treinadoras deve ser aplicada para e por mulheres, multiplicando a presença de instrutoras e a disseminação de conhecimento específico sobre o futebol feminino. Terceiro, a jornada das treinadoras deve ser devidamente valorizada, possibilitando a transferência de suas experiências a oportunidades de trabalhos remunerados e progressivos.
Embora essa pesquisa recente subsidiada pela UEFA identifique caminhos para aumentar a representatividade de treinadoras no continente europeu, a aceitação de mulheres ocupando cargos de liderança no futebol masculino (e até mesmo feminino) ainda depende de uma conjuntura sociocultural. Na literatura que tenta explicar a ausência feminina na gestão do esporte, estudos apontam que mulheres tendem a assumir posições de comando mediante situações de maior risco ou quando as circunstâncias já se encontram desfavoráveis à organização.
'Penhasco de vidro'
Trata-se, por exemplo, do 'penhasco de vidro' (glass cliff), um fenômeno que condiciona o insucesso da pessoa selecionada a liderar. Outro efeito semelhante corresponde ao 'teto de vidro' (glass ceiling), que confina o progresso de mulheres devido a barreiras socioculturais presentes no ambiente de trabalho.
Ou seja, quando uma treinadora se compromete a percorrer as etapas tidas como necessárias para atingir meritocracia em seu respectivo clube, a mesma se depara com limites de ascensão profissional que nem sempre são replicados aos treinadores do genêro masculino.
Consequentemente, a sub-representação de treinadoras no futebol deve ser percebida como um sintoma das práticas organizacionais, não como um problema relacionado à competência feminina.
Para fortaceler e multiplicar nomes que possam espelhar os caminhos traçados por Marie-Louise Eta e Sabrina Wittmann no futebol masculino, torna-se necessário um comprometimento por mudanças socioculturais que visem reduzir e, preferencialmente, eliminar estereótipos ligados à atividade e à carreira das treinadoras.
Afinal, em meio à terceira década do século XXI, anúncios que questionem paradigmas também servem para nos alertar sobre o atraso de um regime majoritariamente masculino retendo decisõesque poderiam transformar estruturas esportivas.
Matheus Galdino não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.