Paradoxo trumpista: desregulamentação das armas nos EUA abastece facções brasileiras que Washington chama de terroristas

Ao mesmo tempo em que classifica facções brasileiras como terroristas, EUA facilita de maneira inédita o escoamento de armas para essas facções

15 jul 2026 - 05h47

Em maio de 2026, o Departamento de Estado dos EUA designou as duas maiores facções brasileiras, o PCC e o Comando Vermelho (CV), como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs). Com o anúncio de suas iminentes classificações como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs), Washington sinalizou uma ofensiva implacável contra as redes de financiamento internacional desses grupos, criminalizando qualquer forma de "apoio material" ao abrigo de severas penas federais.

No entanto, por trás desta retórica de segurança nacional, reside uma profunda contradição de política comercial: as reformas de desregulamentação do mercado de armas promovidas pela administração americana facilitam, de maneira inédita, o escoamento de fuzis de assalto para essas facções consideradas terroristas.

Armas de fogo pelo correio

No plano interno norte-americano, em abril de 2026, o Departamento de Justiça (DOJ) e o Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) assinaram um pacote coordenado de 34 reformas normativas. A principal e mais controversa medida é a regra proposta número 1140-AB05, que regulamenta transações comerciais interestaduais com envio postal direto ao domicílio do comprador.

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Pela proposta, o adquirente pode comprar armas de fogo pela internet e recebê-las diretamente em sua residência, bastando passar por uma verificação remota de identidade e antecedentes de forma inteiramente eletrônica, eliminando a obrigação de comparecimento físico a uma loja licenciada.

Especialistas e associações de segurança pública criticam duramente a medida, alertando que ela destrói a primeira linha de defesa contra o contrabando: o escrutínio presencial do lojista, crucial para detectar suspeitas de compras de "fachada".

A facilitação logística das vendas digitais beneficia diretamente distribuidores online de grande porte como a GrabAGun, apelidada de "Amazon das armas". Donald Trump Jr., filho do presidente, integra o conselho da GrabAGun e detém mais de 300.000 ações da empresa, que obteve um financiamento milionário de 119 milhões de dólares ao abrir capital na bolsa através de uma fusão.

Embora os envolvidos neguem conhecimento prévio da nova regra, este alinhamento exemplifica a extrema permissividade a que o varejo doméstico dos EUA é conduzido.

Se a facilitação das vendas internas fragiliza o rastreamento, as mudanças nas exportações civis afetam diretamente a segurança transnacional. Em setembro de 2025, o Bureau de Indústria e Segurança (BIS) do Departamento de Comércio revogou na totalidade a Regra Final Interina (IFR) instituída em maio de 2024.

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A norma anterior restringia a exportação comercial de armamentos civis para 36 países classificados como de alto risco para o desvio de armas para cartéis e grupos paramilitares, incluindo vizinhos do Brasil como o Paraguai, Suriname, Colômbia e Peru.

Alegando que tais controles representavam barreiras onerosas que custavam à indústria armamentista norte-americana cerca de 500 milhões de dólares anuais, a administração extinguiu a "presunção de negação" para exportações a esses destinos e estendeu a validade das licenças de exportação civis de um para quatro anos.

A desregulamentação desconsidera relatórios críticos, como o do Government Accountability Office(GAO), que demonstrou que quase 73% das armas apreendidas em contextos ilícitos na bacia caribenha eram de origem norte-americana. Ao reabrir esses canais comerciais na América do Sul, os EUA restabelecem a infraestrutura logística ideal para que redes criminosas promovam a triangulação de arsenais militares para o Brasil.

Reflexos diretos no Brasil

No território brasileiro, os reflexos operacionais dessas lacunas logísticas manifestam-se por meio de canais aéreos e terrestres bem estruturados.

De um lado, o estado da Flórida consolida-se como o epicentro das aquisições de armas que entram desmontadas e ocultadas em mercadorias de consumo. Em maio de 2026, a Polícia Federal e a Receita Federal interceptaram um fuzil AK-47 enviado da Flórida para Porto Alegre, escondido dentro de um forno elétrico.

