Patinetes elétricos são uma ameaça silenciosa para a saúde, principalmente dos jovens

Os veículos de mobilidade pessoal ameaçam a saúde e a segurança dos jovens, privando-os da oportunidade de combater a inatividade física por meio do transporte ativo.

6 jan 2026 - 00h27
(atualizado às 14h47)
Estudos recentes analisaram a mobilidade assistida e questionam se veículos roubam oportunidades de atividade física e de interação social entre os jovens, além de aumentar o risco de acidentes com lesões potencialmente graves . Wpadington/Shutterstock
Estudos recentes analisaram a mobilidade assistida e questionam se veículos roubam oportunidades de atividade física e de interação social entre os jovens, além de aumentar o risco de acidentes com lesões potencialmente graves . Wpadington/Shutterstock
Foto: The Conversation

Os patinetes elétricos já são uma presença habitual nas nossas cidades. Eles são comumente vendidos como símbolo da micromobilidade moderna, uma solução que promete descongestionar as cidades, reduzir os tempos de deslocamento e cortar emissões de carbono. Mas por trás do seu estilo moderno se esconde uma armadilha silenciosa: estes veículos podem ameaçar a saúde e a segurança dos jovens.

Quando a mobilidade assistida rouba a saúde

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a falta de atividade física como uma das pandemias silenciosas do século XXI. Para combatê-la, a mobilidade ativa — caminhar ou andar de bicicleta pela cidade — é a ferramenta mais eficaz. Isso porque integra exercícios ao dia a dia, especialmente em trajetos habituais, como ir e voltar da escola.

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Diante desta preocupação, vários estudos recentes analisaram a mobilidade assistida e questionaram se esses veículos roubam oportunidades de atividade física dos jovens. Um estudo demonstra que seu uso implica um gasto energético menor do que caminhar. É lógico: não é um meio de transporte ativo, mas passivo e assistido. Ao substituir a caminhada ou a bicicleta, eles favorecem uma perda na atividade física diária, como aponta outro estudo. Além disso, como permitem chegar até a porta do destino, tornam menos atraente a mobilidade híbrida com transporte público.

Se um jovem substitui um trajeto de 15 minutos a pé por um de 5 minutos em patinete elétrico, perde uma parte crucial de sua atividade física diária e interação com o ambiente. O impacto na saúde pública é devastador se multiplicarmos por milhões de jovens. Em última análise, os patinetes também aumentam o risco de doenças não transmissíveis a longo prazo.

Também não podemos ignorar os possíveis efeitos negativos do uso de patinetes elétricos na saúde psicossocial. Por exemplo, esses veículos podem estar transformando a experiência social do deslocamento até a escola, reduzindo as oportunidades de interação social oferecidas pelo transporte ativo, resultando em menos conversas e trocas de experiências entre os jovens.

Riscos de lesões graves

Além dos riscos à saúde e sociais, o boom da micromobilidade assistida trouxe um aumento preocupante no número de acidentes. Os dados são claros: de acordo com a Direção Geral de Trânsito da Espanha, 459 pessoas foram hospitalizadas no país em 2024 por acidentes envolvendo veículos de mobilidade pessoal (principalmente patinetes elétricos). Isso representa um aumento de 34% em relação ao ano anterior. Já o número de mortos quase dobrou, indo de 10 para 19.

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Dados de outras cidades europeias confirmam essa tendência. Na Alemanha, por exemplo, o número de mortos aumentou 27%. Metade dos feridos tinha menos de 25 anos.

Outros estudos também revelam que, entre os jovens, os patinetes elétricos causam mais acidentes em comparação com as bicicletas. As lesões incluem fraturas complexas, cerebrais traumáticas e na medula espinhal. A velocidade que atingem, combinada com a instabilidade de suas pequenas rodas e a falta de infraestrutura específica para eles, torna o deslocamento em patinetes um risco.

Mas vários outros fatores se combinam para criar esse coquetel perigoso. Entre eles, a falsa sensação de segurança, o baixo uso do capacetes, a falta de educação viária e a inexperiência dos jovens ao manobrar em altas velocidades em ambientes urbanos, congestionados e sem infraestruturas adequadas.

Bicicleta: o verdadeiro transporte do futuro

A solução para este dilema não é proibir, mas promover alternativas saudáveis e sustentáveis. A bicicleta, não necessariamente elétrica, é a chave para a mobilidade em trajetos urbanos de curta e média distância.

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A bicicleta oferece uma tripla vantagem que os patinetes elétricos não conseguem igualar. Este é o "modelo das três S":

  1. Saúde. Proporciona um gasto energético, contribuindo assim para a atividade física diária e para a melhoria de aspetos psicossociais.

  2. Sustentabilidade. É um meio de transporte com zero emissões, perfeitamente alinhado com a luta contra as mudanças climáticas.

  3. Segurança. Embora o risco exista, o design da bicicleta, sua estabilidade e a infraestrutura ciclística melhoram a segurança percebida e real.

Na Rede Espanhola para uma Infância Ativa e Saudável, insistimos que o futuro da mobilidade juvenil deve ser ativo, não assistido. É fundamental que as políticas urbanas, os educadores e as famílias priorizem a criação de ambientes seguros e atraentes para que os jovens possam caminhar e pedalar.

Algumas diretrizes para melhorar a saúde pública e a do planeta implicam investir em:

  • Ciclovias seguras e segregadas.

  • Ações para pedestres e pacificação do tráfego.

  • Facilitar o compartilhamento das vias com veículos motorizados.

  • Programas de educação viária ativa dentro e fora dos contextos escolares.

  • Campanhas que destaquem os benefícios físicos e mentais do ciclismo.

Os patinetes elétricos são uma ferramenta de mobilidade, mas não de saúde. Devemos garantir que a próxima geração não troque a oportunidade de ser ativa pela comodidade de ser assistida. O caminho para uma juventude mais saudável e um planeta mais verde passa por devolver a energia às pernas dos jovens.

The Conversation
Foto: The Conversation

Javier Brazo-Sayavera é membro da Aliança Global para uma Infância Ativa e Saudável. Além disso, coordena a Rede Espanhola para uma Infância Ativa e Saudável.

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Javier Molina García é membro da Rede Espanhola para uma Infância Ativa e Saudável e também da Rede Ibero-Americana de Investigação em Deslocamento Ativo, Saúde e Sustentabilidade.

Mario Jordi Sánchez é diretor do Grupo de Pesquisa Social Aplicada ao Esporte.

Palma Chillón Garzón é integrante da Rede Ibero-Americana de Investigação em Deslocamento Ativo, Saúde e Sustentabilidade, e também da Rede Espanhola para uma Infância Ativa e Saudável.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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