"Naza": Exército de Israel contesta documentário sobre abusos em Gaza

2 out 2026 - 14h51
(atualizado às 14h57)
Resumo
O documentário premiado "Naza", de Rachel Szor e Yuval Abraham, denuncia a morte deliberada de civis palestinos em Gaza como "dano colateral", apoiando-se em relatos de militares israelenses que revelam a aceitação de centenas de vítimas civis por ataque. As Forças de Defesa de Israel rebateram a obra, alegando manipulação e erros factuais na descrição dos alvos. Sob forte ataque do governo de Israel, os diretores defendem a apuração com mais de cem fontes e recebem apoio de ONGs humanitárias.

Em "Naza", militares israelenses envolvidos na guerra denunciam morte deliberada de civis palestinos como "efeito colateral". Filme foi premiado no Festival de Veneza.As Forças de Defesa de Israel (FDI) divulgaram nota nesta quinta-feira (01/10) para rebater o documentário Naza, obra que denuncia a responsabilidade da instituição pela morte de milhares de civis palestinos durante a guerra na Faixa de Gaza.

Cena do documentário "Naza", em exibição nos cinemas do Brasil 
Cena do documentário "Naza", em exibição nos cinemas do Brasil
Foto: DW / Deutsche Welle

O filme dos diretores Rachel Szor e Yuval Abraham estreou nesta quinta-feira nos cinemas do Brasil e foi agraciado em setembro com o Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza, um dos maiores do cinema mundial, onde foi aplaudido por cerca de 25 minutos.

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Em sua nota, as FDI acusam os cineastas de apresentarem uma visão incompleta do processo de seleção de alvos militares, focando apenas etapas "iniciais", mas não o "planejamento e aprovação".

Segundo a instituição, a narrativa do filme se baseia em "erros factuais significativos", resultantes de "representações manipuladas e enganosas" da realidade, além de "especulações e suposições sem fundamento". Com isso, os diretores teriam propagado uma "imagem distorcida, enganosa e desonesta" sobre a atuação das FDI no conflito.

Um olhar sobre os bastidores da guerra em Gaza

Com duração de 80 minutos, Naza é baseado em entrevistas com 24 militares e agentes de inteligência anônimos. Eles descrevem processos internos e mecanismos de tomada de decisão na seleção de alvos para ataques na Faixa de Gaza. De acordo com os entrevistados, em alguns casos um saldo de até 500 vítimas civis poderia ser considerado aceitável.

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Um dos relatos menciona o caso concreto de um pai de família, suspeito de integrar o Hamas, que teve a casa bombardeada enquanto outras famílias também se abrigavam ali.

O grupo armado palestino liderou os ataques terroristas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que desencadearam o atual conflito em Gaza.

O nome do documentário deriva justamente da expressão "Nezek Agavi" (do hebraico: "dano colateral"), usada no meio militar, segundo um dos soldados, para se referir ao número estimado de civis que poderiam morrer em um ataque contra alvos islamistas.

As FDI, porém, negam que tenham sido planejados ou executados ataques nos quais se esperasse a morte de centenas de civis. Também seria falsa a alegação de que a inteligência artificial selecionava alvos de forma autônoma. As decisões sobre alvos e ataques, afirma o Exército, sempre foram tomadas por pessoas.

Ao mesmo tempo, os militares acusam os realizadores de omitirem aspectos importantes. O filme não mostraria o papel de assessores jurídicos militares e comandantes na análise e autorização dos ataques, nem abordaria as medidas adotadas para proteger civis.

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As FDI também sustentam que, em acordo com o direito internacional, os ataques são suspensos quando os danos associados são considerados desproporcionais em relação à vantagem militar esperada.

Reagindo à nota dos militares israelenses, a produção do filme respondeu ter se baseado em mais de cem fontes com conhecimento dos sistemas militares usados na guerra.

"A tentativa das FDI de retratar os 24 participantes de Naza como oficiais de baixa patente envolvidos apenas nas etapas iniciais do processo de seleção de alvos é falsa", afirmou em declaração ao jornal britânico The Guardian, co-produtor da obra. "Entre eles há oficiais e soldados que participaram de múltiplas fases do processo de seleção de alvos em Gaza, incluindo inteligência, operações e a etapa final de autorização."

Os produtores do filme ressaltaram ainda que o uso de sistemas de IA e o relaxamento de diretrizes de proteção a civis foram confirmados por outros veículos jornalísticos de peso, como New York Times, Washington Post e Associated Press.

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Reações a "Naza" em Israel

Apesar de elogiado no exterior, Naza tem provocado um intenso debate em Israel. O premiê Benjamin Netanyahu criticou duramente a obra, enquanto seu ministro da Cultura, Miki Zohar, classificou-a de traição ao país e defendeu que Szor e Abraham tenham a cidadania israelense revogada.

"Acreditamos que negar um crime contribui para que ele continue existindo. Por isso, é realmente muito importante para nós que os israelenses vejam este filme", declarara Abraham no Festival de Veneza em setembro.

Ele e Szor também participaram do documentário "Sem Chão", vencedor do Oscar em 2025, que trata da ocupação israelense na Cisjordânia, considerada ilegal perante o direito internacional.

Em contrapartida, diversas organizações de direitos humanos, entre elas a organização israelense B'Tselem, manifestaram apoio aos diretores.

A atuação de Israel na guerra de Gaza é classificada como genocídio por diversas organizações internacionais de direitos humanos e por uma comissão da ONU. De acordo com autoridades de saúde locais e outras fontes, pelo menos 74 mil palestinos foram mortos na Faixa de Gaza desde o início da guerra.

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Não há levantamentos oficiais sobre mortos em Gaza separados por vítimas militares e civis, mas uma estimativa do próprio Exército israelense divulgada em meados de outubro fala em cerca de 24 mil combatentes.

ra/md (DPA, EPD, KNA, EFE, ots)

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