"Não é possível alguém achar que é dono dos outros países", diz Lula ao criticar uso da força por nações ricas

O presidente condenou o retorno de práticas colonialistas e a pressão das potências sobre os minerais críticos da América Latina

23 mar 2026 - 00h27

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou sua participação na 10ª Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e no I Fórum Celac-África, em Bogotá, para disparar críticas severas contra a postura das potências globais. Durante o evento realizado neste sábado, Lula manifestou profunda preocupação com as intimidações recorrentes à soberania dos países da América Latina e do Caribe. Para o mandatário brasileiro, o cenário atual reflete uma tentativa de retomada da política colonialista, citando nominalmente a influência dos Estados Unidos na região. Em suas palavras, o respeito à autodeterminação dos povos está sendo ignorado por aqueles que detêm maior poder bélico e econômico.

Lula critica nações ricas por invasões e colonialismo na Celac
Lula critica nações ricas por invasões e colonialismo na Celac
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil / Perfil Brasil

"Não é possível alguém achar que é dono dos outros países. O que estão fazendo com Cuba agora? O que fizeram com a Venezuela? Isso é democrático?", questionou o presidente de forma enfática. Ele prosseguiu desafiando a legitimidade jurídica das intervenções internacionais ao indagar em que parágrafo ou artigo da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU) está estabelecido que um governante possui o direito de invadir outra nação. "Em que documento do mundo está dito isso? Nem da Bíblia. Não existe nada que permita que isso aconteça. É a utilização da força e do poder para nos colonizar outra vez?", completou.

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Defesa da soberania e controle de minerais críticos

O discurso também trouxe à tona a disputa por recursos naturais essenciais para o futuro do planeta. Lula exemplificou o caso da Bolívia, que enfrenta pressões externas devido às suas vastas reservas de lítio, mineral fundamental para a produção de baterias elétricas e para a transição energética global. Ele relembrou o passado de exploração sofrido pelas nações do Sul Global, onde riquezas como ouro, prata e diamantes foram extraídas sem deixar desenvolvimento local. "Aqui, neste plenário, todo mundo tem experiência de que o seu país já foi saqueado em tudo que é ouro que tinha, tudo que é prata, que é diamante, tudo que é minério", afirmou.

Para o líder brasileiro, o momento exige que os países da África e da América Latina deixem de ser meros exportadores de matéria-prima. Ele defendeu que esses materiais devem impulsionar o avanço tecnológico interno, gerando um salto de qualidade na produção de combustíveis alternativos e na indústria regional. "Ou seja, já levaram quase tudo da Bolívia. Agora que a Bolívia tem minerais críticos, é a chance da Bolívia, da África, da América Latina não aceitar ser apenas exportador de minerais para eles", acrescentou, reforçando que empresas estrangeiras devem se instalar e produzir nos países de origem dos recursos.

Críticas à ONU e aos gastos com a indústria bélica

A ineficiência das instituições multilaterais foi outro ponto central da fala de Lula. Ele criticou duramente o Conselho de Segurança da ONU por não cumprir seu papel de mediador e pacificador, citando conflitos em Gaza, Líbia, Iraque e Ucrânia. Segundo o presidente, os próprios membros permanentes do Conselho são, muitas vezes, os protagonistas das guerras que deveriam evitar. "O que estamos assistindo no mundo é a falta total e absoluta de funcionamento das Nações Unidas. O Conselho de Segurança da ONU e os seus membros permanentes foram criados para tentar manter a paz. E são eles que estão fazendo as guerras", sentenciou.

Lula ainda lamentou o contraste entre o investimento em armamentos e a persistência da miséria humana. Ele destacou que os trilhões de dólares gastos em conflitos anualmente poderiam ser redirecionados para sanar problemas básicos de infraestrutura, educação e alimentação. "É importante que a gente não perca de vista que, enquanto se gastou no ano passado US$ 2,7 trilhões em armas e guerras, nós ainda temos 630 milhões de pessoas passando fome", alertou. O presidente concluiu defendendo que a verdadeira guerra a ser vencida é contra o analfabetismo e a desigualdade, mantendo o Atlântico Sul livre de disputas geopolíticas alheias.

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