Trump recebe Lula e líderes falam que travaram reunião "produtiva"

7 mai 2026 - 17h10
(atualizado às 17h55)

Presidente é recebido por Trump na Casa Branca, em encontro estendido e sem imprensa. Americano chama brasileiro de "líder dinâmico" e Lula diz estar "muito otimista" com questão das tarifas.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi recebido nesta quinta-feira (07/05) na Casa Branca, em Washington, por seu homólogo americano, Donald Trump, num encontro publicamente comedido, que foi classificado pelos dois líderes como "produtivo".

A reunião na Casa Branca se estendeu por mais de três horas e ocorreu a portas fechadas. Lula e Trump também evitaram falar com a imprensa no interior da Casa Branca antes e depois do encontro, se limitando num primeiro momento pós-reunião a divulgar fotografias e mensagens. Uma coletiva de imprensa inicialmente prevista na Casa Branca também foi cancelada.

Publicidade

"Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o dinâmico Presidente do Brasil. Discutimos diversos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário", escreveu Trump na rede Thruth Social após a reunião.

Já Lula classificou o encontro como uma "reunião muito produtiva" em uma publicação que mostrava os dois líderes sorridentes.

"Saio muito satisfeito", diz Lula

Após a reunião, Lula e os ministros que o acompanharam na viagem falaram brevemente com a imprensa na embaixada brasileira em Washington, sem a presença de Trump. "Encontro produtivo", "reunião excelente" e "extraordinária", foram alguns dos adjetivos usados pelos ministros de Lula sobre a visita.

Publicidade

"Nós discutimos assuntos que eram considerados tabus", disse Lula, mencionando que os dois líderes discutiram terras raras e combate ao crime organizado, com o lado brasileiro dando ênfase na cooperação, e não na hegemonia de apenas um lado.

"Saio muito satisfeito da reunião. Vocês sabem que o presidente Trump rindo é melhor que ele de cara feia. Então eu recebi ele rindo, como é o povo brasileiro. O Brasil está preparado para discutir com qualquer país do mundo."

Questionado por um jornalista sobre a guerra no Irã, Lula reiterou que se opõe à ação militar dos EUA ao país, e que prefere o diálogo, mas indicou que evitou antagonizar com Trump nesse tema. "Não vou ficar brigando por causa da visão que ele tem da guerra", disse Lula.

Lula também afirmou que está "muito otimista" sobre a questão do tarifaço imposto por Trump. "Nossa relação é muito boa. Que pouca gente acreditava. E quero que seja assim com qualquer presidente do mundo", afirmou Lula, afirmando que não acredita que Trump tente interferir nas próximas eleições no Brasil.

Publicidade

"Não cancele os vistos dos jogadores brasileiros"

Lula demonstrou otimismo quanto ao futuro das relações bilaterais e disse que "as duas maiores democracias do continente podem servir de exemplo para o mundo".

O presidente disse perceber que Trump gosta do Brasil e que não acredita em uma interferência americana nas eleições presidenciais de outubro.

"Eu penso que nossa relação com o Trump é uma relação sincera […] Tenho razões para acreditar que Trump gosta do Brasil. Quero que ele saiba que nós, brasileiros, temos interesse em fazer os melhores acordos com os EUA."

Lula relatou uma brincadeira feita por ele durante o encontro, ao ser perguntado por Trump sobre as chances da seleção brasileira na Copa do Mundo, que será realizada nos EUA, México e Canadá. "Espero que você não cancele os vistos dos jogadores brasileiros, porque nós vamos vir aqui para ganhar a Copa do Mundo", disse Lula. "Ele riu - agora vai rir sempre."

Publicidade

"Saio daqui com a ideia de que demos um passo importante na consolidação da relação democrática histórica que o Brasil tem com os EUA", afirmou.

Reunião a portas fechadas sem surpresas

Foi o segundo encontro formal dos dois líderes desde o retorno do republicano à Casa Branca, em 2025.

No encontro, considerado como uma visita de trabalho - de caráter mais simples e objetivo do que uma visita de Estado -, havia previsão de discussão de temas que não foram pacificados em conversas anteriores, como barreiras tarifárias, acesso a terras raras e investigações comerciais, além de discussões sobre segurança pública, incluindo a possibilidade de classificar facções brasileiras como organizações terroristas.

O encontro a portas fechadas, contrastou com reuniões anteriores de Trump com os presidentes Volodimir Zelenski, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul, nas quais o líder americano constrangeu os visitantes nas frentes das câmeras. No final, Lula não passou pela mesma situação tensa enfrentada por outros líderes na Casa Branca.

Cinco ministros acompanharam Lula na visita - Mauro Vieira (Relações Exteriores); Dario Durigan (Fazenda); Márcio Rosa (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior); Alexandre Silveira (Minas e Energia); Wellington César Lima e Silva (Justiça e Segurança Pública) -, além do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Publicidade

Já do lado dos EUA, além de Trump, participaram o vice-presidente JD Vance, a chefe de Gabinete, Susie Wiles, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Lula passou a noite na residência oficial da embaixadora do Brasil em Washington, antes de se dirigir à Casa Branca nesta quinta-feira.

