Perder uma eleição não é um problema de saúde mental

A tristeza de quem perdeu precisa de tempo e de ser reconhecida, inclusive por quem venceu. Numa democracia, esse caminho existe. Perder faz parte do contrato. O que não deveria fazer parte é tratar a derrota do outro como piada e a própria, sem provas, como fraude

26 out 2026 - 17h57
Resumo
O sofrimento gerado pela derrota nas urnas não constitui um transtorno psíquico, mas um luto legítimo pela perda de um ideal coletivo. A psicanálise aponta que medicalizar essa dor despolitiza um sentimento compartilhado, alimentado pela polarização digital e pelo deboche entre adversários. Na democracia, o poder é transitório e perder faz parte do processo, sem exigir resignação. O momento requer reconhecer o revés da oposição e atuar de forma ativa na fiscalização e nas próximas disputas.

Cerca de metade dos eleitores está hoje de luto. Tratar essa dor como um quadro clínico a ser controlada é um jeito de despolitizar o que é, antes de tudo, uma perda política.

Nesta segunda-feira, 26 de outubro, cerca de metade dos brasileiros que foram às urnas acorda se sentido derrotada.

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Até ontem, as pesquisas apontavam empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Pesquisa realizada antes do 1o turno indicava que quase 40% dos eleitores sentiam desalento com a disputa presidencial.

Qualquer que fosse o resultado final, milhões de pessoas passariam os dias seguintes com a sensação de ter perdido algo.

Nos últimos anos, essa sensação ganhou nome e manual de instruções. Fala-se em ansiedade eleitoral, em estresse pós-eleição, em cinco dicas para atravessar a semana.

Como psicanalista, desconfio dessa tradução. Ela trata como questão de saúde mental o que é uma perda política e oferece remédios individuais para algo que diz respeito a todos.

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Perder um ideal

Sigmund Freud definiu o luto como a reação à perda de uma pessoa amada ou de uma ideia que ocupe esse lugar: a pátria, a liberdade, um ideal. A definição serve ao dia seguinte de uma eleição.

Quem perde não perde só um candidato. Perde, por quatro anos, um projeto de país e, às vezes, a imagem que tinha do próprio país e das pessoas ao redor.

Nesse mesmo texto, Freud observou que, embora altere profundamente a relação de alguém com a vida, o luto nunca é tomado como doença: a ninguém ocorre encaminhar quem está de luto a um médico e qualquer interferência nele, escreveu Freud, tende a ser inútil ou até prejudicial.

O luto é a resposta proporcional a uma perda real. Tratar como excessivo ou desproporcional o sofrimento por uma perda que diz respeito a todos é transformar em problema de cada um o que é uma perda comum.

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Uma perda que não é de cada um

A derrota não começa nem termina em cada eleitor. Ela se forma em grupo: nas conversas, nas famílias, nas redes.

Em setembro de 2022, 46% dos brasileiros disseram ao Datafolha ter deixado de falar de política com amigos ou familiares para evitar discussões. O silêncio à mesa do almoço já é uma perda e nenhum resultado eleitoral vai devolvê-la.

Perde-se a possibilidade de discordar de quem se ama sem romper com essa pessoa. E perde-se algo maior: a experiência de que, apesar das diferenças, vivemos no mesmo país e discutimos os mesmos problemas.

Quando o voto passa a definir quem é da família e quem não é, a eleição deixa de ser uma escolha entre projetos e vira uma disputa sobre quem pertence.

Nas redes, isso se agrava. Um estudo de 2017 na revista PNAS, com mais de 560 mil mensagens no Twitter, mostrou que cada palavra de carga moral e emocional aumentava em cerca de 20% a circulação de uma mensagem, sobretudo dentro do próprio grupo político.

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O ambiente digital em que vivemos, que venho chamando de ciberdrome, não foi desenhado para elaborar perdas. Foi desenhado para mantê-las em carne viva porque a indignação rende engajamento.

Dois jeitos de negar uma perda

A cada eleição, de um lado e de outro, repete-se o deboche: memes de "chora mais", vídeos das lágrimas alheias, comemorações medidas pela dor do adversário. Não é só provocação.

O psicanalista húngaro Sándor Ferenczi mostrou, em 1933, que o que torna uma violência devastadora é muitas vezes a recusa dos outros em reconhecer que ela aconteceu. Chamou essa recusa de desmentido.

