O blogueiro de viagens turco Ruhi Cenet, de 35 anos, vivenciou momentos de profunda incerteza e medo durante sua jornada a bordo do navio MV Hondius. Ele contou que ficou surpreso quando a vida a bordo do cruzeiro continuou normalmente mesmo após o capitão anunciar no dia 12 de abril a morte de um passageiro. O cenário, que deveria ser de lazer, transformou-se em um alerta sanitário global após a confirmação de que o hantavírus, uma rara e letal doença respiratória, estava circulando entre os presentes. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, três mortes já foram registradas e outros cinco indivíduos contraíram a enfermidade de forma confirmada ou provável.
Mortes e negligência no isolamento inicial
A percepção de segurança foi abalada logo no primeiro óbito registrado na embarcação. Ruhi Cenet relembrou as palavras do comando do navio em entrevista à agência AFP. "Ele disse que a morte ocorreu por causas naturais", lembrou Cenet. O blogueiro destacou a falta de agilidade na resposta da tripulação diante do risco biológico iminente. "Nem sequer consideraram a possibilidade de que fosse uma doença tão contagiosa. Não levaram o problema suficientemente a sério", disse o influenciador, que notou uma postura excessivamente relaxada da equipe responsável pela segurança dos turistas.
A confiança nas orientações médicas também foi colocada à prova durante o trajeto. O chefe da tripulação teria afirmado que o médico britânico do navio garantiu que ninguém estava infectado. Ironicamente, o próprio profissional de saúde acabou em estado grave semanas depois. Ruhi descreveu que a rotina de proximidade física continuou sem restrições. "Continuamos comendo todos juntos e não usávamos máscaras", afirmou Cenet. Diante da dúvida, ele e um colega cinegrafista optaram por um isolamento voluntário por precaução, sem saberem que um vírus perigoso já estava presente.
Riscos em comunidades isoladas e remotas
A preocupação de Ruhi Cenet se estende para além dos limites do casco do navio. Após a primeira fatalidade, a embarcação ancorou em frente a Tristão da Cunha, e o blogueiro agora teme o pior cenário possível para os habitantes locais. "Gostaria que não tivéssemos desembarcado lá depois da primeira morte, porque junto conosco havia mais cem passageiros, e eles estiveram interagindo com os moradores da ilha", recordou com pesar. Ele enfatizou que aquele é um dos seus maiores remorsos, já que a ilha é a mais remota do mundo e não possui infraestrutura médica para lidar com um surto dessa magnitude.
O blogueiro conseguiu desembarcar no território de Santa Helena em 24 de abril, acompanhado de outros passageiros. A tragédia o seguiu de perto quando ele embarcou em um voo para a África do Sul. No mesmo avião, viajava a viúva da primeira vítima, que acabou falecendo no dia seguinte ao voo. Informações recentes de conhecidos que permanecem no cruzeiro indicam que a situação mudou drasticamente, com passageiros agora confinados em suas cabines e utilizando máscaras de proteção o tempo todo para conter o avanço da doença.
Resposta da operadora e monitoramento atual
A Oceanwide Expeditions, empresa holandesa responsável pela operação do MV Hondius, emitiu um comunicado oficial sobre o estado atual da crise perto de Cabo Verde. A companhia anunciou que todos os passageiros que apresentaram sintomas de hantavírus já desembarcaram do navio. "Todos os passageiros que apresentaram sintomas de hantavírus desembarcaram do MV Hondius", declarou a empresa em nota. A evacuação incluiu três pessoas enviadas para a Holanda para tratamento e observação, sendo duas delas sintomáticas.
O navio agora segue em direção às Ilhas Canárias, onde os tripulantes e viajantes restantes passarão por monitoramento rigoroso antes de serem autorizados a voar para seus países de origem. O hantavírus é transmitido principalmente por roedores infectados e pode evoluir para complicações cardíacas e febres hemorrágicas. A jornada, que começou em Ushuaia no dia 1º de abril com 174 pessoas, deve ser concluída em Tenerife, na Espanha, onde a evacuação total é esperada para ocorrer no início da próxima semana, encerrando um capítulo sombrio para o turismo marítimo.