Nos últimos meses, o presidente americano já vinha sinalizando disposição para encerrar a animosidade com Lula - estimulada por aliados da família do ex-presidente Jair Bolsonaro -, mas o terreno de negociação entre os dois governos ainda estava pouco alinhado.

O governo brasileiro parece empenhado em evitar um clima de tensão às vésperas da eleição presidencial. Também no segundo semestre, Trump deverá enfrentar um quadro bastante complicado nas eleições de meio de mandato nos EUA, em meio à baixa popularidade de seu governo.

Apesar de amplamente noticiada, a viagem demorou a ser oficializada, um gesto incomum que analistas viam como receio de um possível cancelamento de última hora. No início do ano, Lula chegou a anunciar que iria aos Estados Unidos em março, o que acabou não ocorrendo devido à guerra no Irã.

Publicidade

Eleições no Brasil e nos EUA

O contato mais recente entre Lula e Trump - um encontro rápido durante um evento na Malásia, seguido de uma curta ligação em janeiro - rendeu ao brasileiro avanços pontuais, como a derrubada de sanções contra autoridades e alívio em tarifas comerciais.

Agora, porém, o cenário era mais sensível para o petista: em meio a um ambiente pré eleitoral acirrado, a pauta americana ganhou peso no debate doméstico. Ainda há receio em Brasília de que Trump queira se envolver mais ativamente na disputa eleitoral brasileira. Lula tem reforçado o discurso de soberania nacional diante do ímpeto intervencionista de Trump, ao mesmo tempo em que tenta sinalizar abertura ao diálogo.

No campo oposicionista, o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro trabalha para aproximar o bolsonarismo do universo político de Trump. O parlamentar também esteve nos EUA nesta semana. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, criticou a visita do petista. "E a narrativa de Lula defender a soberania nacional? A verdade é que Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Entre um e outro existe um abismo!", escreveu no X.

Apesar do tom mais amistoso, ruídos diplomáticos persistem. Em abril, os Estados Unidos expulsaram um delegado brasileiro da Polícia Federal (PF) envolvido na prisão do deputado federal Alexandre Ramagem, acusando-o de contornar pedidos formais de extradição. Em resposta, um agente americano que atuava no Brasil teve suas credenciais cassadas.

Publicidade

Nas últimas semanas, Lula criticou de maneira mais incisiva a atuação americana na guerra do Irã.

Lula também vem reiterando sua oposição ao protecionismo praticado por países desenvolvidos. O governo brasileiro tampouco considera encerrado a questão do tarifaço sobre produtos nacionais, ainda que parte das medidas tenha sido diluída por uma tarifa global anunciada pelos EUA em fevereiro.

Pix e segurança pública

Um dos principais interesses públicos de Trump, porém, tem sido a classificação das organizações criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas, medida que ampliaria o alcance das investigações transnacionais dos EUA sobre o Brasil e mudaria a forma como o país lida com operações desses grupos em seu território.

Lula disse que não discutiu com Trump a questão das organização criminosas no Brasil, mas que ambos conversaram sobre como combater o crime organizado e o tráfico de drogas.

Publicidade

O petista disse que entregou as medidas adotadas pelo seu governo no combate ao crime e relatou ter proposto a criação de um grupo internacional de combate ao crime organizado, envolvendo países da América Latina e outras nações.

O Brasil rejeita classificação das organizações criminosas como grupos terroristas por entender que há instrumentos mais adequados para o combate ao crime organizado. Há ainda o temor de que os EUA usem o enquadramento para justificar ações em território brasileiro.

Em março, Washington excluiu Brasil e México de uma iniciativa de segurança para a América Latina, a Escudo para as Américas, e Trump não tem arrefecido a pressão sobre o tema.

Outro assunto que não foi discutido foram as incertezas americanas em relação ao Pix, Lula disse que esperava que os americanos perguntassem a respeito do sistema de transferências bancárias e pagamentos instantâneos, mas, como não o fizeram, ele decidiu não tocar no assunto.

Publicidade

O Pix entrou na mira de uma investigação comercial dos EUA. Washington vê o modelo como prejudicial à concorrência de outros sistemas de pagamento eletrônico.

Exploração de terras raras

Desde os primeiros atritos com o governo petista, Trump demonstra interesse no acesso às vastas reservas brasileiras de cobre, níquel, nióbio e lítio - as chamadas terras raras.

O assunto é tratado como questão de segurança nacional e considerado essencial em qualquer negociação para normalizar as relações bilaterais. Anteriormente, chegou a ser aventado como condição para aliviar o tarifaço.

Em abril, durante uma visita à Alemanha, Lula assinou acordos relacionados à exploração de minerais em território brasileiro e afirmou que o país não vetará parceiros estrangeiros nem estabelecerá preferências na exportação dos produtos, algo que desagrada Washington. Trump tem indicado de forma explícita que busca acesso prioritário, na tentativa de contornar a concorrência chinesa.

Publicidade

jps/rc (DW, ots)

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se