Guardadas as proporções, algo semelhante acontece na política. Quando a derrota de metade do país é recebida com zombaria, o que se nega é que aqueles eleitores tivessem algo legítimo a perder, ou seja, se nega que façam parte do mesmo jogo.

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O movimento inverso também ocorre: recusar a própria derrota, dizer que o resultado não vale. Para Freud, o luto só começa quando se aceita o veredito da realidade e se reconhece a perda.

Numa democracia, esse veredito tem forma pública e verificável: a contagem dos votos. Recusá-lo não atravessa a perda: impede que ela seja atravessada por quem perdeu e por todos.

A democracia é o regime em que se pode perder

O filósofo francês Claude Lefort escreveu que, na democracia moderna, o lugar do poder é um lugar vazio. Durante séculos, o poder teve um corpo, o do rei, que o encarnava e o transmitia por herança.

A democracia desfaz esse vínculo: ninguém possui o poder. Quem vence o ocupa provisoriamente, sob regras, e precisa devolvê-lo depois de certo tempo.

Por isso, para Lefort, a democracia é também o regime que reconhece a divisão como legítima: o conflito entre projetos não é uma doença a ser curada, é o modo normal de uma sociedade livre existir. Quem perde não é eliminado, nem perde o direito de se organizar, fazer oposição e disputar a próxima eleição. A perda é real, mas não é definitiva.

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Nesta eleição, essa garantia estava em disputa. Muitos eleitores temem ter perdido não apenas um projeto de país, mas as condições de disputar o voto de novo.

Para Lefort, o perigo que ronda toda democracia é a tentação de preencher o lugar vazio, fazendo da vitória provisória uma posse, apresentando um líder ou um grupo como encarnação do povo inteiro e tratando quem discorda como inimigo a eliminar e não como adversário.

Manter o lugar vazio exige que as regras valham para todos, inclusive para quem tentou rompê-las. Ninguém pode estar acima da lei. Hoje, esse perigo já não vem só do Estado.

Boa parte do espaço público em que nos informamos e discutimos pertence a poucas empresas privadas que ninguém elegeu e que decidem o que nele circula e para quem circula.

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Nesta eleição, isso deixou de ser abstrato. As duas campanhas acionaram o TSE contra a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp.

A Meta negou e atribuiu os episódios a falhas técnicas. O TSE, sem afirmar, naquela fase, que houvesse manipulação, ordenou tratamento idêntico aos dois candidatos, sob multa diária. Dias depois, o Ministério Público Eleitoral apontou cumprimento apenas parcial.

Com Lefort, o problema aparece antes de qualquer veredito sobre o caso: o lugar do poder deixa de estar vazio também quando parte dele é ocupada por quem nunca vai precisar devolvê-lo.

Isso acrescenta uma camada ao luto de quem perdeu. A contagem dos votos pode estar correta e, ainda assim, o derrotado pode sentir que disputou em campo desigual.

Perde-se então algo além do resultado: a confiança de que o jogo foi jogado nas mesmas condições para todos. Nenhuma recontagem resolve esse luto.

Ele só pode ser atravessado se as dúvidas forem investigadas às claras pelas instituições e respondidas com transparência por quem controla as plataformas.

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Sem isso, a suspeita fica sem destino e alimenta a recusa do resultado, que é o contrário do luto. Ainda assim, numa democracia a perda é provisória e não pede resignação.

Freud observa que o luto termina quando a pessoa volta a poder investir em outras coisas. Na política, essa volta tem forma concreta: fiscalizar, fazer oposição, se organizar, disputar as eleições municipais de 2028 e as gerais de 2030.

Quem vence também tem trabalho a fazer: governar um país em que quase metade votou contra, e lembrar que o lugar que ocupa é emprestado.

Nesta segunda-feira, a tristeza de quem perdeu não precisa de diagnóstico nem de dicas. Precisa de tempo, de ser reconhecida, inclusive por quem venceu, e de um caminho.

Numa democracia, esse caminho existe. Perder faz parte do contrato. O que não deveria fazer parte é tratar a derrota do outro como piada e a própria, sem provas, como fraude.

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The Conversation
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Foto: The Conversation

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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