Pesquisador ajuda a explicar por que o terremoto na Colômbia foi tão destrutivo

Muitos prédios na Colômbia têm paredes finas de concreto, o que os torna extremamente vulneráveis ao desabamento.

11 ago 2026 - 07h46

Moradores e autoridades da Colômbia iniciaram uma operação maciça de busca e resgate para localizar sobreviventes de um forte terremoto que atingiu ontem a região próxima a San José del Palmar, no departamento de Chocó, com grandes danos observados nas cidades de Cali, Manizales e Pereira.

Pelo menos 132 pessoas já haviam sido confirmadas como mortas, e espera-se que esse número aumente significativamente nas próximas horas e dias. Milhares de casas também teriam desabado ou sido danificadas.

Publicidade

O Serviço Geológico dos Estados Unidos informou que o terremoto de magnitude 7,4 ocorreu principalmente devido a uma falha de deslizamento lateral a uma profundidade de aproximadamente 110 quilômetros. Em termos simples, um terremoto de deslizamento lateral ocorre quando dois blocos da crosta terrestre deslizam horizontalmente um sobre o outro, em vez de se moverem para cima ou para baixo.

Isso ocorre apenas cerca de um mês após os terremotos na Venezuela, que podem ter destruído ou danificado mais de 58.000 edifícios e tiraram a vida de milhares de pessoas.

Ainda é muito cedo para dizer se o terremoto na Colômbia está relacionado ao da Venezuela. Mas há algumas evidências de que falhas sísmicas próximas podem "se comunicar" entre si. Um deslizamento sísmico em uma falha pode efetivamente transferir tensão para outra falha próxima, causando um terremoto.

Passei anos realizando testes experimentais em estruturas de concreto armado, algumas projetadas especificamente para as práticas de construção colombianas. Minha pesquisa sugere que não devemos nos surpreender com o fato de tantos prédios terem desabado neste desastre - e também que devemos nos preocupar com as muitas outras regiões ao redor do mundo que adotam práticas semelhantes.

Publicidade

Práticas de construção na Colômbia

Nas construções, lajes, vigas e pilares proporcionam resistência às cargas gravitacionais. No entanto, são necessárias paredes de concreto armado para resistir às cargas laterais causadas pelo vento e, em casos raros, porém extremos, por terremotos.

No entanto, na Colômbia, muitos edifícios possuem paredes finas de concreto, geralmente com espessura de 7 a 10 centímetros. Elas contam apenas com uma única camada de armadura de aço - geralmente uma tela de arame eletrossoldada, que é muito frágil e se rompe rapidamente.

A espessura reduzida das paredes também significa que o "confinamento" — em que arames de aço são colocados nas bordas da parede para ajudar a evitar o esmagamento do concreto — é praticamente impossível de ser implementado durante a construção. Além disso, não é exigido pelas normas de construção.

Testes em edifícios colombianos

Juntamente com colegas de três universidades colombianas, realizei testes em escala real no Laboratório de Engenharia Sísmica e Dinâmica Estrutural da Escola Federal de Tecnologia de Lausanne, na Suíça, em paredes de concreto construídas de acordo com as práticas comuns de construção na Colômbia. Queríamos descobrir como essas paredes se comportam quando sacudidas da mesma forma que um terremoto sacode um edifício.

Publicidade

Os resultados já eram preocupantes mesmo antes do terremoto de segunda-feira.

Quando um terremoto sacode um edifício, a situação ideal é que muitas pequenas fissuras se formem na base de uma parede reforçada com aço. Isso distribui a tensão.

Se uma única rachadura grande se formar devido à baixa quantidade de aço, a tensão fica concentrada. Isso faz com que as barras de reforço se rompam e a parede ceda.

Mas as paredes desses edifícios são tão finas que, mesmo que houvesse reforço de aço suficiente, elas ainda estariam sujeitas a ruir durante um terremoto. Nossos testes experimentais mostraram que simplesmente não há resistência suficiente para que essas paredes resistam a tremores de solo significativos.

Infelizmente, essa não parece ser uma escolha de projeto rara ou isolada — é uma prática comum em toda a região da América Latina.

Uma pesquisa de 2018 com nove edifícios em Cali, uma das cidades atingidas pelo terremoto de segunda-feira, constatou que 90% tinham paredes com uma única camada de reforço, e 30% tinham paredes com 100 mm de espessura ou menos.

Publicidade

Não se limita à América do Sul

Em 2011, um terremoto de magnitude 6,3 causou danos generalizados à cidade de Christchurch, na Zova Zelândia, tirando a vida de 185 pessoas.

A maioria dos edifícios de concreto armado projetados após a década de 1980 resistiu bem. Isso se deveu aos princípios de projeto introduzidos na época, que exigiam que os engenheiros refletissem cuidadosamente sobre a disposição do aço para permitir que as estruturas, incluindo as paredes, se deformassem e resistissem às ações sísmicas.

No entanto, alguns dos colapsos observados ocorreram em edifícios projetados antes da introdução desses princípios. Um exemplo disso é o edifício Pyne Gould. Seu desabamento foi provavelmente resultado da baixa quantidade de aço utilizada nas finas paredes do núcleo de concreto, onde se acredita que tenha se formado uma única fissura, concentrando a tensão.

Até recentemente, esse tipo de prática de projeto — paredes finas com, normalmente, uma quantidade reduzida de aço de reforço — também era permitido de acordo com as Normas Australianas para Estruturas de Concreto.

Publicidade

Após o terremoto de Christchurch, essa prática de projeto passou a ser motivo de preocupação para a comunidade de engenharia estrutural e sísmica, e as normas australianas foram revisadas em 2018 para ajudar a prevenir esse tipo de falha estrutural em projetos futuros.

No entanto, é provável que exista uma proliferação de paredes finas de concreto com armadura leve no parque imobiliário das cidades australianas construídas antes dessa revisão. Testes em paredes construídas seguindo essa mesma prática, incluindo alguns realizados aqui na Austrália, demonstraram que elas apresentam desempenho tão ruim quanto suas contrapartes colombianas sob carga sísmica.

Isso é preocupante, já que a Austrália não está imune a fortes terremotos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Ryan Hoult recebeu financiamento da Bolsa de Pós-Doutorado de Excelência do Governo Suíço. Sua pesquisa experimental também foi realizada como parte de um projeto financiado pelos Programas Bilaterais de Pesquisa da Suíça para a América Latina. Ele é vice-presidente da Sociedade Australiana de Engenharia Sísmica, um órgão profissional dedicado à pesquisa e à prática da engenharia sísmica na Austrália.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações