Por que o crime organizado está tornando a vida mais cara sem que a gente perceba

Extorsão, lavagem de dinheiro, concorrência desleal e roubo de cargas custam ao setor privado mais de R$ 450 bilhões por ano. O problema transcende as fronteiras do país

3 abr 2026 - 10h15

Há muito a criminalidade organizada deixou de ser um fenômeno restrito às periferias urbanas. Ela atualmente está infiltrada de maneira profunda nos circuitos formais da economia. Nas grandes metrópoles - onde se concentram infraestrutura financeira, logística e produtiva -, os efeitos sobre o setor privado são particularmente severos. Os custos operacionais sobem, a concorrência é distorcida, investimentos são adiados ou cancelados e o próprio capital institucional se fragiliza. Trata-se, portanto, de um problema que é securitário, econômico e de governança ao mesmo tempo.

Para ilustrar, imagine um comerciante observando um concorrente abrir uma loja ao lado da sua, que vende mais barato, não paga impostos e nunca parece ter problemas de caixa. Depois de alguns meses, o comerciante descobre o motivo: a loja existe para lavar dinheiro do crime organizado. Esse cenário, que parece enredo de série policial, é o dia a dia de milhares de empresários brasileiros.

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Estudos conduzidos por instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o IPEA e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram que a criminalidade organizada impõe ao Brasil um custo anual equivalente a cerca de 4,2% do PIB apenas em impactos sobre o setor privado. Em valores absolutos, isso equivale a mais de R$ 450 bilhões — montante suficiente para construir sete vezes o Rodoanel de São Paulo.

Custo nacional e transnacional

No Rio de Janeiro, essa situação salta aos olhos. Basta a um observador atento percorrer a Avenida Brasil — principal e mais estratégico corredor viário do Estado, mas também um dos mais perigosos — para constatar a deterioração acelerada do ambiente produtivo. Empresas históricas, que durante décadas compuseram um tecido econômico vibrante ao longo da via, vêm desaparecendo de um território que passou a ser, na prática, controlado por organizações criminosas.

Diante desse cenário, as respostas do Estado têm seguido um roteiro velho e surrado: reforços pontuais e reativos de policiamento combinadas com operações policiais de grande impacto midiático, mas com baixos resultados estruturais. Além disso, como o cobertor dos recursos públicos é curto, o modelo se exaure nessas ações, abrindo espaço para a expansão dos "crimes de rua", em especial roubos e furtos de celulares.

Importante destacar que o problema está longe de ser uma particularidade brasileira. Na América Latina e no Caribe, o custo médio do crime alcança 3,44% do PIB regional, segundo estimativas do BID (2024). É o equivalente a 78% de todo o orçamento público destinado à educação na região.

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As cifras estimadas para a região ultrapassam em 42% o custo estimado do crime organizado na Europa. Em escala global, dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) indicam que redes criminosas transnacionais movimentam anualmente cerca de 1,5% do PIB mundial — um volume financeiro que supera, inclusive, toda a ajuda humanitária global combinada. No fim das contas, essa conta não desaparece: ela só se redistribui, chegando, de diferentes formas, a toda a sociedade.

O impacto sobre o setor produtivo

A criminalidade deixou de ser um risco eventual ao setor privado e tornou-se custo estrutural de operação. Para funcionar, as empresas sustentam uma engrenagem paralela de proteção, que inclui câmeras, vigilância privada, blindagem de veículos, seguros mais caros, rastreamento de cargas e rotinas adicionais de controle. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, os gastos diretos com segurança no Brasil já se aproximam de R$ 60 bilhões por ano. A esse valor se somam cerca de R$ 200 bilhões em custos indiretos — perdas, interrupções logísticas e ineficiências operacionais — que se espalham pela cadeia produtiva e acabam repassados ao consumidor.

Nesse cenário, não causa espanto que uma em cada três empresas da América Latina registre ao menos um incidente criminal por ano. Tampouco que os gastos com segurança já consumam 2,7% da receita bruta — mais, em muitos casos, do que as perdas causadas por falhas no fornecimento de energia.

Mais grave ainda é o custo invisível trazido pela presença do crime organizado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mapeou sua atuação em 16 setores da economia formal. Entre eles, nos combustíveis, bebidas, tabaco, construção civil, mineração. Em cada um desses setores, empresas criminosas operam com vantagem competitiva artificial: não maximizam lucros, só precisam lavar dinheiro. Isso destrói a concorrência leal.

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O resultado? A CNI estima que essa infiltração tenha impedido a criação de 370 mil empregos formais em 2022 e retirado R$ 500 bilhões da economia produtiva — recursos que, em condições normais, poderiam estar gerando renda, impostos e inovação.

O que pode ser feito

As estatísticas trazem um dado muito interessante sobre o enfrentamento eficiente à violência. O FMI (Fundo Monetário Internacional) mostrou que reduzir as taxas de homicídio ao nível da média global poderia elevar o crescimento anual da América Latina em até meio ponto percentual. Nas economias mais violentas, o ganho poderia chegar a 1 ponto — o equivalente a bilhões de dólares em riqueza adicional gerada a cada ano.

Isso muda o enquadramento do problema. Combater o crime organizado não é apenas uma questão de segurança pública. E o setor privado tem um papel importante nessa equação que vai além de contratar vigilantes. As empresas poderiam, por exemplo, exigir rastreabilidade nas cadeias de fornecimento, pressionar por regulação mais rigorosa em setores infiltrados e adotar práticas antilavagem de dinheiro mesmo quando não são instituições financeiras.

O Movimento Unidos pelo Combustível Legal é um exemplo concreto disso. Trata-se de uma coalizão de empresas do setor que estimou perdas de cerca de R$ 30 bilhões por ano com sonegação e adulteração de combustíveis — e passou a pressionar ativamente por mudanças regulatórias. Os resultados mostram que esse tipo de articulação funciona.

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Isso significa que combater o crime organizado não é só uma questão de segurança. É política econômica. É competitividade. É geração de emprego.

A conta que ninguém faz

No fim das contas, o crime organizado funciona como um imposto invisível. Ele não aparece na nota fiscal, não consta em nenhum CNPJ, mas está embutido em cada produto que fica mais caro, em cada investimento que não acontece, em cada talento que emigra por causa da insegurança.

O BID calcula que os países da América Latina gastam com crime o equivalente a 78% de todo o orçamento público destinado à educação na região. Essa é a conta que o crime organizado apresenta todos os anos ao setor produtivo. E quanto mais tempo demorarmos para enxergá-la, e combatê-la, maior ela fica.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Robson Rodrigues é Coronel da Reserva da Polícia Militar e foi chefe do Estado Maior da PM do Rio de Janeiro. As opiniões deste artigo não são vinculadas à instituição em que atuou.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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