Presidente afirmou, ao defender gastos militares, que conflito da Tríplice Aliança teve início quando Paraguai "decidiu invadir o Brasil". Para deputados e senadores do país vizinho criticaram declaração.Deputados e senadores paraguaios acusaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de "distorcer a história" ao alegar que a Guerra do Paraguai teve início quando o país vizinho "decidiu invadir" o Brasil. A declaração de Lula ocorreu na sexta-feira (24/07), na visita à Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), quando o presidente da República defendeu investimentos no setor da defesa e o fortalecimento das Forças Armadas.
"Lula, você está falando com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente", afirmou o presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, do Partido Colorado, citado em um comunicado institucional divulgado neste domingo (26/07).
Latorre disse que a Guerra da Tríplice Aliança, que opôs o Paraguai à Argentina, ao Brasil e ao Uruguai, que vitimou 60% da população local e de 90% da população masculina, "teve seu início com a intervenção militar do Brasil no Uruguai" e que o conflito "deixou o Paraguai devastado".
"Você já disse uma vez que iria acabar com a guerra na Ucrânia 'com uma cervejinha'. Hoje, volta a falar de forma leviana sobre conflitos armados na América; se suas 'jabuticabas' acabaram, podemos te enviar algumas. Nós conhecemos o verdadeiro valor da paz, porque a pagamos com nosso sangue", concluiu o político.
"Há loucos pelo mundo", disse Lula
Na última sexta-feira, Lula defendeu que as Forças Armadas fossem "bem preparadas e treinadas" como força de dissuasão porque, segundo ele, "há loucos pelo mundo querendo fazer guerra", ao mesmo tempo em que defendeu a necessidade de possuir "poderio armamentista" para "falar de paz".
"Nós gostamos da paz, mas não podemos esquecer que, certa vez, o Paraguai decidiu invadir o Brasil", disse o presidente brasileiro, no discurso em Jacareí. "Invadiu Corumbá e, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai e a Argentina. E essa guerra, que parecia que não seria grande coisa, durou cinco anos", afirmou o petista.
Esquerda paraguaia vê "imperialismo"
As declarações de Lula também provocaram a reação do deputado da oposição Rubén Rubín, do partido Hagamos, de centro, que acusou Lula de tentar "distorcer a história". "Um povo que esquece sua história permite que outros a reescrevam conforme lhes convém. E é exatamente isso que Lula tenta fazer", afirmou o deputado no sábado, na rede X.
Já a senadora Esperanza Martínez, da Frente Guasú, de esquerda, declarou, também no sábado no X, que as declarações de Lula são "resquícios do imperialismo que tentam ocultar uma guerra criminosa e uma política histórica de domínio e abuso por parte da elite brasileira" contra o Paraguai.
Da mesma forma, o senador da oposição e historiador Eduardo Nakayama, do Partido Liberal Radical Autêntico, afirmou na sexta, também no X, que Lula "esqueceu" de mencionar que, antes de o Paraguai iniciar a chamada campanha militar de Mato Grosso, na qual invadiu o sul do Brasil, "o exército imperial brasileiro invadiu o Uruguai", o que desencadeou a guerra "mais sangrenta" da história da América do Sul.
A Guerra do Paraguai foi resultado de uma série de tensões e disputas regionais na Bacia do Prata durante a segunda metade do século 19. A intervenção militar brasileira no Uruguai, em 1864, é apontada por parte da historiografia como um fator que contribuiu para a escalada da crise.
Pouco tempo depois, o Paraguai apreendeu o navio brasileiro Marquês de Olinda no Rio Paraguai e, na sequência, invadiu a província de Mato Grosso. A partir daí, Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança e avançaram sobre o território paraguaio.
fcl (EFE, ots)
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