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Em março de 2023, outra apreensão no Aeroporto de Viracopos identificou 30 fuzis camuflados em prensas hidráulicas industriais. Sob as novas diretrizes do ATF, os compradores de fachada poderão pulverizar aquisições de fuzis de assalto pela internet sem necessidade de presença física nos estabelecimentos, agilizando o escoamento internacional.

Por outro lado, as rotas de triangulação terrestre ganham força com o afrouxamento regulatório regional. A Operação Dakovo revelou a dimensão do mercado de armas que flui pela fronteira paraguaia, com esquemas que importavam fuzis europeus com a conivência de militares de alto escalão corruptos para depois repassá-los a intermediários do PCC e do CV.

Da mesma forma, o Suriname opera como um entreposto estratégico para o Comando Vermelho na Amazônia. Em junho de 2026, a Operação Red Fox desmantelou uma quadrilha sediada em Paramaribo, na qual o operador Arnaldo Ribeiro coordenava transações de fuzis AK-47 por 150.000 reais cada para lideranças do CV no Rio de Janeiro, movimentando mais de 150 milhões de reais via contas de passagem e transferências via Pix.

Manufatura híbrida e nacionalização de armas

No entanto, o fluxo de armas importadas completas é apenas parte do problema. O legado da flexibilização das regras de armas para CACs (caçadores, atiradores desportivos e colecionadores) no Brasil entre 2019 e 2022 empurrou as facções para um processo acelerado de manufatura híbrida e nacionalização. Durante o governo anterior no Brasil, redes criminosas cooptaram cidadãos sem antecedentes para adquirir legalmente armas pesadas e munições protegidos por guias de trânsito regulares. Com o posterior endurecimento das regras em 2023, as facções migraram para uma estrutura de produção fabril doméstica sofisticada, com componentes importados.

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Em agosto de 2025, a Polícia Federal desmantelou uma planta industrial clandestina de alta precisão em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo. Sob a fachada de uma empresa de componentes aeronáuticos, a fábrica era de propriedade do piloto Gabriel Carvalho Belchior e possuía capacidade de produzir até 3.500 fuzis completos do tipo AR-15 por ano.

A logística de Belchior unia o melhor de dois mundos: ele mantinha uma residência alugada na Flórida onde comprava fuzis desmontados, despachando componentes críticos como canos e ferrolhos de precisão ocultos em remessas de piscinas infláveis. Na fábrica paulista, 11 máquinas industriais CNC de alta precisão usinavam os fuzis híbridos para as facções.

Esta produção nacionalizada barateia drasticamente o custo operacional do crime. Estima-se que a indústria de Belchior e seu associado Silas Diniz Carvalho (que operava outra fábrica clandestina em Belo Horizonte sob o disfarce de uma marcenaria) tenham fornecido mais de 1.000 fuzis híbridos ("armas fantasmas") para facções e milícias cariocas antes de serem desmanteladas.

Este cenário desafia os próprios diagnósticos das polícias. Relatórios que apontam o predomínio absoluto de armas norte-americanas colidem com o que especialistas apontam: sem uma perícia metalúrgica avançada, é inviável discernir fuzis legítimos norte-americanos de réplicas nacionais que estampam marcações de marcas internacionais forjadas nas CNC brasileiras.

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A confluência desses fatores expõe a profunda assimetria na cooperação internacional. Enquanto o Itamaraty teme que a designação terrorista unilateral por parte dos EUA abra caminho para intervenções discricionárias que violam a soberania nacional, Washington exime de responsabilidade civil revendedores norte-americanos que continuam a lucrar com a venda descontrolada de fuzis.

Enquanto as brechas de comércio eletrônico e postal do ATF permanecerem abertas nos EUA, a rotulação terrorista do PCC e CV terá fins eminentemente políticos. Enquanto o governo dos Estados Unidos finge combater o fluxo de armas que abastece as organizações criminosas por toda a América Latina, resta ao Brasil focar no monitoramento financeiro de empresas de fachada, inteligência integrada e no controle rigoroso sobre maquinários CNC de precisão no mercado nacional.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Roberto Uchôa é bolsista de doutorado da Fundação da Ciência e Tecnologia de Portugal e é membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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